Direto do Twitter

26/04/2011

Como fazer disseminação de conhecimento em tempos de internet

Quando criei o Surdina, em 2008, sabia que estava fazendo algo relativamente irregular. Em 2007/2, quando comecei a trabalhar como professor substituto do Instituto de Letras da UFRGS, resolvi colocar na internet, em um blog, boa parte dos textos que eu estava trabalhando com meus alunos. Alguns eram ensaios retirados de livros, outros de jornais. Devo ter colocado também alguns textos literários que faziam parte do conteúdo das disciplinas. No início de 2008/1, organizei o material, registrei um domínio, contratei um servidor e coloquei o Surdina no ar. Fiz isso porque queria evitar ao máximo a circulação de cópias xerocadas dos materiais. A meu ver, o estudante que poupa seu dinheiro não fazendo cópias reprográficas fica com dinheiro sobrando pra comprar os livros que julga mais importantes.

Eu tinha sido contratado para ministrar cadeiras variadas de Literatura Brasileira. Eu sabia que nem todos meus alunos tinham interesse em aprofundar seus estudos em Literatura Brasileira. Alguns estavam lá por causa da Linguística, outros por causa de alguma Língua Estrangeira, ou simplesmente queriam estudar Língua Portuguesa. Então, eu não via por que os alunos deveriam tirar xerox de materiais que iriam pro lixo no fim do semestre. Com muita frequência, eu indicava algum ensaio retirado de algum livro de Antonio Candido, por exemplo. Os ensaios de Candido são muito lidos nos cursos de Letras (embora eu sinta que ele tem mais leitores na UFRGS que na USP ou em outras universidades, mas isso é uma outra conversa), mas cada livro seu de ensaios reúne textos variadíssimos. Em Vários Escritos, por exemplo, Candido tem textos sobre Basílio da Gama, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Ora, segundo o currículo do curso de Letras da UFRGS, cada um desses autores é trabalhado em semestres diferentes. O primeiro aparece em Literatura Brasileira A; o segundo, em Brasileira B; e o terceiro, em Brasileira C. Para o aluno que se interessa por Literatura, o melhor é comprar logo esse livro, porque ele vai utilizá-lo muito ao longo do curso. E, se o estudante seguir fazendo mestrado e doutorado, será um livro de referência.

Mas se o foco não é Literatura, não faz muito sentido comprar esse livro. Livros são caros no Brasil, e estudantes normalmente não têm muito dinheiro para comprá-los. Por isso, professores e estudantes recorrem ao xerox. Eu só não precisei tirar cópias de nenhum texto em apenas uma cadeira de minha graduação inteira (no caso, era uma disciplina da Faculdade de Educação, e o professor gravou todos os textos num disquete que havíamos emprestado a ele — velhos tempos!). Quase todos meus professores solicitavam a leitura de textos e livros semanalmente. As bibliotecas das universidades federais, infelizmente, não conseguem sustentar as necessidades de seus estudantes. Todo ano, entram mais de 200 alunos no curso de Letras da UFRGS, mas a biblioteca não tem 200 exemplares da Formação da Literatura Brasileira, livro também de Antonio Candido que é lido na primeira cadeira de Literatura Brasileira, no primeiro semestre, embora nem todos professores solicitem a leitura do livro inteiro. Se a biblioteca tiver 50 exemplares, é muito (50? Se tiver 30, já é muito). Ou seja: como não tinha dinheiro pra comprar tudo (e, mesmo que tivesse, muitos livros estavam esgotados — e naquela época não existia a Estante Virtual), ou eu fazia cópias de boa parte dos textos solicitados, ou seria obrigado a ir às aulas sem ter lido os textos, prática que sempre abominei, mesmo não gostando da matéria.

Talvez fosse interessante que as editoras brasileiras organizassem seu catálogo de forma a vender, em formato e-book, textos individuais, além do livro inteiro, claro. Isso já acontece com a música (acho que todo mundo sabe que é possível comprar canções individuais, embora saia mais barato comprar o álbum inteiro). O problema é que o e-book ainda é caro no Brasil. Recentemente, uma editora lançou boa parte de seu catálogo nesse formato, mas quase todos os livros têm apenas R$ 1,00 de diferença para o livro impresso. A meu ver, algo está errado nisso.

De qualquer forma, depois que criei o Surdina, vários colegas professores começaram a indicar o site. Alguns me enviaram textos seus, além de textos de outros autores, para que eu linkasse o material. Quando algum texto não estava no Surdina, vários alunos perguntavam quando eu o linkaria. E, muitas vezes, indiquei links de textos e materiais esgotados, muito difíceis de serem encontrados. Confesso que perdi um pouco a paciência que eu tinha para atualizar o site. Já não tenho mais o mesmo tempo e nem o mesmo prazer em atualizá-lo, porque é muito raro alguém entrar em contato pedindo um texto, enviando um texto relevante ou simplesmente agradecendo a indicação do conteúdo.

Mas estou escrevendo isso tudo porque uma editora entrou em contato com o WordPress para retirar um blog que estava ali hospedado. O blog em questão, Letras USP Download, indicava links para download de textos lidos no curso de Letras da USP e de outras universidades. Era um blog muito organizado e que estava prestando um serviço fundamental para a disseminação do conhecimento. Mesmo assim, compreendo que as editoras não olhem com bons olhos esse tipo de serviço. Mas, antes de combaterem um blog, deveriam combater a prática das cópias reprográficas. Como? Certamente, não adianta fazer denúncias à Polícia Federal para que professores e centros de reprografia não aceitem reproduzir conteúdo protegido pela Lei dos Direitos Autorais. Isso suspende o problema apenas temporariamente. A Polícia Federal não vai colocar um agente diariamente em cada centro de reprografia de cada curso superior Brasil afora. Para combater esse tipo de problema, é necessário mudar a estratégia de distribuição e venda de conteúdo. A música já mudou. Resta saber quando o acesso ao conhecimento vai mudar também.

Quem tem interesse no assunto, pode seguir o Letras USP Download através do twitter @livrosdehumanas (e o jornalista @eduardosterzi também comprou a briga no apoio ao Letras USP Download). Duvido que a editora que derrubou o blog no WordPress consiga derrubar o twitter. No final das contas, o conhecimento continuará circulando, como deve ser.

PS: nunca ganhei nada com o Surdina. Só gastei. Os anúncios que estão na página são de empresas de amigos e da Livraria Cultura (mas pouca gente comprou livros linkados pelo Surdina e essas compras ainda não somaram o valor necessário pra retirada). Ninguém nunca quis anunciar oficialmente no Surdina. Mais um motivo de desânimo…

PS2: o Surdina não armazena os arquivos que estão linkados nas bibliotecas virtuais. Os textos e materiais estão apenas linkados ali. O Surdina não se responsabiliza pelo conteúdo dos arquivos. Se algum autor ficar incomodado, pode denunciar o link pro 4shared, que é o provedor onde estão armazenados os arquivos.

01/01/2011

Jogo extra-oficial do Gauchão de Literatura

Há alguns meses, me envolvi numa polêmica num jogo do Gauchão de Literatura. Prometi à autora com quem discuti que leria seu livro e o resenharia. Acabei não fazendo isso, embora tenha lido o livro, porque não teria muito a dizer, afinal o livro é muito ruim. Mas essa semana, no evento que ocorreu no Studio Clio para comemorar a final do Gauchão, o Rodrigo Rosp me presenteou com seu livro Fora do Lugar. Então, achei que valia a pena escrever uma partida extra-oficial do Gauchão de Literatura envolvendo este livro e o Flores da Cor da Terra, de Lívia Petry, a tal autora com quem discuti. Então vamos ao jogo:

Jogo Extra Oficial: Fora do Lugar X Flores da Cor da Terra

Pelo juiz Marcelo Frizon

Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)
x
Flores da Cor da Terra,
de Lívia Petry (Nova Prova / 2009)

———————

TIME 1: Fora do Lugar, de Rodrigo Rosp

UNIFORME: Como todos os livros da Não editora, Fora do Lugar tem uma edição muito bem cuidada. A foto que ilustra a capa é provocativa: uma poltrona vermelha no meio de uma estrada deserta. A capa está em perfeita harmonia com o título e parece indicar com perfeição o conteúdo do livro. Digo “parece” pensando naqueles que ainda não leram o livro. Eu, que já o li, posso confirmar: a capa é uma tradução da literatura de Rosp. Samir Machado de Machado sabe captar perfeitamente a ideia de cada autor para sua obra e criar capas inteligentes, elegantes e provocativas, como esta.

ESQUEMA DE JOGO: Estamos diante de treze contos curtos. Alguns bem curtos, alguns um pouco mais longos, mas todos juntos formam uma unidade bem acabada. Pode incomodar um pouco o excesso de comentários elogiosos que acompanham o livro: Claudia Tajes assina um comentário na contracapa, Ricardo Silvestrin ficou responsável pela orelha e Rafael Bán Jacobsen nos apresenta um ensaio sobre os contos num belo prefácio. No entanto, o aval desses três escritores serve para termos certeza de que não estamos diante de um novo autor que não merece atenção.

GOL DE PLACA: As várias narrativas em primeira pessoa são muito bem construídas. Para um autor, como Rosp, que trabalha com o nonsense, o absurdo, o fantástico, escrever uma narrativa em primeira pessoa parece-me algo extremamente difícil. Pode ser apenas a impressão de um leitor com suas próprias ambições literárias (eu, no caso) que sabe reconhecer seus limites na construção de um texto aparentemente simples, mas que trabalha com elementos extremamente complexos.

BOLA FORA: O conto “Linguista” é uma brincadeira com a gramática da língua portuguesa: dois linguistas se conhecem, se apaixonam e, a partir daí, acompanhamos as consequências trágicas do relacionamento. O problema é que o autor abusa de construções fáceis, por exemplo: “O corpo e a mente de Diana desapareciam, e tudo se resumia à sua língua. Não existia sujeito, apenas objeto.” E temos vários casos semelhantes ao longo da trama.

TIME 2: Flores da Cor da Terra, de Lívia Petry

UNIFORME: A capa de Flores da Cor da Terra é kitsch. No fundo, todo projeto gráfico do livro é kitsch. Não estou falando do detalhe retirado de um quadro de Van Gogh (que não está creditado em nenhum lugar no livro), mas da escolha das fontes na capa que reaparecem acompanhando flores em cada seção e título de conto ao longo do livro, além das flores que estão ao lado dos números das páginas e da abertura de cada parte do livro. Enfim, são muitos elementos que tiram a atenção do leitor do que é o principal: a literatura de Lívia.

ESQUEMA DE JOGO: Estamos, aqui também, diante de 23 contos curtos, a maioria curtíssimos. No entanto, não há unidade na organização dos textos. Fica-se com a impressão de que a autora selecionou todos os contos que escreveu até então, ou, no máximo, os que julgou seus melhores, e os reuniu em livro. Mesmo a divisão em três partes não ajuda na busca da unidade. Os contos exploram diversos assuntos: violência, relacionamentos, histórias de amor, miséria, morte… Além disso, como já observado acima, demora-se até tomarmos contato com os contos: temos três epígrafes relativamente longas na abertura, uma dedicatória, uma lista de agradecimentos, o índice e uma apresentação de Jane Tutikian. Só então aparece o primeiro conto.

GOL DE PLACA: Não há.

BOLA FORA: A apresentação de Tutikian nos dá a impressão de que estamos diante de uma grande autora, mas a exaltação não se confirma. No fundo, todos os contos têm suas bolas fora, mas uma constante é a precariedade na construção de personagens. Com frequência, somos jogados no meio de cenas sem que tenhamos tempo de entender por que aqueles personagens estão fazendo o que estão fazendo. Cada trama poderia ser desenvolvida em, pelo menos, mais umas dez páginas, para que o leitor pudesse compreender as motivações dos personagens, para que não ficasse com a sensação de que esquecerá do que trata cada história logo após sua leitura. Além disso, temos diversas referências (algumas claras, outras cifradas) a clássicos da literatura brasileira. Às vezes, essas referências são usadas de maneira tão óbvia que o leitor fica com a impressão de que já leu aquilo antes e de maneira muito melhor realizada. Lívia Petry ainda está buscando a sua voz, mas parece muito perdida nessa busca.

O JOGO

Os contos de abertura de cada livro dão bem a ideia do que o leitor vai encontrar ao longo das próximas páginas. O conto “Dois Irmãos”, de Flores da Cor da Terra, apresenta dois policiais que saem para caçar meninos de rua. O conto “Fora do Lugar”, que dá título do livro de Rosp, apresenta um protagonista perdido no caos de seu lar que está em busca do telefone, como ficamos sabendo ao final da leitura. São contos muito diferentes, mas ambos narrados em primeira pessoa. Mesmo assim, fica claro que falta a Lívia a consciência literária que Rosp domina. Quais as motivações dos personagens de “Dois Irmãos”? Não é possível concluir. Já o caos em que vive o personagem de “Fora do Lugar” fica completamente justificado graças ao fechamento do conto.

Podemos perceber essa diferença do domínio da escrita entre Rosp e Lívia no tratamento que dão a cenas chocantes. No conto “O Gosto da Terra Úmida”, Lívia nos apresenta a dor de uma mulher que sofre nas mãos de um homem violento. Ela engravida, mas decide abortar utilizando uma agulha de crochê. A descrição tende ao mau gosto. Rosp, por sua vez, explora com maestria os labirintos da mente de um carrasco. “Carrasco” é um dos contos mais bem construídos de seu livro. A dor das vítimas é descrita com precisão, e o leitor não consegue prosseguir na leitura da próxima história sem parar e refletir sobre o que acabou de ler.

Nos contos narrados em terceira pessoa, Lívia é mais infeliz na construção dos personagens. Se em primeira pessoa existe a possibilidade de desvendar nas palavras do narrador o que ele está sentindo, pensando, o que o provoca a tomar as atitudes que toma, em terceira pessoa não temos nenhuma pista do que está acontecendo com os personagens, como no conto “O Amor e Seus Restos”. A autora parece mais preocupada em construir uma trama lírica, poética, do que em contar uma história. Os contos de Rosp em terceira pessoa levam o nonsense a níveis mais altos, como é o caso de “Sala de Espera”, “Funeral dos Relógios” e “Maldito” (este, um conto sensacional: acompanhamos a podridão da vida de um escritor que tem uma péssima relação com seu sucesso).

Por fim, quero destacar outro ponto que difere radicalmente os dois livros: a fluência. Os textos de Rosp são bem escritos, passamos de uma palavra a outra com leveza, com facilidade, o que contrasta de maneira perspicaz com o absurdo explorado em cada trama. Já a linguagem de Lívia faz o leitor travar em vários momentos. Algumas palavras em desuso dão a impressão de que estamos lendo um texto escrito há décadas. Algumas construções são fracas (“A boca, em tons vermelhos, abriu-se num sorriso, num boas-tardes.”, do conto “Giselda”). Rosp tem menos deslizes, mas tem (“Bebeu um cigarro, fumou a garrafa inteira de cachaça.”, do já citado “Maldito”, que, mesmo com problemas como esse, ergue-se como uma ótima história). Além disso, a diferença nas revisões de cada livro é gritante: não detectei nenhum erro no livro de Rosp. Já Flores da Cor da Terra tem muitos problemas de revisão (só pra registrar um exemplo gritante: é horrível ler o sobrenome do cineasta François Truffaut escrito como “Truffault”, no conto “Jules et Jim”).

Diante de tantas diferenças, não é difícil prever o placar…

PLACAR

Fora do Lugar 4 X 0 Flores da Cor da Terra

VENCEDOR

Fora do Lugar, de Rodrigo Rosp

08/12/2010

Um escândalo chamado Tiririca? Não, um escândalo chamado Brasil

O programa Fantástico do último domingo apresentou uma reportagem sobre o desempenho num teste de leitura e escrita do deputado federal mais votado do Brasil de todos os tempos, o comediante Francisco Everardo, conhecido como Tiririca.

Segundo a reportagem, Tiririca foi submetido a um ditado de um trecho de um livro jurídico. O comediante errou oito das dez principais palavras do texto, entre elas “promulgação”, “código”, “eleitoral”, “fevereiro”, “trazendo”, “grandes”, “novidades”, “criação”, “justiça” e “eleitoral”. Além disso, ele não conseguiu escrever os números de “mil novecentos e trinta e dois”. O juiz precisou ditar número por número para que Tiririca conseguisse escrevê-los. A escrita da frase demorou oito minutos.

Na leitura, ele demorou três minutos para ler o título de uma reportagem e as duas linhas apresentadas. Além disso, cometeu vários erros de plural, eliminando vários “s” dos finais de algumas palavras, como “lojas”, “produtos”, “vencidos”, “supermercados” e “multas”.

O resultado final: Tiririca sabe ler e escrever. Foi o juiz quem disse. Tiririca poderá tomar posse. Quer dizer, isso se o promotor Maurício Lopes não obter resultado favorável ao recurso que apresentou segunda-feira no TRE de São Paulo contra a absolvição de Tiririca.

Não acho escandaloso que Tiririca tenha sido eleito com essa quantidade impressionante de votos. Nunca o considerei um bom comediante, seus trabalhos na TV nunca detiveram minha atenção por mais de cinco segundos. Não acho que suas limitações intelectuais sejam um problema tão grande para o exercício de um cargo como o de deputado federal (até porque os deputados, no fundo, lêem e escrevem muito pouco — quem faz o serviço pesado mesmo são os assessores parlamentares). Por isso, não tenho nada contra o direito de uma pessoa como ele se candidatar a um cargo público e, muito menos, contra o direito de todos os brasileiros de votar numa pessoa como ele.

Esse é um debate sem fundamento porque não se ataca o verdadeiro problema, que é um problema nacional, o da qualidade do ensino. Segundo dados do IBGE divulgados pela primeira vez em 2003 e que foram sendo atualizados desde então (embora os índices não tenham se alterado significativamente), cerca de 10% da população brasileira é analfabeta total. Os alfabetizados de nível 1 respondem por 30%, enquanto os alfabetizados de nível 2 representam 35% da população. Os primeiros conseguem ler uma manchete na capa de um jornal ou de uma revista. São pessoas que têm dificuldade para ler um parágrafo, são pessoas que identificam pelo número o ônibus que precisam pegar, porque têm dificuldade para ler o nome da linha. Pior: são pessoas que acabam se perdendo ao tentar localizar uma rua. Se tiverem um endereço anotado num papel e, ao chegarem à rua e lerem seu nome numa placa, constatarem que as palavras estão escritas de maneira muito diferente do que está no papel, vão achar que estão no endereço errado. Já os alfabetizados de nível 2 conseguem ler um ou dois parágrafos de um texto e extrair dele as principais informações. Os alfabetizados de nível 3 representam os 25% restantes da população brasileira e são as pessoas que demonstram plena capacidade para ler um texto longo.

Como as capacidades de leitura e compreensão diferem muito de pessoa para pessoa, começou a circular a expressão “analfabetismo funcional”. Os analfabetos funcionais são os alfabetizados de nível 1 e 2, ou seja, são pessoas que tiveram acesso à educação formal, foram alfabetizadas, mas não deram continuidade aos estudos ou não persistiram utilizando esses conhecimentos e apresentam dificuldades para ler e escrever. Tiririca é, claramente, um analfabeto funcional. E pode ter certeza de que eles estão muito perto de você, caro leitor. Uma das minhas convicções é esta: existem analfabetos funcionais com diploma de curso superior. Já trabalhei com pessoas assim.

E isso existe porque é do interesse das elites e do governo que assim seja. No post anterior, citei o Darcy Ribeiro, que escreveu em seu fabuloso texto “Sobre o óbvio” que está enganado quem acredita que o projeto para educação no Brasil não deu certo. Deu certo, sim, porque a intenção era justamente deixar o povo chucro.

No final do século XIX foram realizados dois censos que revelaram a triste realidade brasileira: pouco mais de 15% da população era alfabetizada. Na Argentina, na mesma época, metade da população sabia ler e escrever. Ok, alguém aí pode argumentar que isso é natural, afinal a Argentina teve mais de um gramático como presidente. No entanto, educação deveria ser uma prioridade de qualquer governante em qualquer país. Infelizmente, vivemos no Brasil, uma nação que não está realmente preocupada com o assunto, porque se estivesse não teríamos índices de leitura, escrita e raciocínio lógico tão horrorosos, não teríamos uma prova tão mal formulada como o ENEM (e não estou falando dos problemas que envolveram a aplicação da prova, estou falando da prova em si), não teríamos um ministro da educação como o que temos, responsável por criar essa prova esdrúxula totalmente desvinculada da realidade do que é ensinado nas escolas. Isso tudo é que é realmente escandaloso, não a eleição do Tiririca. Ou seja, não precisamos de pessoas com comprovada capacidade intelectual para comandar o país. Lula é a prova disso, afinal nosso presidente fez um dos melhores governos da história, por mais difícil que seja admitir isso para alguns. Precisamos de pessoas que queiram fazer a mudança. Se o Tiririca contribuir para isso, sua eleição terá valido a pena. E, vamos combinar, já estava na hora dos analfabetos funcionais, 65% da população brasileira, terem um representante no congresso nacional.

10/11/2010

Monteiro Lobato ou da necessidade literária

Uma notícia lamentável tem provocado as reações mais diversas desde que foi veiculada, há cerca de uma semana. Um livro de Monteiro Lobato está sendo banido de uma lista preparada pelo MEC para distribuição em escolas públicas de todo país. O caso se deve a possíveis conotações racistas em trechos do livro Caçadas de Pedrinho. O fato é que o racismo na obra de Monteiro Lobato realmente é um tema complicado que está presente tanto na sua literatura infantil/infanto-juvenil, como é o caso desse livro, quanto na sua produção adulta, como é o caso de O Presidente Negro.

O maior problema que vejo nessa discussão toda não está sendo abordado por ninguém, mas antes de apontá-lo é importante explicar como funciona essa seleção de livros.

Todos os anos, uma comissão de professores de literatura e de membros do MEC seleciona uma lista de livros. Cada editora pode enviar um determinado número de livros a serem submetidos a essa seleção. Não lembro exatamente o número, mas é algo em torno de 10 a 20 livros por editora. Algumas delas, especialmente as que possuem muitos livros em seu catálogo, chegam a criar selos alternativos para poderem enviar mais livros. A Companhia das Letras, por exemplo, tem o seu Claro Enigma. Nenhum problema nisso, até porque o catálogo da Companhia (pra continuar no exemplo citado) é excelente e possui muitos livros que não só podem como deveriam ser adotados em escolas por todo país. Mas o que acaba acontecendo é uma verdadeira guerra entre as editoras. Tentem imaginar o número de exemplares de cada livro comprados pelo MEC. Esse tipo de seleção pode salvar uma editora da falência e, no mínimo, injetar um dinheiro substancial na conta de autores e editores. E pro MEC a negociação também é boa, porque comprando algumas dezenas de milhares de exemplares de cada livro é possível baratear muito o preço de capa.

Então: o MEC recebe a lista de livros de cada editora, os livros são submetidos à avaliação da comissão, os pareceristas (em geral, professores universitários de literatura) fazem a sua avaliação, discutem a lista em grupo até chegar a um resultado final, que normalmente tem 50 livros selecionados (pelo menos esse era o número quando um amigo professor participou como parecerista numa seleção dessas). Aí o MEC faz a encomenda dos livros e os distribui para as escolas. No meio do caminho, o MEC pode ir lá e dizer que um dos livros não pode ser adotado ou porque tem conotação racista, ou porque tem cenas de sexo explícito, ou porque tem cenas de muita violência, ou porque tem linguagem chula recheada de palavrões, ou porque os personagens fumam, ou porque passarinhos são assassinados com estilingue, ou porque os personagens faltam às aulas escolares, ou ainda por causa de outros motivos quaisquer que não me vem à mente agora, mas que certamente não servem de bom exemplo. Só que Monteiro Lobato viveu numa época em que essas coisas eram normais. Ninguém considerava um problema fumar, caçar passarinho ou matar aula.

Mas o que pensam várias editoras neste momento em que recebem o parecer negativo com relação ao livro? Certamente, algo como “precisamos nos adequar ao que o MEC deseja, senão corremos o risco de ficarmos sem essa verba”. E para as editoras se adequarem ao que o MEC deseja, o que precisa ser feito? Algo como “precisamos solicitar ao autor do livro que altere essa passagem para algo menos explícito”. Resultado: os livros deixam de ser escritos por uma vontade de colocar no papel um sentimento ou por uma necessidade de contar uma boa história. Os autores passam a escrever para agradar as editoras, que querem agradar ao MEC. Não é difícil imaginar o prejuízo que a literatura brasileira sofre graças a esse jogo maléfico.

No caso de Lobato, não é possível solicitar que a narrativa seja alterada. E fazer uma adaptação do livro seria ridículo, porque adaptações normalmente são feitas para crianças e adolescentes com base em clássicos originalmente voltados para o leitor adulto. Ou seja, fazer uma adaptação para crianças e adolescentes de um livro que tinha como leitor ideal justamente esse público não faria o menor sentido. Claro que existem adaptações para o público infanto-juvenil de livros infanto-juvenis. Lembro, por exemplo, de As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Mas se um professor solicita a seus alunos que leiam a adaptação ao invés do texto integral (ou original traduzido), é sinal de que esse professor não acredita na capacidade de seus alunos. Ou, então, é um professor preguiçoso, porque não quer trabalhar a narrativa mais longa do texto original e prefere um texto mais rápido, com vocabulário mais pobre e com a trama menos elaborada.

Só que esse problema só está tomando conta dos meios de comunicação porque se trata de Monteiro Lobato, o melhor autor de livros infanto-juvenis do Brasil de todos os tempos, o Machado de Assis dos livros voltados para crianças. Se fosse um livro de um autor novo, pouco conhecido, provavelmente ninguém ficaria sabendo. E, provavelmente, a editora desse autor solicitaria a ele uma alteração nos trechos politicamente incorretos de seu livro, e ninguém ficaria sabendo.

Mais uma vez, estamos diante de um problema que vai além da leitura. O verdadeiro problema, para o trabalho de literatura na escola, é como estimular alunos a lerem, ou, simplesmente, como fazer os alunos tornarem-se leitores. No caso do Brasil, ainda temos um longo caminho para chegar a uma situação razoável, próxima do trabalho realizado em escolas de países como Itália, França e Estados Unidos. Há algum tempo, uma amiga que morou na Itália me contou que lá as crianças lêem Édipo Rei aos 10 anos. Quer algo mais politicamente incorreto que oferecer justamente essa história a alunos dessa idade? Claro, politicamente incorreto se pensarmos no Brasil, que é um país preocupado em manter seu povo chucro, como dizia Darcy Ribeiro em seu lúcido ensaio Sobre o Óbvio.

04/07/2010

Cachalote e minhas ânsias

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é, desde já, um dos melhores lançamentos literários do ano. Digo que se trata de literatura, porque esse é o tratamento dado por Galera e desenhado por Coutinho. Sim, trata-se de uma graphic novel, caso você ainda não saiba.

São cinco (ou seis?) histórias que não se cruzam, mas se completam quase como se dependessem umas das outras. É difícil dizer exatamente qual é o tema principal do livro. Solidão, talvez. Separação também… Alguns podem dizer depressão… O certo é que, independente do assunto, não há como não se encantar com cada trama. O desenho de Coutinho transforma o roteiro de Galera em uma experiência sensorial impactante: terminei a leitura em poucas horas e não parei de pensar na vida, nas coisas que estou fazendo, no que quero pra mim. Um livro que faz você pensar assim é, sem exagero, um grande livro.

Sou fã do Galera desde o início do Cardosonline. A primeira vez que ouvi falar dele foi na aula do professor Paulo Seben, na UFRGS. Na época, o Seben era substituto de Leitura e Produção Textual (hoje, ele é adjunto de Literatura Brasileira). Ele ministrava a mesma cadeira na Fabico e na Letras. Naquela, era professor do Galera e de outros futuros integrantes do COL. Nesta, era meu professor e de mais um grupo de alunos que hoje está dando aula em colégios, cursinhos e faculdades. E ele costumava levar os melhores textos de uma turma para a outra ouvir. E o conto “Triângulo”, que seria publicado no primeiro livro do Galera, Dentes Guardados, foi lido pelo Seben na minha turma. Não sei se foi por causa da leitura tendenciosa do Seben, que já sabia a entonação que queria dar em cada frase, mas o fato é que foi encantamento à primeira audição (seria melhor se tivesse sido leitura, mas o Seben não nos distribuiu cópias do texto).

Desde então, sempre prestei muita atenção na produção do Galera. Acompanhei o lançamento da Livros do Mal, editora criada por ele, pelo Mojo e pelo pelo Guilherme Pilla, e guardo como relíquia os dois primeiros livros da editora (porque se tornaram relíquia, realmente). Fiquei muito contente quando ele publicou Mãos de Cavalo, seu primeiro livro pela Companhia das Letras, que reeditou Até o dia em que o cão morreu, lançado antes pela Livros do Mal. E a Companhia também publicou Cordilheira, único texto do Galera de que não gostei muito (embora tenha passagens muito boas, a trama não me agradou; isso acontece com uma certa frequência quando leio livros feitos sob encomenda, como é o caso deste, que foi o primeiro da coleção Amores Expressos, da Cia.).

Além de acompanhar as publicações, leio matérias e entrevistas sobre o Galera e adotei o Mãos de Cavalo no ano de seu lançamento com os meus alunos de 1º ano da época. Quando dei aula na UFRGS, pedi aos alunos que lessem alguns contos de Dentes Guardados. Agora que voltei a dar aula em colégio, meus alunos de 1º e 2º anos vão ler o Mãos de Cavalo. Parece obsessão, mas não é.

No prefácio para a nova edição de Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo, Antonio Candido escreveu que, na década de 30, uma das maiores ansiedades dele e de seus amigos era aguardar os lançamentos de Erico, Graciliano Ramos, Jorge Amado e de outros escritores que estavam publicando seus primeiros livros naquele instante. Não estou comparando Galera ao Erico, e muito menos me comparando a Antonio Candido, mas a sensação que tenho é a mesma. Sinto ansiedade para ler os novos livros de Galera, Mojo, Tatiana Salem Levy, Marcelino Freire, Antonio Xerxenesky, Michel Laub, Carol Bensimon e de vários outros autores vivos. Ansiedade de ler o que ainda nem escreveram. Pode? Acho que sim.

Eu gostaria de ler até mais do que já li dessa geração, mas o trabalho e os estudos impõem algumas leituras mais clássicas que desviam minha atenção. Mesmo assim, meu projeto de doutorado é uma revisão do que foi, do que significou e das consequências do Modernismo no Brasil, ou seja, algo pouco explorado nos estudos acadêmicos. Num exemplo mais concreto: eu amo Machado de Assis, mas não teria paciência pra escrever sobre ele, porque já tem tanta coisa escrita que precisa ser lida antes de se encontrar uma ideia nova sobre Machado… Muita gente escreve sobre Machado. E muita gente vai continuar escrevendo sobre ele. De mão levantada, pergunto, então, quem vai escrever sobre os novos? E, principalmente, quem vai ler os novos?

Leia Cachalote.

PS: assim que tiver tempo, escreverei mais sobre Cachalote e sua relação com a literatura do Mojo, que vai citado no livro de Galera e Coutinho. Tenho a sensação de que ninguém percebeu. Pelo menos, não vi ninguém comentar. Será que estou vendo coisas?

22/02/2010

Resposta aberta: mais Nei Lisboa

Caro João,

resolvi escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos lá.

Obrigado pela correção quanto ao Paixão Cortes. Eu confesso que não sou muito ligado na cultura tradicionalista, por isso o equívoco, mas me interesso por essas discussões a respeito da identidade gaúcha. De qualquer forma, já corrigi o erro no post.

Concordo que cada um pode pensar o que quiser e manifestar isso como e onde achar melhor. Realmente, Porto Alegre e o resto do Rio Grande do Sul têm espaços variados pra todo tipo de manifestação cultural, o que é muito bom.

Agora, você escreveu de maneira um pouco dispersa, me parece, então vou ser um pocuo disperso também e pontuar o que me chamou mais atenção:

1) Quando o Nei Lisboa disse que não gosta do Teixeirinha? Onde? Não foi na tal entrevista da ZH. Ou foi? Ele disse: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria.” Ele não disse que não gosta do Teixeirinha. Ele o ouvia quando criança. Só porque ele considera a música tradicionalista ruim estética, ideológica e musicalmente, não significa que ele não aprecia o Teixeirinha ou qualquer outro compositor da corrente. Reproduzi mais algumas frases aí porque trato do assunto abaixo.

2) Um dos problemas do Paixão Cortes e do Barbosa Lessa era a americanização que estava tomando conta do estado e do país. Na época em que eles idealizaram o MTG, a coca-cola estava entrando em larga escala no mercado brasileiro. Em São Paulo e no Rio, o modernismo já era reconhecido como o grande movimento artístico e cultural brasileiro. O próprio Paixão Cortes já contou essa história. Então, a briga é muito mais com a McDonaldização do mundo (expressão que o Luís Augusto Fischer criou e usa correntemente), que, de certa forma, ganhou uma contribuição do modernismo pra que se firmasse pelo país.

3) Sendo assim, está aí mais uma prova de que o MTG foi inventado. Ok, até aí quase nenhum problema, porque a maioria das tradições ao redor do mundo foram inventadas. Mas quando um grupo de tradicionalistas não aceita que alguém lembre que o movimento se transformou em atração turística com objetivos meramente financeiros e especulativos, chegando ao ponto de fazer ameaças de morte (ok, talvez estivesse brincando o cara que escreveu que faria com Nei o mesmo que aconteceu com o irmão dele, mas eu não acho que possamos brincar com a tortura da ditadura militar e seus desaparecidos políticos; isso é piada de mau gosto), a coisa parece que está fugindo do controle. E vamos combinar: a maioria das pessoas que defende as tradições gauchescas não as pratica de verdade. Ou estou errado? Na hora de gritar “Ah, eu sou gaúcho!”, é fácil reunir uma multidão, mas no dia a dia quantos cultivam as tradições? Meu palpite: menos de 10% da população.

4) E por que um número tão baixo? A resposta, a meu ver, explica também por que eu acho que o Nei Lisboa será mais lembrado que o Teixeirinha pelas gerações contemporâneas e vindouras: o mundo urbano ganhou o jogo, é a lógica urbana que rege o mundo; qualquer manifestação regional fica relegada a segundo plano, como coisa menor, mal feita. Não estou dizendo que concordo que deva ser assim nem que acho isso bom. Não é, realmente. (Seria ótimo se o povo gaúcho lesse mais Simões Lopes Neto.) E o Nei é um cantor urbano. O que ele faz é música urbana, mesmo que flerte com o pop, a mpb, o rock e até mesmo com a música tradicionalista (quem não lembra a belíssima “Exaltação”?).

5) Tentando concluir, o que eu acho errado nisso tudo é que querem nos fazer engolir uma tradição inventada, que não nos exprime. E querem fazer isso de maneira tão violenta quanto o modernismo e a americanização fizeram com a lógica urbana cosmopolista sobre a periferia do capitalismo e o mundo rural (Porto Alegre, por exemplo, é uma província até hoje, mas disso já falei; o Brasil também sempre esteve na periferia do capitalismo, só agora é que as coisas andam mudando). Aí vem a pergunta cabal: Precisa ser assim? Não dá pra achar um meio termo?

17/02/2010

A cidade que merecemos

Há algum tempo, rolou outra polêmica interessante aqui no Rio Grande do Sul. Na época, escrevi sobre o assunto, enviei pra ZH, mas não se interessaram em publicar. Por isso, agora resolvi postar o texto aqui. Na sequência, traço um rápido paralelo entre o post anterior, sobre o Nei Lisboa, e este aqui.

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A cidade que merecemos

Nunca fui aluno do professor Voltaire Schilling, embora desejasse ter sido. Temos amigos em comum, mas ele não deve saber da minha existência. Sei que ele é um homem com uma cultura refinada e dono de uma ironia única na capital gaúcha. Por isso, a recente polêmica iniciada por ele no jornal Zero Hora em 25 de outubro último, com o artigo A capital das monstruosidades, que atiçou os ânimos de artistas e intelectuais, deve ser pensada com cuidado. Em seu texto, Voltaire questiona o valor de algumas obras pretensamente artísticas e propõe a discussão a respeito da sociedade aceitar tão facilmente que elas passem a fazer parte da paisagem porto-alegrense.

No caderno Cultura de 31 de outubro, dois professores questionaram as ideias de Voltaire. Clóvis Da Rolt acredita que o artigo de Voltaire pode abrir espaço para uma discussão mais ampla a respeito de quem decide quais obras devem ser expostas em locais públicos e de como deve ser feita essa decisão. Apesar de questionar Voltaire com respeito, Da Rolt pensa “que ele poderia ter proposto uma reflexão seguindo outro caminho e não conduzindo o leitor a aderir, sumariamente, aos seus conceitos estéticos pouco ventilados”, concluindo que o debate foi proposto de maneira ingênua. Gaudêncio Fidelis classificou o artigo de Voltaire de demagógico e “manifesto iconoclasta”. Ora, a arte moderna é (ou foi), desde sempre, iconoclasta (talvez coubesse uma reflexão mais longa a respeito de onde começa e onde termina a arte moderna, se é que ela já terminou; no entanto, deixo para outra ocasião).

Quando li esses dois artigos tive a nítida sensação de que algo estava errado. Especialmente porque, a meu ver, o artigo do professor Voltaire não tinha realmente o objetivo de propor a  remoção ou a destruição das obras por ele citadas.

Digo isso especificamente por causa de um parágrafo de seu texto, o antepenúltimo, em que o professor classifica Porto Alegre de “cidade aprazível, moderna, povoada por gente simpática”, com belas mulheres e lar de grandes artistas. Aprazível é um adjetivo que depende muito da visão individual. Moderna, Porto Alegre definitivamente não é, nunca quis ser. Alguns habitantes acreditam que, porque agora temos uma Livraria Cultura e um aeroporto com túneis que nos conduzem diretamente ao interior do avião, deixamos de morar numa província. Porto Alegre não tem vocação pra modernidade. São Paulo é moderna, e por isso obras como a do artista paulista Henrique Oliveira, citado por Voltaire pela sua Casa Monstro, não parecem combinar com a paisagem porto-alegrense. No entanto, não a estranharíamos tanto se nos deparássemos com ela em São Paulo.

Gente simpática é outra classificação que dá o que pensar. Quando vou a uma loja, são raras as vezes em que me sinto bem atendido. Quando peço ajuda a um taxista para localizar uma rua, normalmente recebo a resposta de maneira rápida, beirando a grosseria. Quando entro numa livraria para olhar o seu acervo, sem ter um objetivo de consumo claro na cabeça, me olham como se eu fosse roubar algo. Isso é simpatia? Experimentem fazer isso tudo no Rio de Janeiro (ok, é uma cidade turística, preparada pra isso, mas Porto Alegre também não deseja ser turística?).

Com relação às mulheres, acredito que Fidelis exagerou ao chamar Voltaire de machista, mas acho que a discussão perde o foco se continuarmos por aí. Com relação aos artistas que viveram em Porto Alegre citados pelo professor Voltaire (Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves), são todos exemplos de artistas modernos com obras que também são incompreendidas pela maioria.

No fundo, acho que Voltaire conseguiu o que queria: provocar a discussão. É uma pena que Voltaire teve de vir a público explicar suas ideias, que já estavam claras desde o início. No Cultura do dia 05 de dezembro, os jornalistas Eduardo Veras e Luiz Antonio Araujo entrevistaram o professor acerca de sua posição (a entrevista é agressiva, o que pode-se perceber pelas perguntas; a íntegra pode ser lida aqui). Ok, era difícil concluir que arte ele aprecia, mas afirmar que não tem senso estético e que suas ideias são demagógicas talvez seja o maior erro de Da Rolt e Fidelis. Afinal, Voltaire tem razão ao concluir que a maior parte da população não aceita a arte contemporânea, porque não a compreende. É fácil encontrar pessoas que olham para a Casa Monstro, por exemplo, e se perguntam se isso é realmente arte (concluindo, normalmente, que não é). Essas são as pessoas que acatam com tanta facilidade que essas obras sejam acolhidas naturalmente pela prefeitura. São as mesmas pessoas que não questionam por que não existe uma parada de ônibus em frente ao Museu da Fundação Iberê Camargo, ou por que ali não existe um semáforo e uma faixa de segurança. Se estamos nessa situação, é porque esta é a cidade que merecemos.

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A polêmica envolvendo o Nei é só mais uma prova de que o Rio Grande do Sul não é povoado por gente simpática nem moderna. Se fosse assim, as pessoas conseguiriam discutir o assunto com mais sensatez…

PS: quem nunca escutou o Nei, por favor, procure canções dele no Youtube ou em qualquer outro site. Claro, se puderem comprar os cds dele, não se arrependerão.