Direto do Twitter

04/07/2010

Cachalote e minhas ânsias

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é, desde já, um dos melhores lançamentos literários do ano. Digo que se trata de literatura, porque esse é o tratamento dado por Galera e desenhado por Coutinho. Sim, trata-se de uma graphic novel, caso você ainda não saiba.

São cinco (ou seis?) histórias que não se cruzam, mas se completam quase como se dependessem umas das outras. É difícil dizer exatamente qual é o tema principal do livro. Solidão, talvez. Separação também… Alguns podem dizer depressão… O certo é que, independente do assunto, não há como não se encantar com cada trama. O desenho de Coutinho transforma o roteiro de Galera em uma experiência sensorial impactante: terminei a leitura em poucas horas e não parei de pensar na vida, nas coisas que estou fazendo, no que quero pra mim. Um livro que faz você pensar assim é, sem exagero, um grande livro.

Sou fã do Galera desde o início do Cardosonline. A primeira vez que ouvi falar dele foi na aula do professor Paulo Seben, na UFRGS. Na época, o Seben era substituto de Leitura e Produção Textual (hoje, ele é adjunto de Literatura Brasileira). Ele ministrava a mesma cadeira na Fabico e na Letras. Naquela, era professor do Galera e de outros futuros integrantes do COL. Nesta, era meu professor e de mais um grupo de alunos que hoje está dando aula em colégios, cursinhos e faculdades. E ele costumava levar os melhores textos de uma turma para a outra ouvir. E o conto “Triângulo”, que seria publicado no primeiro livro do Galera, Dentes Guardados, foi lido pelo Seben na minha turma. Não sei se foi por causa da leitura tendenciosa do Seben, que já sabia a entonação que queria dar em cada frase, mas o fato é que foi encantamento à primeira audição (seria melhor se tivesse sido leitura, mas o Seben não nos distribuiu cópias do texto).

Desde então, sempre prestei muita atenção na produção do Galera. Acompanhei o lançamento da Livros do Mal, editora criada por ele, pelo Mojo e pelo pelo Guilherme Pilla, e guardo como relíquia os dois primeiros livros da editora (porque se tornaram relíquia, realmente). Fiquei muito contente quando ele publicou Mãos de Cavalo, seu primeiro livro pela Companhia das Letras, que reeditou Até o dia em que o cão morreu, lançado antes pela Livros do Mal. E a Companhia também publicou Cordilheira, único texto do Galera de que não gostei muito (embora tenha passagens muito boas, a trama não me agradou; isso acontece com uma certa frequência quando leio livros feitos sob encomenda, como é o caso deste, que foi o primeiro da coleção Amores Expressos, da Cia.).

Além de acompanhar as publicações, leio matérias e entrevistas sobre o Galera e adotei o Mãos de Cavalo no ano de seu lançamento com os meus alunos de 1º ano da época. Quando dei aula na UFRGS, pedi aos alunos que lessem alguns contos de Dentes Guardados. Agora que voltei a dar aula em colégio, meus alunos de 1º e 2º anos vão ler o Mãos de Cavalo. Parece obsessão, mas não é.

No prefácio para a nova edição de Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo, Antonio Candido escreveu que, na década de 30, uma das maiores ansiedades dele e de seus amigos era aguardar os lançamentos de Erico, Graciliano Ramos, Jorge Amado e de outros escritores que estavam publicando seus primeiros livros naquele instante. Não estou comparando Galera ao Erico, e muito menos me comparando a Antonio Candido, mas a sensação que tenho é a mesma. Sinto ansiedade para ler os novos livros de Galera, Mojo, Tatiana Salem Levy, Marcelino Freire, Antonio Xerxenesky, Michel Laub, Carol Bensimon e de vários outros autores vivos. Ansiedade de ler o que ainda nem escreveram. Pode? Acho que sim.

Eu gostaria de ler até mais do que já li dessa geração, mas o trabalho e os estudos impõem algumas leituras mais clássicas que desviam minha atenção. Mesmo assim, meu projeto de doutorado é uma revisão do que foi, do que significou e das consequências do Modernismo no Brasil, ou seja, algo pouco explorado nos estudos acadêmicos. Num exemplo mais concreto: eu amo Machado de Assis, mas não teria paciência pra escrever sobre ele, porque já tem tanta coisa escrita que precisa ser lida antes de se encontrar uma ideia nova sobre Machado… Muita gente escreve sobre Machado. E muita gente vai continuar escrevendo sobre ele. De mão levantada, pergunto, então, quem vai escrever sobre os novos? E, principalmente, quem vai ler os novos?

Leia Cachalote.

PS: assim que tiver tempo, escreverei mais sobre Cachalote e sua relação com a literatura do Mojo, que vai citado no livro de Galera e Coutinho. Tenho a sensação de que ninguém percebeu. Pelo menos, não vi ninguém comentar. Será que estou vendo coisas?

27/08/2008

Época de revival: Cardosonline e Galãs da Menopausa

Marcelo, Claus e Tiago

Há 10 anos eu formava a melhor e mais duradoura banda que já tive na vida: Os Galãs da Menopausa. No início deste ano, montei um site chamado O Baú dos Galãs. O Claus (vocalista, guitarrista e mentor da banda) ficou muito empolgado com o site e me propôs que fizéssemos um show para comemorar o lançamento de dez anos da primeira fita demo, que chamava-se Vamos Dançar?. Claro que aceitei. Nunca consegui tocar com mais ninguém além do Claus. Sempre senti que nossos gostos se fechavam muito bem e que tínhamos uma química bacana. O Tiago (baterista) não topou a empreitada. Então escalamos o Cereja, que toca com o Claus na Super Gatas. Estamos ensaiando e em breve teremos detalhes a respeito de shows, apresentações na TV, turnês internacionais, etc. Pra quem nunca ouviu Os Galãs, basta acessar o site e conferir as musiquinhas que gravamos durante a existência da banda. Dá pra baixar tudo. Vou querer ver todos cantando…

Mas acabo de fazer uma pesquisa sobre o Cardosonline. Queria conferir o link pra enviar pra um amigo. Aí, descubro que hoje mesmo entrou no ar um site chamado Cardosonline 10 anos: nós inventamos a internet. Tá, talvez não tenha sido hoje, mas foi há poucos dias, porque encontrei um e-mail do Galera enviado pra revista Trip com data de hoje. O COL era um fanzine enviado por e-mail duas vezes por semana entre 1998 e 2001. Fez história, tinha milhares de assinantes, muitos deles ilustres, além de alguns outros ilustres desconhecidos. Todo mundo queria ser amigo do pessoal do COL. Todo mundo queria fazer parte do COL. Foi a coisa mais bem bolada que já surgiu na internet. Tá, talvez eu esteja exagerando, mas naquela época em que a internet era discada, receber por e-mail textos de qualidade escritos por gente tão próxima era o máximo, pelo menos pra mim. Nós éramos contemporâneos da UFRGS, mas eles eram da Fabico; eu, da Letras.

Hoje, cada um dos membros do COL está cuidando da vida. A Clarah tem um blog que é um fenômeno e seus livros inspiraram o filme Nome Próprio. O Galera tinha blog, lançou alguns livros (entre eles o ótimo Mãos de Cavalo e o muito bom Até o dia em que o cão morreu, que inspirou o filme Cão sem dono) e lança mais um até o fim do ano. O Mojo é o escritor mais ousado, experimental e interessante que surgiu no Brasil nos últimos anos, além de ser um lunático com milhares de projetos na rede. O Träsel dá aulas na PUC-RS, tem o Martelada e comanda o ótimo Conversas Furtadas. O Cardoso é o Cardoso… Dos outros, não sei muita coisa, mas é só digitar o nome de cada um que vocês encontram pérolas pelo Google. E, claro, não percam a chance de receber a edição especial de RIVÁIVOU. Eu já garanti a minha…

Alguém pergunta: e o que eu estou fazendo? No momento, vendendo um apartamento pra comprar outro. Tá a fim de comprar? Tá a fim de vender? Entra em contato… Senão, espera o show dos Galãs. Ou vai me assistir dando aulas na UFRGS. Ou então fica por aqui, que já tá de bom tamanho.

02/03/2007

[ leia ]

05/09/2006

[ rango & charlote ]

A internet avançou muito nos últimos anos. Existem centenas de sites interessantes e muitos com ferramentas muito úteis para qualquer tipo de trabalho. Mas a verdade é que são poucos os sites realmente bons pra se passar o tempo. E um desses raros exemplos é o Rango e Charlote, fotonovela do meu amigo Guilherme Verzoni.

Conheci o Guiti no curso de Letras. Ele já tinha abandonado o Direito nessa época. Ele publicou um livro de contos divertido naquele ano, 1998, chamado A Barata de Toga. Alguns anos depois, 2000 ou 2001, lançou uma novela muito bem escrita e com uma trama bem construída, Uísque Bar no Litoral. Aí acabou largando definitivamente a Letras, fez uns cursos de Publicidade na ESPM e voltou pro Direito. Mas o grande negócio do Guiti é criar. A cabeça dele está sempre antenada para tudo a seu redor. Desde um clássico italiano da década de 40 até o último gibi do Robert Crumb, nada escapa. E pra criar é assim: só cria quem tem imaginação, e só tem imaginação quem lê muito, quem assite a muitos filmes, desenhos e seriados, quem escuta muita música, enfim, quem consome arte e devora antropofagicamente as informações do dia-a-dia.

Rango e Charlote é uma fotonovela, ou Ficções Fotonovélicas. É uma mídia pouco explorada na internet, talvez esta seja a primeira tentativa séria, pelo menos no Brasil. O texto é todo do Guiti, e pra produzir a história tenho a impressão de que ele contou com o apoio de alguns amigos e, claro, da RadioAtiva, pra pôr no ar o material. A linguagem da história é direta, sem papas e recheada com alguns neologismos, referência direta ao Laranja Mecânica do Anthony Burgess, adaptado pro cinema pelo Stanley Kubrick num filme fantástico. As cores lembram algo anos 60 ou 80. A trama retrata um casal em franca decadência, lidando com seres exóticos a procura de algo que lhes satisfaça, mas que, parece, nunca será encontrado.

Tomara que a iniciativa do Guiti inspire outros a seguir o mesmo caminho. O resultado é ótimo. Confiram!

(Meus alunos estão produzindo algumas fotonovelas, baseadas em obras literárias. De acordo com a possibilidade e com a vontade deles, vou colocar esse material no ar).

31/07/2006

[ autoria ]

Já é uma aula apenas o texto de divulgação deste curso, ministrado pelo excelente professor Paulo Guedes. Quem nunca teve aula com o Paulo não pode perder.

AUTORIA: PARA APRENDER A ENSINAR-SE A ESCREVER

AUTORIA quer formar AUTORES: AUTOR é quem está mais interessado em conhecer do que em registrar o que já conhece; escrever para o AUTOR é apropriar-se de um conhecimento que está sendo produzido no próprio processo de escrever. AUTOR é quem, em vez de impor um conteúdo ao texto que está escrevendo, dialoga com o texto que está escrevendo: interroga-o a respeito do que ainda não descobriram juntos, do que não ficou esclarecido e que ainda precisa ser escrito. AUTOR é quem – em vez de impor uma fôrma ao texto que está escrevendo – consulta-o a respeito da melhor maneira de organizar o que estão, juntos, tentando dizer para o leitor. AUTOR é quem, a cada texto que escreve, ensina-se a escrever o texto que está escrevendo.

Aprender a escrever é desenvolver o domínio dos recursos expressivos da língua escrita para escrevermos o que a gente precisa escrever. E o que a gente precisa escrever é a peculiar e pessoalíssima leitura que cada um de nós faz do mundo e dos livros. Escrever a leitura que fazemos do mundo e dos livros não é nem um dom divino, nem um talento especial, nem um privilégio genético. É uma habilidade ao alcance de todos os que dispuserem a desenvolvê-la. A história da escrita nada mais é do que a história da democratização do uso da escrita.

Para escrever a leitura que fazemos do mundo e dos livros é preciso dialogar insubmissa e construtivamente com o mundo, e o mundo é o outro, o mundo é o leitor. O mundo é a linguagem com que fomos desde sempre interpretados pelo outro, com que interpretamos o outro e com que nos interpretamos. Para escrever a leitura que fazemos do mundo e dos livros é preciso dialogar com os livros, e os livros são os outros, são a cultura, são a língua que inventamos para botar por escrito a língua em que falamos o mundo.

Escrever é uma habilidade que, como qualquer outra habilidade, desenvolve-se com a prática e com a reflexão sobre essa prática; assim sendo, escrever, ler, ser lido, discutir os próprios textos e outros textos produzidos a respeito dos mesmos temas, reescrever essas versões iniciais a partir dos palpites desses leitores – os colegas e o professor – são as atividades básicas do curso AUTORIA.

Quem vai dar o curso é Paulo Coimbra Guedes, professor aposentado do Instituto de Letras da UFRGS, onde o que mais fez foi ensinar a escrever no Curso de Comunicação Social e no de Letras, onde também ensinou a ensinar a escrever. É autor, entre outras coisas, de um romance chamado Tratado geral da reunião dançante e de um manual de redação chamado Da redação escolar ao texto.

As aulas vão ser dadas nas quintas-feiras – uma turma à tarde das 14:00h às 17:00h e outra à noite das 19:00h às 22:00h – no Centro de Meditação e Bioenergética Namastê, que fica na Rua da República, nº 528. O investimento é de R$ 500,00 em uma parcela ou em quatro parcelas mensais de R$ 140,00. Maiores informações pelo email pcguedes arroba click21.com.br ou pelo telefone (51) 8179 0415.