Direto do Twitter

26/04/2011

Como fazer disseminação de conhecimento em tempos de internet

Quando criei o Surdina, em 2008, sabia que estava fazendo algo relativamente irregular. Em 2007/2, quando comecei a trabalhar como professor substituto do Instituto de Letras da UFRGS, resolvi colocar na internet, em um blog, boa parte dos textos que eu estava trabalhando com meus alunos. Alguns eram ensaios retirados de livros, outros de jornais. Devo ter colocado também alguns textos literários que faziam parte do conteúdo das disciplinas. No início de 2008/1, organizei o material, registrei um domínio, contratei um servidor e coloquei o Surdina no ar. Fiz isso porque queria evitar ao máximo a circulação de cópias xerocadas dos materiais. A meu ver, o estudante que poupa seu dinheiro não fazendo cópias reprográficas fica com dinheiro sobrando pra comprar os livros que julga mais importantes.

Eu tinha sido contratado para ministrar cadeiras variadas de Literatura Brasileira. Eu sabia que nem todos meus alunos tinham interesse em aprofundar seus estudos em Literatura Brasileira. Alguns estavam lá por causa da Linguística, outros por causa de alguma Língua Estrangeira, ou simplesmente queriam estudar Língua Portuguesa. Então, eu não via por que os alunos deveriam tirar xerox de materiais que iriam pro lixo no fim do semestre. Com muita frequência, eu indicava algum ensaio retirado de algum livro de Antonio Candido, por exemplo. Os ensaios de Candido são muito lidos nos cursos de Letras (embora eu sinta que ele tem mais leitores na UFRGS que na USP ou em outras universidades, mas isso é uma outra conversa), mas cada livro seu de ensaios reúne textos variadíssimos. Em Vários Escritos, por exemplo, Candido tem textos sobre Basílio da Gama, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Ora, segundo o currículo do curso de Letras da UFRGS, cada um desses autores é trabalhado em semestres diferentes. O primeiro aparece em Literatura Brasileira A; o segundo, em Brasileira B; e o terceiro, em Brasileira C. Para o aluno que se interessa por Literatura, o melhor é comprar logo esse livro, porque ele vai utilizá-lo muito ao longo do curso. E, se o estudante seguir fazendo mestrado e doutorado, será um livro de referência.

Mas se o foco não é Literatura, não faz muito sentido comprar esse livro. Livros são caros no Brasil, e estudantes normalmente não têm muito dinheiro para comprá-los. Por isso, professores e estudantes recorrem ao xerox. Eu só não precisei tirar cópias de nenhum texto em apenas uma cadeira de minha graduação inteira (no caso, era uma disciplina da Faculdade de Educação, e o professor gravou todos os textos num disquete que havíamos emprestado a ele — velhos tempos!). Quase todos meus professores solicitavam a leitura de textos e livros semanalmente. As bibliotecas das universidades federais, infelizmente, não conseguem sustentar as necessidades de seus estudantes. Todo ano, entram mais de 200 alunos no curso de Letras da UFRGS, mas a biblioteca não tem 200 exemplares da Formação da Literatura Brasileira, livro também de Antonio Candido que é lido na primeira cadeira de Literatura Brasileira, no primeiro semestre, embora nem todos professores solicitem a leitura do livro inteiro. Se a biblioteca tiver 50 exemplares, é muito (50? Se tiver 30, já é muito). Ou seja: como não tinha dinheiro pra comprar tudo (e, mesmo que tivesse, muitos livros estavam esgotados — e naquela época não existia a Estante Virtual), ou eu fazia cópias de boa parte dos textos solicitados, ou seria obrigado a ir às aulas sem ter lido os textos, prática que sempre abominei, mesmo não gostando da matéria.

Talvez fosse interessante que as editoras brasileiras organizassem seu catálogo de forma a vender, em formato e-book, textos individuais, além do livro inteiro, claro. Isso já acontece com a música (acho que todo mundo sabe que é possível comprar canções individuais, embora saia mais barato comprar o álbum inteiro). O problema é que o e-book ainda é caro no Brasil. Recentemente, uma editora lançou boa parte de seu catálogo nesse formato, mas quase todos os livros têm apenas R$ 1,00 de diferença para o livro impresso. A meu ver, algo está errado nisso.

De qualquer forma, depois que criei o Surdina, vários colegas professores começaram a indicar o site. Alguns me enviaram textos seus, além de textos de outros autores, para que eu linkasse o material. Quando algum texto não estava no Surdina, vários alunos perguntavam quando eu o linkaria. E, muitas vezes, indiquei links de textos e materiais esgotados, muito difíceis de serem encontrados. Confesso que perdi um pouco a paciência que eu tinha para atualizar o site. Já não tenho mais o mesmo tempo e nem o mesmo prazer em atualizá-lo, porque é muito raro alguém entrar em contato pedindo um texto, enviando um texto relevante ou simplesmente agradecendo a indicação do conteúdo.

Mas estou escrevendo isso tudo porque uma editora entrou em contato com o WordPress para retirar um blog que estava ali hospedado. O blog em questão, Letras USP Download, indicava links para download de textos lidos no curso de Letras da USP e de outras universidades. Era um blog muito organizado e que estava prestando um serviço fundamental para a disseminação do conhecimento. Mesmo assim, compreendo que as editoras não olhem com bons olhos esse tipo de serviço. Mas, antes de combaterem um blog, deveriam combater a prática das cópias reprográficas. Como? Certamente, não adianta fazer denúncias à Polícia Federal para que professores e centros de reprografia não aceitem reproduzir conteúdo protegido pela Lei dos Direitos Autorais. Isso suspende o problema apenas temporariamente. A Polícia Federal não vai colocar um agente diariamente em cada centro de reprografia de cada curso superior Brasil afora. Para combater esse tipo de problema, é necessário mudar a estratégia de distribuição e venda de conteúdo. A música já mudou. Resta saber quando o acesso ao conhecimento vai mudar também.

Quem tem interesse no assunto, pode seguir o Letras USP Download através do twitter @livrosdehumanas (e o jornalista @eduardosterzi também comprou a briga no apoio ao Letras USP Download). Duvido que a editora que derrubou o blog no WordPress consiga derrubar o twitter. No final das contas, o conhecimento continuará circulando, como deve ser.

PS: nunca ganhei nada com o Surdina. Só gastei. Os anúncios que estão na página são de empresas de amigos e da Livraria Cultura (mas pouca gente comprou livros linkados pelo Surdina e essas compras ainda não somaram o valor necessário pra retirada). Ninguém nunca quis anunciar oficialmente no Surdina. Mais um motivo de desânimo…

PS2: o Surdina não armazena os arquivos que estão linkados nas bibliotecas virtuais. Os textos e materiais estão apenas linkados ali. O Surdina não se responsabiliza pelo conteúdo dos arquivos. Se algum autor ficar incomodado, pode denunciar o link pro 4shared, que é o provedor onde estão armazenados os arquivos.

01/01/2011

Jogo extra-oficial do Gauchão de Literatura

Há alguns meses, me envolvi numa polêmica num jogo do Gauchão de Literatura. Prometi à autora com quem discuti que leria seu livro e o resenharia. Acabei não fazendo isso, embora tenha lido o livro, porque não teria muito a dizer, afinal o livro é muito ruim. Mas essa semana, no evento que ocorreu no Studio Clio para comemorar a final do Gauchão, o Rodrigo Rosp me presenteou com seu livro Fora do Lugar. Então, achei que valia a pena escrever uma partida extra-oficial do Gauchão de Literatura envolvendo este livro e o Flores da Cor da Terra, de Lívia Petry, a tal autora com quem discuti. Então vamos ao jogo:

Jogo Extra Oficial: Fora do Lugar X Flores da Cor da Terra

Pelo juiz Marcelo Frizon

Fora do lugar,
de Rodrigo Rosp (Não Editora / 2009)
x
Flores da Cor da Terra,
de Lívia Petry (Nova Prova / 2009)

———————

TIME 1: Fora do Lugar, de Rodrigo Rosp

UNIFORME: Como todos os livros da Não editora, Fora do Lugar tem uma edição muito bem cuidada. A foto que ilustra a capa é provocativa: uma poltrona vermelha no meio de uma estrada deserta. A capa está em perfeita harmonia com o título e parece indicar com perfeição o conteúdo do livro. Digo “parece” pensando naqueles que ainda não leram o livro. Eu, que já o li, posso confirmar: a capa é uma tradução da literatura de Rosp. Samir Machado de Machado sabe captar perfeitamente a ideia de cada autor para sua obra e criar capas inteligentes, elegantes e provocativas, como esta.

ESQUEMA DE JOGO: Estamos diante de treze contos curtos. Alguns bem curtos, alguns um pouco mais longos, mas todos juntos formam uma unidade bem acabada. Pode incomodar um pouco o excesso de comentários elogiosos que acompanham o livro: Claudia Tajes assina um comentário na contracapa, Ricardo Silvestrin ficou responsável pela orelha e Rafael Bán Jacobsen nos apresenta um ensaio sobre os contos num belo prefácio. No entanto, o aval desses três escritores serve para termos certeza de que não estamos diante de um novo autor que não merece atenção.

GOL DE PLACA: As várias narrativas em primeira pessoa são muito bem construídas. Para um autor, como Rosp, que trabalha com o nonsense, o absurdo, o fantástico, escrever uma narrativa em primeira pessoa parece-me algo extremamente difícil. Pode ser apenas a impressão de um leitor com suas próprias ambições literárias (eu, no caso) que sabe reconhecer seus limites na construção de um texto aparentemente simples, mas que trabalha com elementos extremamente complexos.

BOLA FORA: O conto “Linguista” é uma brincadeira com a gramática da língua portuguesa: dois linguistas se conhecem, se apaixonam e, a partir daí, acompanhamos as consequências trágicas do relacionamento. O problema é que o autor abusa de construções fáceis, por exemplo: “O corpo e a mente de Diana desapareciam, e tudo se resumia à sua língua. Não existia sujeito, apenas objeto.” E temos vários casos semelhantes ao longo da trama.

TIME 2: Flores da Cor da Terra, de Lívia Petry

UNIFORME: A capa de Flores da Cor da Terra é kitsch. No fundo, todo projeto gráfico do livro é kitsch. Não estou falando do detalhe retirado de um quadro de Van Gogh (que não está creditado em nenhum lugar no livro), mas da escolha das fontes na capa que reaparecem acompanhando flores em cada seção e título de conto ao longo do livro, além das flores que estão ao lado dos números das páginas e da abertura de cada parte do livro. Enfim, são muitos elementos que tiram a atenção do leitor do que é o principal: a literatura de Lívia.

ESQUEMA DE JOGO: Estamos, aqui também, diante de 23 contos curtos, a maioria curtíssimos. No entanto, não há unidade na organização dos textos. Fica-se com a impressão de que a autora selecionou todos os contos que escreveu até então, ou, no máximo, os que julgou seus melhores, e os reuniu em livro. Mesmo a divisão em três partes não ajuda na busca da unidade. Os contos exploram diversos assuntos: violência, relacionamentos, histórias de amor, miséria, morte… Além disso, como já observado acima, demora-se até tomarmos contato com os contos: temos três epígrafes relativamente longas na abertura, uma dedicatória, uma lista de agradecimentos, o índice e uma apresentação de Jane Tutikian. Só então aparece o primeiro conto.

GOL DE PLACA: Não há.

BOLA FORA: A apresentação de Tutikian nos dá a impressão de que estamos diante de uma grande autora, mas a exaltação não se confirma. No fundo, todos os contos têm suas bolas fora, mas uma constante é a precariedade na construção de personagens. Com frequência, somos jogados no meio de cenas sem que tenhamos tempo de entender por que aqueles personagens estão fazendo o que estão fazendo. Cada trama poderia ser desenvolvida em, pelo menos, mais umas dez páginas, para que o leitor pudesse compreender as motivações dos personagens, para que não ficasse com a sensação de que esquecerá do que trata cada história logo após sua leitura. Além disso, temos diversas referências (algumas claras, outras cifradas) a clássicos da literatura brasileira. Às vezes, essas referências são usadas de maneira tão óbvia que o leitor fica com a impressão de que já leu aquilo antes e de maneira muito melhor realizada. Lívia Petry ainda está buscando a sua voz, mas parece muito perdida nessa busca.

O JOGO

Os contos de abertura de cada livro dão bem a ideia do que o leitor vai encontrar ao longo das próximas páginas. O conto “Dois Irmãos”, de Flores da Cor da Terra, apresenta dois policiais que saem para caçar meninos de rua. O conto “Fora do Lugar”, que dá título do livro de Rosp, apresenta um protagonista perdido no caos de seu lar que está em busca do telefone, como ficamos sabendo ao final da leitura. São contos muito diferentes, mas ambos narrados em primeira pessoa. Mesmo assim, fica claro que falta a Lívia a consciência literária que Rosp domina. Quais as motivações dos personagens de “Dois Irmãos”? Não é possível concluir. Já o caos em que vive o personagem de “Fora do Lugar” fica completamente justificado graças ao fechamento do conto.

Podemos perceber essa diferença do domínio da escrita entre Rosp e Lívia no tratamento que dão a cenas chocantes. No conto “O Gosto da Terra Úmida”, Lívia nos apresenta a dor de uma mulher que sofre nas mãos de um homem violento. Ela engravida, mas decide abortar utilizando uma agulha de crochê. A descrição tende ao mau gosto. Rosp, por sua vez, explora com maestria os labirintos da mente de um carrasco. “Carrasco” é um dos contos mais bem construídos de seu livro. A dor das vítimas é descrita com precisão, e o leitor não consegue prosseguir na leitura da próxima história sem parar e refletir sobre o que acabou de ler.

Nos contos narrados em terceira pessoa, Lívia é mais infeliz na construção dos personagens. Se em primeira pessoa existe a possibilidade de desvendar nas palavras do narrador o que ele está sentindo, pensando, o que o provoca a tomar as atitudes que toma, em terceira pessoa não temos nenhuma pista do que está acontecendo com os personagens, como no conto “O Amor e Seus Restos”. A autora parece mais preocupada em construir uma trama lírica, poética, do que em contar uma história. Os contos de Rosp em terceira pessoa levam o nonsense a níveis mais altos, como é o caso de “Sala de Espera”, “Funeral dos Relógios” e “Maldito” (este, um conto sensacional: acompanhamos a podridão da vida de um escritor que tem uma péssima relação com seu sucesso).

Por fim, quero destacar outro ponto que difere radicalmente os dois livros: a fluência. Os textos de Rosp são bem escritos, passamos de uma palavra a outra com leveza, com facilidade, o que contrasta de maneira perspicaz com o absurdo explorado em cada trama. Já a linguagem de Lívia faz o leitor travar em vários momentos. Algumas palavras em desuso dão a impressão de que estamos lendo um texto escrito há décadas. Algumas construções são fracas (“A boca, em tons vermelhos, abriu-se num sorriso, num boas-tardes.”, do conto “Giselda”). Rosp tem menos deslizes, mas tem (“Bebeu um cigarro, fumou a garrafa inteira de cachaça.”, do já citado “Maldito”, que, mesmo com problemas como esse, ergue-se como uma ótima história). Além disso, a diferença nas revisões de cada livro é gritante: não detectei nenhum erro no livro de Rosp. Já Flores da Cor da Terra tem muitos problemas de revisão (só pra registrar um exemplo gritante: é horrível ler o sobrenome do cineasta François Truffaut escrito como “Truffault”, no conto “Jules et Jim”).

Diante de tantas diferenças, não é difícil prever o placar…

PLACAR

Fora do Lugar 4 X 0 Flores da Cor da Terra

VENCEDOR

Fora do Lugar, de Rodrigo Rosp

10/11/2010

Monteiro Lobato ou da necessidade literária

Uma notícia lamentável tem provocado as reações mais diversas desde que foi veiculada, há cerca de uma semana. Um livro de Monteiro Lobato está sendo banido de uma lista preparada pelo MEC para distribuição em escolas públicas de todo país. O caso se deve a possíveis conotações racistas em trechos do livro Caçadas de Pedrinho. O fato é que o racismo na obra de Monteiro Lobato realmente é um tema complicado que está presente tanto na sua literatura infantil/infanto-juvenil, como é o caso desse livro, quanto na sua produção adulta, como é o caso de O Presidente Negro.

O maior problema que vejo nessa discussão toda não está sendo abordado por ninguém, mas antes de apontá-lo é importante explicar como funciona essa seleção de livros.

Todos os anos, uma comissão de professores de literatura e de membros do MEC seleciona uma lista de livros. Cada editora pode enviar um determinado número de livros a serem submetidos a essa seleção. Não lembro exatamente o número, mas é algo em torno de 10 a 20 livros por editora. Algumas delas, especialmente as que possuem muitos livros em seu catálogo, chegam a criar selos alternativos para poderem enviar mais livros. A Companhia das Letras, por exemplo, tem o seu Claro Enigma. Nenhum problema nisso, até porque o catálogo da Companhia (pra continuar no exemplo citado) é excelente e possui muitos livros que não só podem como deveriam ser adotados em escolas por todo país. Mas o que acaba acontecendo é uma verdadeira guerra entre as editoras. Tentem imaginar o número de exemplares de cada livro comprados pelo MEC. Esse tipo de seleção pode salvar uma editora da falência e, no mínimo, injetar um dinheiro substancial na conta de autores e editores. E pro MEC a negociação também é boa, porque comprando algumas dezenas de milhares de exemplares de cada livro é possível baratear muito o preço de capa.

Então: o MEC recebe a lista de livros de cada editora, os livros são submetidos à avaliação da comissão, os pareceristas (em geral, professores universitários de literatura) fazem a sua avaliação, discutem a lista em grupo até chegar a um resultado final, que normalmente tem 50 livros selecionados (pelo menos esse era o número quando um amigo professor participou como parecerista numa seleção dessas). Aí o MEC faz a encomenda dos livros e os distribui para as escolas. No meio do caminho, o MEC pode ir lá e dizer que um dos livros não pode ser adotado ou porque tem conotação racista, ou porque tem cenas de sexo explícito, ou porque tem cenas de muita violência, ou porque tem linguagem chula recheada de palavrões, ou porque os personagens fumam, ou porque passarinhos são assassinados com estilingue, ou porque os personagens faltam às aulas escolares, ou ainda por causa de outros motivos quaisquer que não me vem à mente agora, mas que certamente não servem de bom exemplo. Só que Monteiro Lobato viveu numa época em que essas coisas eram normais. Ninguém considerava um problema fumar, caçar passarinho ou matar aula.

Mas o que pensam várias editoras neste momento em que recebem o parecer negativo com relação ao livro? Certamente, algo como “precisamos nos adequar ao que o MEC deseja, senão corremos o risco de ficarmos sem essa verba”. E para as editoras se adequarem ao que o MEC deseja, o que precisa ser feito? Algo como “precisamos solicitar ao autor do livro que altere essa passagem para algo menos explícito”. Resultado: os livros deixam de ser escritos por uma vontade de colocar no papel um sentimento ou por uma necessidade de contar uma boa história. Os autores passam a escrever para agradar as editoras, que querem agradar ao MEC. Não é difícil imaginar o prejuízo que a literatura brasileira sofre graças a esse jogo maléfico.

No caso de Lobato, não é possível solicitar que a narrativa seja alterada. E fazer uma adaptação do livro seria ridículo, porque adaptações normalmente são feitas para crianças e adolescentes com base em clássicos originalmente voltados para o leitor adulto. Ou seja, fazer uma adaptação para crianças e adolescentes de um livro que tinha como leitor ideal justamente esse público não faria o menor sentido. Claro que existem adaptações para o público infanto-juvenil de livros infanto-juvenis. Lembro, por exemplo, de As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Mas se um professor solicita a seus alunos que leiam a adaptação ao invés do texto integral (ou original traduzido), é sinal de que esse professor não acredita na capacidade de seus alunos. Ou, então, é um professor preguiçoso, porque não quer trabalhar a narrativa mais longa do texto original e prefere um texto mais rápido, com vocabulário mais pobre e com a trama menos elaborada.

Só que esse problema só está tomando conta dos meios de comunicação porque se trata de Monteiro Lobato, o melhor autor de livros infanto-juvenis do Brasil de todos os tempos, o Machado de Assis dos livros voltados para crianças. Se fosse um livro de um autor novo, pouco conhecido, provavelmente ninguém ficaria sabendo. E, provavelmente, a editora desse autor solicitaria a ele uma alteração nos trechos politicamente incorretos de seu livro, e ninguém ficaria sabendo.

Mais uma vez, estamos diante de um problema que vai além da leitura. O verdadeiro problema, para o trabalho de literatura na escola, é como estimular alunos a lerem, ou, simplesmente, como fazer os alunos tornarem-se leitores. No caso do Brasil, ainda temos um longo caminho para chegar a uma situação razoável, próxima do trabalho realizado em escolas de países como Itália, França e Estados Unidos. Há algum tempo, uma amiga que morou na Itália me contou que lá as crianças lêem Édipo Rei aos 10 anos. Quer algo mais politicamente incorreto que oferecer justamente essa história a alunos dessa idade? Claro, politicamente incorreto se pensarmos no Brasil, que é um país preocupado em manter seu povo chucro, como dizia Darcy Ribeiro em seu lúcido ensaio Sobre o Óbvio.

04/07/2010

Cachalote e minhas ânsias

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é, desde já, um dos melhores lançamentos literários do ano. Digo que se trata de literatura, porque esse é o tratamento dado por Galera e desenhado por Coutinho. Sim, trata-se de uma graphic novel, caso você ainda não saiba.

São cinco (ou seis?) histórias que não se cruzam, mas se completam quase como se dependessem umas das outras. É difícil dizer exatamente qual é o tema principal do livro. Solidão, talvez. Separação também… Alguns podem dizer depressão… O certo é que, independente do assunto, não há como não se encantar com cada trama. O desenho de Coutinho transforma o roteiro de Galera em uma experiência sensorial impactante: terminei a leitura em poucas horas e não parei de pensar na vida, nas coisas que estou fazendo, no que quero pra mim. Um livro que faz você pensar assim é, sem exagero, um grande livro.

Sou fã do Galera desde o início do Cardosonline. A primeira vez que ouvi falar dele foi na aula do professor Paulo Seben, na UFRGS. Na época, o Seben era substituto de Leitura e Produção Textual (hoje, ele é adjunto de Literatura Brasileira). Ele ministrava a mesma cadeira na Fabico e na Letras. Naquela, era professor do Galera e de outros futuros integrantes do COL. Nesta, era meu professor e de mais um grupo de alunos que hoje está dando aula em colégios, cursinhos e faculdades. E ele costumava levar os melhores textos de uma turma para a outra ouvir. E o conto “Triângulo”, que seria publicado no primeiro livro do Galera, Dentes Guardados, foi lido pelo Seben na minha turma. Não sei se foi por causa da leitura tendenciosa do Seben, que já sabia a entonação que queria dar em cada frase, mas o fato é que foi encantamento à primeira audição (seria melhor se tivesse sido leitura, mas o Seben não nos distribuiu cópias do texto).

Desde então, sempre prestei muita atenção na produção do Galera. Acompanhei o lançamento da Livros do Mal, editora criada por ele, pelo Mojo e pelo pelo Guilherme Pilla, e guardo como relíquia os dois primeiros livros da editora (porque se tornaram relíquia, realmente). Fiquei muito contente quando ele publicou Mãos de Cavalo, seu primeiro livro pela Companhia das Letras, que reeditou Até o dia em que o cão morreu, lançado antes pela Livros do Mal. E a Companhia também publicou Cordilheira, único texto do Galera de que não gostei muito (embora tenha passagens muito boas, a trama não me agradou; isso acontece com uma certa frequência quando leio livros feitos sob encomenda, como é o caso deste, que foi o primeiro da coleção Amores Expressos, da Cia.).

Além de acompanhar as publicações, leio matérias e entrevistas sobre o Galera e adotei o Mãos de Cavalo no ano de seu lançamento com os meus alunos de 1º ano da época. Quando dei aula na UFRGS, pedi aos alunos que lessem alguns contos de Dentes Guardados. Agora que voltei a dar aula em colégio, meus alunos de 1º e 2º anos vão ler o Mãos de Cavalo. Parece obsessão, mas não é.

No prefácio para a nova edição de Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo, Antonio Candido escreveu que, na década de 30, uma das maiores ansiedades dele e de seus amigos era aguardar os lançamentos de Erico, Graciliano Ramos, Jorge Amado e de outros escritores que estavam publicando seus primeiros livros naquele instante. Não estou comparando Galera ao Erico, e muito menos me comparando a Antonio Candido, mas a sensação que tenho é a mesma. Sinto ansiedade para ler os novos livros de Galera, Mojo, Tatiana Salem Levy, Marcelino Freire, Antonio Xerxenesky, Michel Laub, Carol Bensimon e de vários outros autores vivos. Ansiedade de ler o que ainda nem escreveram. Pode? Acho que sim.

Eu gostaria de ler até mais do que já li dessa geração, mas o trabalho e os estudos impõem algumas leituras mais clássicas que desviam minha atenção. Mesmo assim, meu projeto de doutorado é uma revisão do que foi, do que significou e das consequências do Modernismo no Brasil, ou seja, algo pouco explorado nos estudos acadêmicos. Num exemplo mais concreto: eu amo Machado de Assis, mas não teria paciência pra escrever sobre ele, porque já tem tanta coisa escrita que precisa ser lida antes de se encontrar uma ideia nova sobre Machado… Muita gente escreve sobre Machado. E muita gente vai continuar escrevendo sobre ele. De mão levantada, pergunto, então, quem vai escrever sobre os novos? E, principalmente, quem vai ler os novos?

Leia Cachalote.

PS: assim que tiver tempo, escreverei mais sobre Cachalote e sua relação com a literatura do Mojo, que vai citado no livro de Galera e Coutinho. Tenho a sensação de que ninguém percebeu. Pelo menos, não vi ninguém comentar. Será que estou vendo coisas?

22/02/2010

Resposta aberta: mais Nei Lisboa

Caro João,

resolvi escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos lá.

Obrigado pela correção quanto ao Paixão Cortes. Eu confesso que não sou muito ligado na cultura tradicionalista, por isso o equívoco, mas me interesso por essas discussões a respeito da identidade gaúcha. De qualquer forma, já corrigi o erro no post.

Concordo que cada um pode pensar o que quiser e manifestar isso como e onde achar melhor. Realmente, Porto Alegre e o resto do Rio Grande do Sul têm espaços variados pra todo tipo de manifestação cultural, o que é muito bom.

Agora, você escreveu de maneira um pouco dispersa, me parece, então vou ser um pocuo disperso também e pontuar o que me chamou mais atenção:

1) Quando o Nei Lisboa disse que não gosta do Teixeirinha? Onde? Não foi na tal entrevista da ZH. Ou foi? Ele disse: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria.” Ele não disse que não gosta do Teixeirinha. Ele o ouvia quando criança. Só porque ele considera a música tradicionalista ruim estética, ideológica e musicalmente, não significa que ele não aprecia o Teixeirinha ou qualquer outro compositor da corrente. Reproduzi mais algumas frases aí porque trato do assunto abaixo.

2) Um dos problemas do Paixão Cortes e do Barbosa Lessa era a americanização que estava tomando conta do estado e do país. Na época em que eles idealizaram o MTG, a coca-cola estava entrando em larga escala no mercado brasileiro. Em São Paulo e no Rio, o modernismo já era reconhecido como o grande movimento artístico e cultural brasileiro. O próprio Paixão Cortes já contou essa história. Então, a briga é muito mais com a McDonaldização do mundo (expressão que o Luís Augusto Fischer criou e usa correntemente), que, de certa forma, ganhou uma contribuição do modernismo pra que se firmasse pelo país.

3) Sendo assim, está aí mais uma prova de que o MTG foi inventado. Ok, até aí quase nenhum problema, porque a maioria das tradições ao redor do mundo foram inventadas. Mas quando um grupo de tradicionalistas não aceita que alguém lembre que o movimento se transformou em atração turística com objetivos meramente financeiros e especulativos, chegando ao ponto de fazer ameaças de morte (ok, talvez estivesse brincando o cara que escreveu que faria com Nei o mesmo que aconteceu com o irmão dele, mas eu não acho que possamos brincar com a tortura da ditadura militar e seus desaparecidos políticos; isso é piada de mau gosto), a coisa parece que está fugindo do controle. E vamos combinar: a maioria das pessoas que defende as tradições gauchescas não as pratica de verdade. Ou estou errado? Na hora de gritar “Ah, eu sou gaúcho!”, é fácil reunir uma multidão, mas no dia a dia quantos cultivam as tradições? Meu palpite: menos de 10% da população.

4) E por que um número tão baixo? A resposta, a meu ver, explica também por que eu acho que o Nei Lisboa será mais lembrado que o Teixeirinha pelas gerações contemporâneas e vindouras: o mundo urbano ganhou o jogo, é a lógica urbana que rege o mundo; qualquer manifestação regional fica relegada a segundo plano, como coisa menor, mal feita. Não estou dizendo que concordo que deva ser assim nem que acho isso bom. Não é, realmente. (Seria ótimo se o povo gaúcho lesse mais Simões Lopes Neto.) E o Nei é um cantor urbano. O que ele faz é música urbana, mesmo que flerte com o pop, a mpb, o rock e até mesmo com a música tradicionalista (quem não lembra a belíssima “Exaltação”?).

5) Tentando concluir, o que eu acho errado nisso tudo é que querem nos fazer engolir uma tradição inventada, que não nos exprime. E querem fazer isso de maneira tão violenta quanto o modernismo e a americanização fizeram com a lógica urbana cosmopolista sobre a periferia do capitalismo e o mundo rural (Porto Alegre, por exemplo, é uma província até hoje, mas disso já falei; o Brasil também sempre esteve na periferia do capitalismo, só agora é que as coisas andam mudando). Aí vem a pergunta cabal: Precisa ser assim? Não dá pra achar um meio termo?

29/05/2009

Uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura

Uma discussão que muito me interessa e sobre a qual procuro refletir com meus alunos na UFRGS é a forma como a leitura é trabalhada na escola. Escreveram recentemente sobre o tema Sergio Rodrigues (aqui e aqui), Carlos André Moreira (aqui, aqui e aqui — este último acertando em cheio na questão), o Alexandre Rodrigues (aqui e aqui), e a Gabriela Rassy, que detonou a discussão (aqui), analisando um lançamento sobre o assunto. Todos jornalistas, todos bons e ávidos leitores, os três primeiros com blogs que se dedicam quase exclusivamente a debater livros e literatura.

A preocupação de todos é a minha também: em resumo, como estimular a leitura na escola? No entanto, por ter trabalhado anos em colégios particulares dando aulas de Literatura (e para onde, provavelmente, voltarei em breve), por estar trabalhando num curso superior de Letras em que o assunto é pensado com frequência e, enfim, por ser professor, acredito que tenho uma proposta viável para atingir o êxito no desafio ou, pelo menos, uma visão um pouco diferente.

Em primeiro lugar, não é verdade que para estimular um jovem a se tornar leitor é fundamental que a família seja leitora. Os pais não precisam ler nada. O que precisam fazer é, simplesmente, possibilitar a seus filhos o acesso aos livros, seja levando o jovem a uma biblioteca, seja comprando os livros sugeridos pela escola ou outros do interesse do filho. Se um pai disser pro filho que nunca leu nenhum livro na vida e que nem por isso deixou de se dar bem profissionalmente aí, sim, estará matando um leitor.

Segundo e talvez o mais importante, uma verdade que ninguém percebe: o vestibular não precisa ser o termômetro pro ensino de Literatura na escola. Não estou dizendo que o professor pode solicitar outras leituras além das exigidas pelo vestibular. É claro que ele pode e consegue fazer isso, se quiser. Ao longo de três anos (pensando no Ensino Médio, época em que a Literatura é trabalhada de forma mais sistematizada), é possível incluir na lista de leituras obras que não aparecem no vestibular, como de autores estrangeiros (sempre trabalhei Voltaire, Sófocles, Shakespeare, entre outros) ou de jovens autores (quando trabalhei com meus alunos Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, um deles chegou a dizer que aquele havia sido o melhor livro que um professor tinha solicitado que eles lessem). Autores assim não atrapalham a leitura das obras exigidas pelo vestibular. Pelo contrário, até ajudam, afinal, como entender a irracionalidade de Bentinho ao lembrar de Otelo sem ter lido o clássico de Shakespeare?

Agora, há um elemento na prova de Literatura da maioria dos vestibulares que os professores normalmente não percebem, muito menos os jornalistas, sem querer ofender ninguém aqui. Para constatar isso, basta pegar uma prova da UFRGS (vou usá-la como exemplo porque é com ela que tenho mais intimidade, embora seja fácil perceber que ocorre da mesma forma em outros vestibulares). Pra quem não sabe, o programa da prova de Literatura do vestibular da UFRGS contempla os principais autores da cronologia da História da Literatura Brasileira, além de quatro autores portugueses, e também apresenta uma lista de 12 leituras obrigatórias, leituras que certamente aparecerão na prova e que abrangem, normalmente, 50% das 25 questões da prova. Ou seja, essa lista é um presente para o candidato, já que ele sabe que aquelas leituras serão cobradas, enquanto o resto das questões é um mistério.

Diante disso, alguma questão cobra as características de qualquer autor ou período literário? Não! Ok, às vezes aparecem questões em que o candidato precisa saber apenas o nome de alguns livros de um determinado autor, mas isso é raro e não chega a ser grave. Questões assim servem para eliminar aqueles candidatos que estão disputando os cursos mais concorridos. Alguém pode argumentar que isso exige uma decoreba por parte do candidato. Por um lado, é verdade. Por outro, mesmo sem ter lido Memórias Póstumas de Brás Cubas, é importante que o candidato saiba que se trata de uma obra fundamental de Machado de Assis.

A maioria das questões do vestibular da UFRGS, porém, apresenta um poema ou um excerto de poema, ou um trecho de um conto, novela, romance ou crônica, e exige do candidato que demonstre compreensão do que está ali apresentado nas afirmações que devem ser identificadas como corretas e incorretas nas alternativas apresentadas. Não é necessária a leitura da obra completa para que o candidato consiga responder a questão, porque ela está perguntando o que está descrito naquele trecho, só naquele trecho. É claro que se o candidato leu a obra cobrada na questão, provavelmente terá mais facilidade para respondê-la, mas mesmo questões que envolvem leituras obrigatórias são frequentemente apresentadas do jeito que descrevi no início deste parágrafo e é por isso que escuto muito que às vezes basta ler um resumo da leitura para responder a questão. Na realidade, às vezes nem o resumo é necessário.

O problema do ensino de Literatura é semelhante ao da Língua Portuguesa. Os professores de Língua obrigam seus alunos a compreender funções sintáticas, normalmente a partir da 7ª série do Ensino Fundamental, mas elas não são cobradas na prova de Língua Portuguesa da UFRGS. Por que então exigir do aluno que ele saiba identificar a diferença entre um adjunto nominal e um complemento nominal se isso não aparece no vestibular e se nem os gramáticos conseguem chegar a um consenso sobre o tema?

A Literatura, assim como a gramática da Língua Portuguesa, é ensinada de maneira matemática, como se tivesse lógica. Os alunos decoram a sequência dos períodos literários e suas respectivas características antes de ler a obra dos autores de cada período. Depois, são cobrados a identificar aquelas características nos textos. E, pior, ficam com a impressão de que termina um período e começa outro: como explicar que Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo são períodos coetâneos? Ou, pior ainda, como explicar que Machado de Assis é realista se o seu já citado Memórias Póstumas, que deu início ao Realismo no Brasil, é narrado por um morto? Ora, Machado de Assis não se via como um realista. Chegou, inclusive, a ironizar o Realismo várias vezes em alguns de seus textos críticos…

Então, é incorreta a pergunta “por que exigir leituras importantes que não atraem o interesse dos alunos?” A reflexão que deve ser feita é como trabalhar essas leituras. Elas não precisam ser substituídas. O que deveria ser feito é mais simples do que parece: ler, exclusivamente. O professor de Literatura deveria ser um professor de leituras, um orientador de discussões com base nas leituras por ele propostas. Sem discussão em cima do que é lido, o texto torna-se chato, e o aluno não compreende o que está lendo. A aula de Literatura deveria ser uma aula de leitura em conjunto. Assim, lendo e parando para refletir sobre o que foi lido, discutindo e iluminando o que foi lido, o texto só será visto como chato e incompreensível se o professor for incompetente.

E reitero que o professor deve, sim, indicar as leituras que devem ser cobradas, sim, em avaliação. Mas antes da realização desta, o debate é necessário e fundamental. Sobre esse tópico, discordo do Alexandre Rodrigues, que escreveu em um de seus posts:

“A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes” [os livros por ela sugeridos]. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro. A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.”

Nenhum professor de Literatura pode afirmar para seus alunos adolescentes que é chato o livro que está solicitando que eles leiam! Isso é absurdo! Ok, o professor pode até dizer que tem restrições, que identifica alguns defeitos, que considera outros livros mais importantes ou interessantes, mas dizer que são chatos não condiz com a condição de um professor de Literatura numa escola. E que um professor experimente, hoje, dar essa liberdade da leitura livre a seus alunos: eles só lerão Paulo Coelho, J. K. Rowling, Dan Brown e outras bobagens que aparecem na lista de mais vendidos da Veja (não que eu ache a Rowling uma bobagem, afinal ela está muito distante do Brown e do Paulo Coelho, mas tem coisa melhor). Duvido que um aluno, atualmente, pegasse os livros citados pelo Alexandre de livre e espontânea vontade.

E isso que sua professora fazia não “é o máximo onde a escola pode chegar”. Para realmente estimular a leitura e formar leitores, a escola precisa rever seus programas curriculares e apoiar uma transformação na forma de se trabalhar a leitura. Quanto mais se lê, mais fácil fica interpretar qualquer questão de vestibular, inclusive das provas de exatas. Não se instiga o gosto pela Literatura com base nos períodos literários ou em características dos autores desses períodos. Por isso, ler com o aluno é a tarefa que deveria ser executada por qualquer professor no Ensino Médio. E assim qualquer aluno vai acabar apreciando Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra e O conde de Monte Cristo. E qualquer professor poderá trabalhar obras que, de outra forma, seriam censuradas. Seriam, não: algumas estão sendo, como os poemas do Joca Reiners Terron na coletânea Poesia do Dia, da Ática (como apontou o CA), ou as Aventuras Provisórias, do Cristovão Tezza (ok, talvez isso não seja censura, mas um sinal claro de que está errado o ensino de Literatura praticado nas escolas Brasil afora).

Se o aluno quiser estudar mais Literatura, ele vai acabar cursando Letras e aí, sim, vai estudar a cronologia, a História da Literatura, a teoria e a crítica literárias. Mas qual deveria ser o objetivo da escola: formar leitores ou especialistas em História da Literatura? Demonstrar por que Machado de Assis é tão bom ou fazer os alunos decorarem que não fica claro que Capitu traiu Bentinho?

Ok?! Ok.

06/05/2009

Quem quer sair da ilha?

Até o final da quarta temporada de Lost, a série parecia muito realista. Acho que foi isso que atraiu a atenção de tanta gente mundo afora. Os mistérios foram sendo criados, alguns foram revelados, mas nenhum parecia um absurdo total (exceto talvez pelo monstro, conhecido como Lostzilla).

Atualmente na 5ª temporada, Lost parece ter entrado em conflito com o realismo. E, para quem acreditava que tudo tinha uma explicação clara, essa diminuição do realismo afeta o interesse pela série. Eu sou fã de Lost, mas começo perder o interesse que tinha, especialmente, até o final da terceira temporada. Isso graças a esse excesso de novidades sem lógica. Afinal, ressurreição, viagens no tempo, deslocamento geográfico para sair da ilha e para movê-la são elementos que não fazem muito sentido.

Ok, tenho que reconhecer, até porque sou professor de Literatura e lido com narrativas ficcionais todo dia, que sempre que tomamos contato com uma narrativa (um filme, um conto, um romance, uma telenovela, um poema épico, uma peça de teatro, etc), precisamos aceitar que o que está sendo contado tem a sua verossimilhança. Em outras palavras, precisamos aceitar que o mundo ficcional que nos está sendo apresentado é um mundo possível, ou que ali são possíveis fatos que não aconteceriam no mundo real, no mundo em que vivemos. De outra forma, ninguém leria a Odisséia ou Harry Potter (para ir de um extremo a outro).

O problema do realismo com relação a Lost é que estamos diante de uma série (ou seriado, como queiram) de longa duração, com um total de seis temporadas previstas, cada uma com cerca de 24 episódios, cada um com uma hora de duração — exceto pela quarta temporada, que teve apenas quatorze episódios em função da greve dos roteiristas. (Alguém aí pode argumentar que uma telenovela da Globo totaliza um número muito maior de capítulos do que Lost atingirá no final da série. Mas telenovelas são gravadas diariamente para serem exibidas diariamente e não costumam ter um enredo tão complexo e inteligente como uma série produzida nos Estados Unidos, seja ela uma sitcom ou uma série dramática, como Lost.) Ao acompanhar as três primeiras temporadas, que foram quase totalmente verossímeis — portanto, ao longo de três anos –, é natural que a diminuição do realismo na quarta temporada, que se radicalizou na quinta, afete o interesse do espectador. Acho que se tivesse ficado claro, desde o primeiro episódio, que Lost não era uma série realista, eu não estaria tão incomodado…