Direto do Twitter

20/12/2008

Sergius Gonzaga matando a pau

Você não compreende por que existem leitores, críticos ou professores de literatura? Então você precisa ler o que escreveu o meu querido Sergius Gonzaga, professor da UFRGS e secretário municipal de cultura. Tá tudo resolvido…

17/12/2008

Entrevista desafiadora

Um dos gêneros mais interessantes e menos estudados dentro da academia é a entrevista. Aliás, tenho a impressão de que ela nem é considerada um gênero literário. Nunca vi ninguém referir-se à entrevista dessa forma. Mas devia ser diferente. Não estou falando de entrevistas tolas, com alguma celebridade indicando o livro que está lendo ou o que gosta de fazer aos domingos. Não estou falando de entrevistas em que nos deparamos com a reflexão de algum intelectual sobre algum assunto muito específico, sei lá, algo como o ataque às torres gêmeas. Penso naquelas entrevistas em que o indivíduo é questionado sobre questões relativas a seu trabalho, à sua experiência. Naquelas em que, mesmo diante de perguntas simples, ele consegue dissertar como se estivesse desenvolvendo uma tese ou um ensaio, defendendo uma idéia, apresentando reflexões que desafiam o leitor, desafios muito maiores do que os que ele próprio, o entrevistado, pode estar enfrentando ao tentar responder as perguntas de maneira clara, lógica, objetiva, inteligente.

Não faltam exemplos desse tipo de entrevista reunidos em livros: a Companhia das Letras publicou no final dos anos 80 dois volumes com entrevistas da revista Paris Review. Com o título de Os Escritores, gente como T. S. Eliot, William Faulkner e Jorge Luis Borges respondia a perguntas que já obrigariam elas próprias a fazer o leitor pensar. Agora, a mesma editora lançou um livro de entrevistas realizadas pelo norte-americano Philip Roth. Entre nós reúne depoimentos de Milan Kundera e Primo Levi, entre vários outros (confesso não ter lido ainda, mas deve seguir a mesma linha). As entrevistas de Antonio Candido para Luiz Carlos Jackson reunidas em A Tradição Esquecida são uma aula sobre vida, literatura e sociologia.

Mas escrevo esse post para pensar um pouco sobre a entrevista do Daniel Galera para o Fórum Virtual de Literatura e Teatro, site vinculado ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), da UFRJ. Já falei da minha admiração pelo Galera por aqui, já li ou vi outras entrevistas dele, mas creio que esta tem algo que precisaria ser pensado por todo jovem professor de Literatura. Penso nos jovens porque são quem normalmente têm os julgamentos mais definidos na cabeça a respeito do que é a Literatura, mesmo tendo consciência de que ela não pode ser julgada. Reproduzo um trecho:

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Daneila Birman: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

Daniel Galera: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. “Porque a literatura busca isso”, “A literatura é aquilo”, “A literatura deve…”, “A literatura precisa de…” Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma.

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As declarações do Galera deveriam ser lidas nas cadeiras de Teoria da Literatura nos cursos de Letras. Elas ajudariam a eliminar boa parte dos equívocos em torno da figura do autor e da obra literária. Ora, nenhum autor escreve movido por um sentimento de grupo. Pelo menos não deveria ser assim. (Claro, alguém pode lembrar do Modernismo Brasileiro. Aí faço a pergunta: qual é a grande obra dos modernistas? Macunaíma? Não me façam rir porque o assunto é sério. Se considerarmos o Modernismo puro, ou seja, o da década de 20, não há uma grande obra, não há nem uma obra digna de figurar ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, São Bernardo ou Claro Enigma.)

O verdadeiro autor de Literatura sabe que ela “contém verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma”. E por isso, críticos e professores não podem acreditar que são os porta-vozes da Literatura. Nossa tarefa é pensar sobre ela, tentar explicá-la, mas nunca acreditar que a nossa noção sobre o que é a Literatura é a única correta. Quem pensa dessa forma vai acabar quebrando a cara, mais cedo ou mais tarde. E estão fadados ao fracasso e ao esquecimento os autores que encaram a Literatura como uma “entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho”.

Quando a Literatura deixar de ser tratada como uma entidade (porque ela é tratada assim pela maioria das pessoas, sejam leigos ou especialistas) e quando a Literatura deixar de ser encarada com o caráter escolar que ainda possui no país, talvez tenhamos uma sociedade mais inteligente com menos desigualdade e menos barbárie. Mas isso já mereceria outro post, que fica pra outra hora.

30/11/2008

Muitas capitus…

Elisa LucasHá duas semanas, fui assistir ao espetáculo Confesso que capitu, da minha amiga Elisa Lucas. Trata-se de um monólogo, dirigido pelo Roberto Birindelli, escrito pela própria Elisa, que interpreta a personagem mais misteriosa da Literatura Brasileira: Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Devo confessar que uma adaptação desse tipo normalmente me deixa apreensivo. É difícil transpor para o palco uma adaptação inteligente de um livro tão importante e fascinante. Mas Elisa consegue superar essa dificuldade muito bem. Na realidade, ela não interpreta Capitu do início ao fim: a peça traça um paralelo entre a personagem e uma moça que descobre a personagem. Com engenho, Elisa encarna as várias facetas dessa mulher sedutora, infeliz, que detona o conflito psicológico do pobre Bento Santiago.

Quem não assistiu ao espetáculo, tem a oportunidade de conferi-lo nesta semana. A peça de Elisa está dentro da programação do VII Fórum de Literatura Brasileira e II Fórum de Literatura Portuguesa e Luso-Africanas, que ocorre de terça a quinta, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues (Érico Veríssimo esquina com Ipiranga) e na Escola Técnica da UFRGS (Ramiro Barcellos esquina com Ipiranga). As apresentações da peça serão na Sala Álvaro Moreyra (no Centro Municipal de Cultura), às 21h de terça e quinta, dias 02 e 04 de dezembro. Para os participantes do Fórum, haverá desconto especial (mas confesso que agora não sei os valores exatos…).

E na semana que vem, estréia na Globo a minissérie Capitu, também baseada em Dom Casmurro. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a narrativa terá uma linguagem não-realista, que está se tornando a marca do diretor (vide Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino), e faz parte do projeto Quadrante, que ainda adaptará Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Dançar Tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.

Michel Melamed como BentinhoNormalmente, Carvalho é muito feliz nessas suas aventuras que misturam literatura, cinema e artes visuais. Vamos aguardar o dia 09/12 pra ter certeza de que a coisa é tão boa quanto parece. Pelo menos, acho que numa coisa ele já certou: Michel Melamed vivendo o Bentinho adulto. (Já a Maria Fernanda Candido interpretando a Capitu adulta me parece um tiro no pé. Ela já viveu uma Capitu naquele filme Dom, uma das maiores porcarias do cinema nacional. Apesar disso, acho que o Carvalho é um diretor muito mais inteligente do que o Moacyr Góes e deve ter aproveitado o que ela tem de bom. Veremos.)

24/11/2008

Como era bom ser garoto…

Minha Aldeia

No último fim de semana arranjei um tempo para ler Minha aldeia, novo livro do meu colega e orientador Luís Augusto Fischer (R$ 15,00, o livro está sendo lançado por uma editora nova, de Caxias do Sul, a Belas Letras). O texto é claramente voltado para jovens de 12, 13 anos, mas fiquei com uma sensação esquisita, que já senti outras vezes. É assim uma espécie de dor por não ter lido isso antes. Ter lido esse texto antes seria impossível, porque o livro foi lançado agora. Mas a idéia é justamente essa.

Explico: eu tinha uns 22 anos quando li pela primeira vez O Apanhador no Campo de Centeio, do J. D. Salinger. Gostei muito, mas fiquei com a mesma sensação: devia ter lido esse texto antes. Quando comecei a dar aulas para 5ª e 6ª séries, li alguns textos que nunca havia lido: As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, e O Mágico de Oz, do Lyman Frank Baum, por exemplo. Li porque queria trabalhar esses textos com os alunos. Era meu primeiro emprego numa grande escola de Porto Alegre, salário bastante atraente, ótima estrutura de trabalho, enfim, uma chance muito boa. E eu preferia trabalhar com textos que não fossem adaptações de obras clássicas. Não que eu seja totalmente contra adaptações. Já fui mais radical com relação a isso, mas hoje não tanto. Só continuo achando que há livros destinados a todas as idades e que não tem muito sentido trabalhar a Odisséia adaptada se os alunos não leram ainda O Médico e o Monstro, que pode ser lido tranqüilamente no original traduzido. Nisso, ganhei bastante apoio da equipe pedagógica e consegui realizar um bom trabalho.

O Apanhador eu li porque queria ler, mas, com esses outros que citei, fiquei com a mesma sensação de que devia ter lido antes, porque teria aproveitado melhor a leitura, porque teria me encantado mais, porque talvez hoje eu fosse um leitor melhor do que sou. Quando comecei a ler de maneira assídua, lá pelos 14, 15 anos, fui direto a obras consagradas da literatura adulta: Hamlet (Shakespeare), Édipo Rei (Sófocles), Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), A Ferro e Fogo (Josué Guimarães), O Continente (Érico Veríssimo)… Eu não era um autodidata ou um adolescente metido a intelectual: essas foram algumas das leituras que fiz a pedido dos professores entre a 8ª série e o 2º ano do Ensino Médio (na época, 2º Grau). Foi graças a esses professores que aprendi a gostar de ler, porque tive de ler ótimos livros. Não que minha família não nos incentivasse, a mim e a meu irmão. Dinheiro pra livros nunca faltou. Mas o gosto pela literatura veio pelas mãos dos mestres, mesmo.

No entanto, essa novela do Fischer traz mais do que uma simples sensação do tipo “devia ter lido antes”. Ela consegue captar essas emoções de aprender coisas novas, de descobrir mundos novos, que vão se perdendo à medida que ficamos adultos. O protagonista da narrativa (em 3ª pessoa) chama-se Felipe: tem 12 anos, mora numa cidade do interior chamada Conceição do Arroio e, como todo adolescente do século XXI, tem muitas perguntas, e normalmente não encontra respostas para a maioria delas. Já no primeiro capítulo, somos jogados no meio de uma aula de Geografia, com Felipe perguntando “Tá, professora, eu entendi, mas aqui não tem nada que seja maior?” Só lá pela metade desse primeiro capítulo é que vamos conhecer quem é o Felipe e por que ele faz esse tipo de perguntas. Em seguida, a família do Felipe vê-se obrigada a mudar-se para a capital, o que gera angústias e emoções variadas, afinal ele se distanciaria dos amigos, dos parentes mais próximos e da quase namorada para conhecer e viver uma cidade que, esta sim, aparecia nos mapas de Geografia e História, com todas as conseqüências de se morar numa cidade grande e nova (além dos novos amigos, do novo colégio, ter de lidar com a violência, por exemplo).

Fischer consegue conduzir a narrativa de forma leve, bem humorada, criando a tensão necessária e realista. É quase como se o texto tivesse sido escrito por um jovem de 12 anos, embora seja difícil encontrar alguém com talento para tanto nessa idade. O que quero dizer é que, se não estou enganado, não há garoto ou garota que não vá gostar dessa história. E mesmo para nós, adultos, ela ajuda a recuperar muito da inocência que se perdeu na época em que qualquer lugar podia se transformar no melhor lugar do mundo. Depois farei o teste com meu irmão que está chegando aos 10 anos e conto pra vocês…

05/08/2008

Como é bom ser o centro das atenções…

19 jul
Marcelo Frizon
Anônimo
Acho que vai ser inevitável e queria saber como é.

19 jul
Anônimo
Dizem que o melhor momento da aula dele é quando acaba

24 jul
Anônimo
Nossa, que incentivo!!

30 jul (6 dias atrás)
Rosa Elemental
Não tive aulas com ele.
Mas os comentários que ouvi nos dois últimos semestres me fizeram não querer experimentar.

15:42 (6 horas atrás)
Anônimo
Eu até gostei
Muito melhor do que aturar o seboso do Fischer ou as taradices do Seben. O Frizon dá muitos textos críticos interessantes. Se quiser se dar bem, vá ler os livros, porque ele não dá nada mastigado, não escreve no quadro e não contribui muito para possíveis anotações. Eu diria que ele é mais um orientador do que um professor, do estilo “quer aprender? Se vira!”.

Os comentários acima foram retirados de uma comunidade do Orkut chamada Professores – Letras / UFRGS. Alguns colegas meus andam irritados com ela. O dono da comunidade respondeu sabiamente a um desses comentários e o reproduziu na comunidade.

O Orkut, como diversos outros serviços da Internet contemporânea, tem ferramentas que podem ser muito úteis, como poder reencontrar amigos, não esquecer datas de aniversário e criar comunidades sobre qualquer assunto. E como estamos num país livre, todo mundo tem o direito de criar uma comunidade assim. Só acho uma pena que os comentários anônimos são permitidos. Eu sou da opinião de que cada um deve dar a cara pra bater quando está defendendo seus argumentos. Dos cinco comentários acima, apenas um está assinado, de uma pessoa que não teve aula comigo. De qualquer forma, eu não responderia a nenhum dos comentários. Não acho que eu deva me meter.

Criticar professores é uma prática muito comum entre os alunos. Aliás, é uma prática comum também entre os próprios professores. Quando eu era estudante no colégio e na UFRGS, era comum discutirmos a qualidade da aula e também, especialmente na universidade, vermos professores questionarem o método de seus colegas. Acho que é algo que deve ocorrer em qualquer profissão, no final das contas.

Mas o que eu queria registrar sobre o assunto não é isso.

Nenhum professor tem (ou pelo menos não deveria ter) a ilusão de que vai agradar todos seus alunos. Num curso como a Letras, onde estamos formando professores (além de bacharéis — e muitos destes acabam tornando-se professores), isso é pouco debatido. Aliás, é algo pouco debatido também nas cadeiras da Educação. Aí cabem duas perguntas: 1) como tornar a aula mais interessante pro aluno? No fundo, só se descobre isso na prática, ou seja, dando aula. 2) um curso de licenciatura transforma realmente o graduando em professor? Hummm… Essa é uma resposta difícil. Ajuda, certamente. Mas eu compartilho da idéia do mestre Paulo Guedes: a formação de um professor é determinada pela experiência que esse futuro professor teve com seus professores. Em outras palavras, todo professor aproveita para a sua própria formação (às vezes de maneira inconsciente) a forma de conduzir uma aula com os professores que lhe formaram, inclusive os maus professores.

O objetivo de todo professor ao ministrar suas aulas deve ser ensinar bem e de maneira interessante. Em outras palavras, o professor precisa tocar seus alunos. Pode parecer um comentário piegas, mas é por aí. E no momento em que um professor consegue tocar um aluno, apenas um, ele já sente que cumpriu seu dever. Pode parecer mediocridade, mas não é, especialmente se pensarmos que estamos num país onde educação de qualidade é privilégio de poucos e mesmo entre esses poucos são pouquíssimos os que valorizam realmente a educação. Isso ocorre inclusive na universidade.

Pra ilustrar o argumento: eu costumo contar em aula a história de um colega que se formou comigo na Letras da UFRGS (eu na Licenciatura, ele no Bacharelado) orgulhando-se de não ter lido nada durante o curso todo. Pode parecer absurdo ou impossível, mas não é. Gente medíocre e malandra existe em qualquer lugar. É claro que essa pessoa acaba se tornando um péssimo profissional e que o mercado de trabalho vai acabar ejetando esse tipo de gente. (No caso do meu colega, confesso que não sei o que ele está fazendo.)

Eu mesmo admito que não soube aproveitar bem a maior parte das aulas que tive na universidade. Eu entrei lá muito jovem, imaturo, inexperiente, e foi ela que me ajudou a crescer. No primeiro semestre, tive aulas com a professora Bina Maltz, na disciplina que hoje é a Literatura Brasileira A (conteúdo: do descobrimento do Brasil ao fim do Romantismo). A Bina falava muito, não gostava de ser interrompida, e ficava sempre sentada. Quando alguém queria participar, ela dava espaço, mas aproveitava apenas o que realmente valia a pena. Os comentários imbecis eram praticamente ignorados, o que fazia com que não ficássemos com a impressão de que ela estava sendo agressiva ou deselegante. Alguns semestres depois, fiz, novamente com a Bina, Literatura Dramática Brasileira (uma cadeira sobre a produção de literatura teatral no Brasil). Quanta diferença! O problema do primeiro semestre logicamente não era a Bina, era eu, que não conseguia ainda acompanhar o raciocínio dela, seu ritmo e, principalmente, uma discussão realmente teórica sobre Literatura, visto que no colégio as noções de Teoria da Literatura são muito superficiais (e não precisa ser diferente, pelo menos não muito). Eu era um jovem saindo da adolescência. Não sabia nada da vida. Entrei na Letras porque gostava de Português e Literatura, porque gostava de ler, mas não imaginava o que teria pela frente. A Bina acabou revelando-se uma das melhores professoras que tive.

Através de uma ferramenta do Portal do Servidor da UFRGS, temos acesso a comentários dos alunos a respeito das aulas do semestre. Os comentários são opcionais, escreve quem quer (e normalmente os alunos que gostaram da cadeira não se manifestam). Além disso, lá são obrigatoriamente anônimos, pelo menos é o que parece, e acho que ali deve ser assim mesmo, já que é um espaço oficial para comentar as aulas do semestre e é algo que não é público, ou seja, ninguém além do próprio professor vai ler o que seus alunos comentaram — aliás, às vezes nem o próprio professor lê — porque o objetivo ali é unicamente sugerir melhorias e elogiar as qualidades da aula de cada professor. Por isso tudo, então, reproduzo alguns trechos que lá estão a respeito das minhas aulas do semestre passado:

1) No início eu achei a quantidade de leitura exagerada. Depois, além de ter dado conta de tudo, achei que realmente não tinha como ser diferente…
O Professor Marcelo é muito interessado e dedicado. Foi um prazer ter aula com ele.

2) Demonstrou durante todo o semestre não estar preparado para dar aulas. Sua didática é muito pobre no que tange a disciplina. Faltava motivação, entusiasmo, sendo que muitas vezes até um desencorajamento na leitura das obras. Não consigo entender como um professor deste nível consegue ser aprovado por um processo e venha a dar aulas na UFRGS. Os conteúdos, ou melhor, a falta de conteúdos das aulas eram compensados por uma prova muito bem elaborada, mas que estavam em discordância com o que foi visto.

3) (…) Outro assunto que deveria ser evitado é a respeito do ensino de Literatura no Ensino Médio. Ainda que a maioria dos alunos de Lit Bra C seja de Licenciatura, esse espaço é para se tratar de LITERATURA. O resto vai ser discutido no lugar certo, que é a FACED, nas disciplinas que existem exatamente para isso. Quem é do Bacharelado não precisa acordar cedo para chegar na aula e ouvir 30 minutos de discussão sobre algo com o qual simplesmente não se importa.

É interessantíssimo como um mesmo professor pode gerar comentários tão díspares como os acima, especialmente os dois primeiros. Com relação ao terceiro, acho que vale a pena refletir um pouco.

Infelizmente, a Faculdade de Educação da UFRGS (FACED) não têm especialistas no ensino de Literatura. Aliás, não têm especialistas no ensino de nenhuma licenciatura. A discussão por lá é mais teórica, focada no processo didático, no ensino-aprendizagem, nas teorias da educação, etc. Se os professores de Literatura não discutirem o ensino de Literatura, quem o fará de maneira decente?

E um bacharel que não se interessa pelo assunto deve ser um bacharel parecido com o meu colega que não leu nada durante o curso. Afinal, o trabalho do bacharel, o trabalho do tradutor e do intérprete depende da educação. Se não discutimos o ensino de Literatura, não temos ferramentas suficientes para dar aulas sobre o assunto e acabamos formando leitores medíocres ou nem acabamos formando leitores, o que torna o trabalho dos bacharéis completamente inútil, afinal ninguém leria o que foi traduzido porque ninguém teria interesse. É por causa de um argumento como esse (terceiro) que a profissão de Bacharel em Letras não é regulamentada (pra quem não sabe, qualquer pessoa pode traduzir um livro, por exemplo, porque a legislação brasileira não obriga que o profissional seja formado em Bacharelado em Letras, e isso é uma das grandes tristezas dos bacharéis, é algo que sempre é pateticamente comentado pelos oradores nas formaturas — é claro que se a legislação mudasse o Brasil perderia pelo menos 80% dos seus melhores tradutores). Eu costumo dizer pros meus alunos que ser um médico é muito bom, mas ser um médico culto é muito melhor. O mesmo vale pros bacharéis em Letras.

Pra finalizar, pelo menos por enquanto, é muito bom ser o centro das atenções. Confesso que, depois de dois semestres dando aulas na UFRGS, eu já estava um pouco frustrado por não ter visto meu nome circular na famigerada comunidade (famigerada para alguns colegas, claro).

Direto de Brasília

Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola

Acabo de voltar de Brasília. Isso explica o atraso na aprovação de comentários e na publicação de novos posts. Pra recomeçar, a foto acima é da Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola, mais uma obra grandiosa da bela arquitetura candanga. A Biblioteca fica próxima a outros símbolos da capital federal, como a catedral. Além disso, está situada no eixo monumental, ou seja, próxima também da esplanada dos ministérios, do Itamaraty, do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto. Só é pena que gastaram milhões de reais na construção de uma biblioteca que, literalmente, não tem livros…

22/06/2008

novo blog no surdina.com

Mais um blog faz sua estréia no surdina.com. O brasileiro/português Grifão Duarte destacará boas sugestões de leitura sempre destacando trechos atraentes de cada livro escolhido.

Grifão é um amigo que conheci há alguns meses. Já no primeiro contato, me impressionei com sua grande cultura, seu refinamento, sua capacidade de ler uma quantidade imensa de obras sem esquecer dos principais detalhes de cada livro. Foi por isso tudo que o convidei a escrever no surdina. Felizmente, ele aceitou o convite e ainda propôs a idéia do blog.

Tenho certeza de que vocês vão gostar tanto quanto eu já estou gostando do seu blog. A sua primeira sugestão de leitura é realmente imperdível. Confiram!