Direto do Twitter

16/01/2009

Ano novo, língua nova

Muita gente anda preocupada com a reforma ortográfica. Sinceramente, eu não estou nem aí. Quer dizer, sei que isso vai mudar muita coisa, mas não acho que seja motivo pra tanto alarde. Em princípio, sou contra a reforma, por motivos variados, mas acho que vamos precisar de alguns anos pra ter certeza de que ela é boa ou ruim.

Uma das coisas mais inteligentes que li até agora foi o que escreveu a Carol Bensimon em seu blog Kevin Arnold para dois. Nós, estudiosos da língua ou membros de uma elite que domina o padrão culto, não podemos reclamar da reforma só porque vamos ter de controlar o que está sendo alterado. Diz a Carol: “o sujeito simplesmente diz que se negará a deixar de lado a velha ortografia para adotar a nova. O que enxergo aí é bem claro: quem domina o código linguístico não quer ver o seu poder enfraquecido frente a mudanças que ele ainda não domina. Além disso, a maioria não quer se esforçar nem um pouco para manter a posição que conquistou.” Bingo! É por isso que essa elite tem razão ao reclamar que a língua não pode ser alterada através de leis. Pode parecer papo de lingüista, mas não é, e, acredito, nem preciso explicar por quê. (Sei que agora devemos escrever “linguista”, porque o trema deixa de existir na nova ortografia, mas ainda não a adotei, porque podemos utilizar a velha ortografia por mais um tempo. Ou seja, ainda não é crime não usar a nova — afinal, a língua é regida por uma lei.)

Pra finalizar: na última segunda-feira, participei, junto com o jornalista Julio Ribeiro,  do programa Coffee Break, da rádio Band News RS, comandado pelo Guilherme Baumhardt. Uma das coisas que comentei era que a reforma vai gerar uma transformação no mercado editorial, e que vai se acabar gastando grandes quantias que poderiam ser utilizadas de outra forma. A meu ver, mesmo com o governo investindo mais do que nunca em educação, antes de reformar é preciso construir. E a construção continua capenga…

05/08/2008

Direto de Brasília

Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola

Acabo de voltar de Brasília. Isso explica o atraso na aprovação de comentários e na publicação de novos posts. Pra recomeçar, a foto acima é da Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola, mais uma obra grandiosa da bela arquitetura candanga. A Biblioteca fica próxima a outros símbolos da capital federal, como a catedral. Além disso, está situada no eixo monumental, ou seja, próxima também da esplanada dos ministérios, do Itamaraty, do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto. Só é pena que gastaram milhões de reais na construção de uma biblioteca que, literalmente, não tem livros…

04/06/2008

Já decidiu em quem vai votar?

A pergunta é irônica, claro, mas é assim que a maior parte dos brasileiros deve se sentir. Talvez seja um sentimento mundial. As eleições americanas acabam se transformando em algo muito maior. Lembro-me que vi, na época das últimas eleições, um carro circulando por Porto Alegre com um adesivo de apoio ao John Kerry. Como se fizesse alguma diferença tomarmos posição diante dessas eleições… Como diria Machado de Assis, ou muito me engano, ou acabo de escrever um post inútil, tão inútil quanto eu pensar qual é o melhor candidato.

29/05/2008

pelo menos isso…

STF aprova pesquisas com células-tronco embrionárias.

Por mais que a discussão tenha sido estúpida, como bem observou o Marcelo Leite, por mais que não seja um super avanço, pelo menos não é um retrocesso…

Como diria um grande professor meu, Deus não existe. Você pode acreditar nele, mas ele não existe. E se existisse, provavelmente concordaria com a decisão. Religião e ciência são duas coisas distintas. Cada uma devia cuidar da sua área. Quer dizer, os religiosos deveriam se dar conta da sua posição… Ou então, os cientistas deveriam começar a questionar as burrices da Igreja de maneira mais agressiva, da mesma maneira como ela faz com a ciência.

28/05/2008

lula vai me assaltar de novo…

Essa semana fui assaltado. Nada grave, o cara estava nervoso, com pressa e só queria dinheiro. Dei o que tinha no bolso, R$ 10,00. Na carteira tinha mais alguma coisa, mas tive a sorte de não ser pressionado a tirá-la da pasta.

Mas o pior é não ser assaltado concretamente, fisicamente. Enquanto o PT era oposição, defendia o fim da CPMF. Graças à atual oposição (que era governo antes), ela acabou. Mas agora o Lula diz que precisa de mais dinheiro, que o dinheiro arrecadado com impostos no Brasil não é suficiente pra melhorar a saúde, e que por isso precisa de um imposto novo.

O pior desse assalto é que a maior parte do povo não sabe exatamente quanto está sendo roubado. Nos EUA, todos os produtos têm o seu valor apresentado na etiqueta, acompanhado do imposto e do valor final, ou seja, a soma dos dois. Só pra dar uma idéia, dos cerca de R$ 2,50 cobrados por litro de gasolina aqui no Brasil, por volta de R$ 1,20 é imposto. Eu gastaria em torno de R$ 65,00 pra encher o tanque do meu carro, ao invés de R$ 120,00… Mas isso não está na vitrine dos postos de gasolina. E agora, o assalto voltará a acontecer diretamente na minha conta bancária.

Pode ser muito ofensivo chamar o presidente da república de ladrão ou assaltante. Talvez eu até pudesse ser preso por isso. Mas eu retiro prontamente esse post do ar se esse novo imposto, que certamente será aprovado, realmente solucionar os problemas da saúde pública no Brasil. Duvido que isso aconteça. Eu já disse que se a antiga CPMF tivesse sido destinada para a saúde, como era a intenção inicial lá no governo FHC, ninguém precisaria de plano de saúde privado. Acho que, no fundo, o Lula está precisando nos roubar novamente pra pagar as suas dívidas com seus amigos mensaleiros que se sentiram injustiçados pela imagem negativa criada pela imprensa.

Mas a pergunta que não quer calar é: se o Lula já disse que a saúde no Brasil funciona, por que então ele tem um plano de saúde privado?

15/05/2008

A corrupção da ideologia: PT e PSDB juntos!

Se há algum tempo os intelectuais já vinham comentando que os limites entre direita e esquerda andavam muito próximos, agora está comprovado: PT-MG aprova aliança com tucanos na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Há algum tempo, o jornalista Reinaldo Azevedo escreveu talvez o seu único texto inteligente, que foi publicado na falecida revista Primeira Leitura, que era financiada pelo PSDB. Na época, enviei o texto para um grupo de amigos de esquerda, que ficaram furiosos comigo… hehehe… Uma disse que se recusava a ler só porque a revista era do PSDB e repudiava a minha atitude de ter enviado o link. Ou seja, humor, pra ela, tem ideologia. Talvez ela tenha razão. E talvez o maior problema da esquerda no Brasil seja justamente a falta de humor. Hoje percebo isso, porque abandonei totalmente minhas utopias político-partidárias. Outro dia uma criatura também ficou indignada comigo porque eu disse que anularia meu voto nas próximas eleições. Ora, isso é parte de um posicionamento político. Não é uma atitude alienada. Pelo contrário.

Nas eleições de 1994, Olívio Dutra (PT) e Antonio Brito (na época, PMDB) disputavam o segundo turno das eleições pra governador do Rio Grande do Sul. Meu pai continua acreditando no PT, e naquele momento sua paixão pelo partido nos influenciava fortemente, a mim e meu irmão. Um dia, fazendo campanha pro Olívio (numa época em que militantes não precisavam ser pagos pra fazer bandeiraços, e todos achavam essa atitude positiva), meu pai e meu irmão foram barrados na Av. D. Pedro II, em Porto Alegre, onde ficava o diretório do PMDB. Barrados talvez não seja o melhor termo. O carro da família foi obrigado a parar, porque portavam bandeiras do PT. Mas quem barrou era o povo do PMDB, não a polícia, que não barraria, afinal não se estava provocando ninguém, não se estava ofendendo ninguém e nem era o dia da eleição. Discussão, bate-boca, confusão, etc, tudo comandado pelo sr. Nelson Proença (hoje deputado federal pelo PPS), que conhecia meu pai. Eis que, de repente, surge uma bomba de gás lacrimogêneo que é jogada dentro do carro! Meu irmão tinha 13 anos (e eu sou apenas um ano mais velho que ele, ou seja, a gente nem podia votar ainda… hehehe). Meu pai arrancou o carro e assim que que tomou fôlego e se distanciou dos canalhas comandados pelo Proença, conseguiu pegar a bomba e jogá-la fora. Mas a pele, os olhos, e a respiração dos dois sofreu bastante…

Vieram para casa. Meu pai e meu irmão não conseguiam parar de chorar por causa da bomba. Não era susto, medo ou raiva, logicamente. Eu e um amigo (este já eleitor) nos juntamos ao bando e fomos atrás da Brigada Militar, que nos acompanhou até o diretório. Mais confusão que não deu em nada. Registramos a ocorrência, que guardo até hoje, como lembrança. “Lembrança de quê, mesmo?!”, podem estar você se perguntando, caro leitor. Lembrança de uma época em que o PT ainda era um partido digno, embora alguns defendam a tese de que isso nunca existiu. Eu acho que existiu. O problema é que o poder corrompe qualquer um.

Continuo socialista, só não tenho mais utopias e ideologias. Mas ainda me chamam de alienado… Depois de tudo isso… Só rindo.

Felizmente encontrei o texto do Azevedo neste link, já que a revista Primeira Leitura não existe mais, mas reproduzo-o aqui embaixo, porque vale muito. É sobre a época dos dólares na cueca… Divirtam-se! Ou não…

Cueca, Literatura e Política,
por Reinaldo Azevedo

A cueca segundo Machado de Assis, Dalton Trevisan, Graciliano Ramos, Rimbaud, Lênin e Proust, dentre outros

Marketing: A Casa das Cuecas, tradicional loja de underwear masculina, pode trocar o nome para Casa de Câmbio. Com cartão-fidelidade para petistas.

Literatura política: Em vez de Marx ou Maquiavel, os petistas podem ler os sete livros da série Capitão Cueca, publicados pela Cosac & Naify. Para os teóricos da conspiração, o mais indicado é Capitão Cueca e o Perigoso Plano Secreto do Professor Fraldinha Suja. Ótimo para candidatos a comissário do povo. Para os que se amarram num debate-boca sobre o monopólio petista da ética, pode-se recomendar Capitão Cueca e o Ataque das Privadas Falantes. E para os que querem, mas já não podem, se livrar de companhias incômodas e suas milionárias contas secretas, vai o Capitão Cueca e a Grande e Desagradável Batalha do Menino Biônico Meleca Seca.

Um Haicai:
Cueca e dinheiro,
o outono da ideologia
do vil companheiro

À moda Machado de Assis: “Foi petista por 25 anos e 100 mil dólares na cueca”.

À moda Dalton Trevisan: “PT. Cem mil. Cueca. Acabou”.

À moda concretista: “PT cueca cu PT eca peteca te peca cloaca”.

À moda Graciliano: “Parecia padecer de um desconforto moral. Eram os dólares a lhe pressionar os testículos”.

À moda Rimbaud: “Prendi os dólares na cueca, e vinte e cinco anos de rutilantes empulhações cegaram-me os olhos, mas não o raio X”.

À moda Álvaro de Campos: “Os dólares estão em mim / já não me sou / mesmo sendo o que estava destinado a ser / nunca fui senão isto: um estelionato moral / na cueca das idéias vãs”.

À moda Drummond: “Tinha um raio X no meio do caminho”.

À moda TS Eliot: “Que dólares são estes que se agarram a esta imundície pelancosa? / Filhos da mãe! Não podem dizer! Nem mesmo estimam / O mal porque conhecem não mais do que um tanto de idéias fraturadas, batidas pelo tempo / E as verdades mortas já não mais os abrigam nem consolam”.

À moda Lispector: “Guardei os dólares na cueca e senti o prazer terrível da traição. Não a traição aos meus pares, que estávamos juntos, mas a séculos de uma crença que eu sempre soube estúpida, embora apaixonante. Sentia-me ao mesmo tempo santo e vagabundo, mártir de uma causa e seu mais sujo servidor, nota a nota”.

À moda Lênin: “Não escondemos dólares na cueca, antes afrontamos os fariseus da social-democracia. Recorrer aos métodos que a hipocrisia burguesa criminaliza não é, pois, crime, mas ato de resistência e fratura revolucionária. Não há bandidos quando é a ordem burguesa que está sendo derribada. Robespierre não cortava cabeças, mas irrigava futuros com o sangue da reação. Assim faremos nós: o dólar na cueca é uma arma que temos contra os inimigos do povo. Não usá-la é fazer o jogo dos que querem deter a revolução. Usá-la é dever indeclinável de todo revolucionário”.

À moda Stálin: “Guarda e passa fogo na cambada!”.

À moda Guimarães Rosa: “Zezinho doleta tinha dívida de gratidão que não se paga jamais, seu moço, com Nhô Nobre, coisa assim lá pras bandas de outro mundo genuinamente de dentro dos cafundós da alma e por isso aceitou abrigar lá nas baixuras do homem onde a gente peca e fica sujo de tanta felicidade aquela dinheirama toda. E sentiu assim uma gostosura morna, só esfriando quando o sordado do zóio amarelo lhe apalpou as honras. Mas se calou mudo como nos confins do mundo imundo”.

À moda Rubem Fonseca: “O dinheiro lhe pesava no escroto e aquela acidez permanente ameaçando romper a barreira do esfíncter esofagiano inferior. Mastigou um comprimido de magnésia bisurada e achou engraçado que pudesse ter uma ereção numa hora como aquela, com o sangue a encher os corpos cavernosos de sua honra inútil, procurando um lugar entre notas amassadas e pentelhos hirsutos. Sentiu, sem saber por quê, vontade de matar anões”.

À moda Jô Soares: “Eu não uso cueca”.

À moda Proust: “Acomodou os dólares na cueca e atentou para o elástico frouxo e a trama do tecido já interrompida pela ação do tempo. O sol invadia pela janela o quarto de um hotel perdido no centro velho da cidade, e a trajetória de seu raio sofria um ligeiro deslocamento ao passar através de uma das abas da janela que se projetava, antiga, para fora, sobre uma cidade cinza, porém viva. Àquela hora, ruidosos, apressados e alegres, rapazes e moças do povo seguiam para o trabalho espiados por uma algaravia de estilos que pendia dos prédios, cujos capitéis e acantos da antiga elite cafeeira, já tomados pela fuligem, deitavam sua sombra sobre aquela massa humana, tão mais viva quanto mais disforme em suas roupas de tecido ordinário, porém com a graça eloqüente que tem a vulgaridade. Àquela hora, Odette acabara de se levantar e olhava com preguiça a macieira à frente de sua janela. Não pensava nada, pálida ainda de sono renitente. Caminharia ela também em direção à janela, olharia o quintal, estenderia mais adiante a vista, olhando os primeiros passantes do dia e diria com a força de uma sentença que nele sempre tinha o poder de um evento milagroso: “Acordei”. Passou ainda uma vez as mãos sobre o volume de notas escondido sob a cueca de elástico esbaguelado, fechou a porta e seguiu para o aeroporto. Odette tomava café”.

À moda Julio Cortázar: “Um cronópio não carrega dinheiro na cueca porque está mais para supervida do que para intervida, como um fama, que então enche os fundilhos com bolinhos de dinheiro e sai por aí dobrando esquinas e chamando para si a perícia da polícia e depois se queda quietinho, apagando a memória do celular”.

À moda Roberto Schwarz: “O dólar na cueca expõe uma das muitas faces da crise do capital, que tanto mais se expõe quanto mais aniquila as dimensões de uma visibilidade que, à medida que se impõe, explora os caminhos de sua própria inviabilidade. Seu fator estruturante elimina o espaço da subjetividade, e a cueca passa a encarnar, então, não o dinheiro como base material do valor, mas o fetiche da ilegalidade que hoje marca o capitalismo. O indivíduo-indivíduo se torna um indivíduo-cueca à medida que agasalha, como metáfora e metonímia, a moeda que traduz um ponto de trajetória do domínio do império”.

À moda Emir Sader: “É tudo culpa do Fernando Henrique e do Ariel Sharon”.

À moda Marilena Chauí: “A cueca de Espinosa Merleau-Ponty”.

À moda Renato Janine Ribeiro: “Uma cueca cheia de dólares é sempre mais que uma cueca cheia de dólares. Uma cueca cheia de dólares apela às culpas que cada um de nós carrega dentro de si e quer ver espiadas por meio da ação de um partido ético, que só pode ser o PT, embora eu não seja filiado ao partido. Reparem que duas crises se cruzam neste evento como emblemas: ao mesmo tempo em que o símbolo do império escancara o seu poder de chantagem, sabemos que o dinheiro foi flagrado na cueca, expressão de uma intimidade masculina que vem à luz, como se o homem contemporâneo buscasse ser outra coisa e desse um grito de socorro, mais feminino, mais humano, mais aberto, mais gentil”.

Agosto de 2005

14/11/2007

[ odeio médicos ]

ou

[ lidando com pessoas inteligentes ]

ou

[ por que a CPMF não vai pra saúde ]

Talvez o título deste post seja agressivo demais. Mas é o que sinto quando entro num hospital público e preciso lidar com médicos, principalmente com recém formados. Normalmente, são profissionais completamente despreparados para lidar com pessoas. Lidar com pessoas é uma arte que não se aprende na faculdade. Alguns podem dizer que é um dom lidar bem com pessoas. Eu acho que lidar bem com pessoas é algo que se desenvolve com o tempo. Se um professor não aprende isso rapidamente, corre um sério risco profissional. O médico, não. O médico que trabalha no SUS, especialmente o médico-residente, acha que todos os seus pacientes, e os familiares destes, são pessoas ingênuas. Tenho certeza de que alguns acham que são pessoas burras, mesmo.

Minha mãe tem uma doença degenerativa há alguns anos. Quando a doença se manifestou, nos obrigaram a conseguir receitas do SUS para que ela pudesse receber remédios caríssimos que são comprados e forncecidos à população pela Farmácia de Medicamentos Especiais do governo do estado. Sem essas receitas, ou ela não receberia os remédios ou teríamos de gastar 3 mil reais por semana. Ali começou o inferno. (É claro que o SUS é um inferno pra qualquer pessoa, mas acho que a situação se agrava quando alguém que tem condições de pagar um plano de saúde precisa recorrer ao SUS.) Tivemos (eu e o restante de minha família) de começar a lidar com gente ignorante, despreparada, descontente, mal resolvida sexualmente… Pessoas que estranham quando recebem um bom dia, boa tarde, boa noite.

Retirar os remédios na Farmácia do Estado não era o pior, apesar de levar horas toda vez que isso era necessário. Atualmente, ela não precisa mais desses remédios (o que é bom, por um lado). O pior sempre foi e continua sendo lidar com médicos de hospitais públicos. 99,9% dos pacientes do SUS são pessoas que não têm condições de pagar um plano de saúde (fonte: Marcelo Frizon) . São pessoas com pouca instrução, sem nenhuma formação intelectual. Mas eles esquecem, ou talvez não saibam, que existe o (maldito) 0,1% dos usuários do SUS que aprendeu mais do que ler e escrever o próprio nome (problema, aliás, que também atinge alguns médicos altamente graduados e experientes, que normalmente não trabalham mais no SUS).

Lembro-me de algumas consultas da minha mãe em que o médico ficava impressionado quando eu entrava no consultório lendo um livro e empurrando a cadeira de rodas. Para mim, as habituais três horas que eu precisava esperar para que ela fosse atendida não eram um problema. Eu ficava lendo, tranqüilo. Para minha mãe, claro, era um martírio esse tempo…

O médico do SUS nivela todas as pessoas por baixo. Quando aparece alguém diferente, ele fica impressionado. E eu fico indignado com isso porque eu já estudei muito mais do que a maioria desses médicos e também lido com pessoas, pessoas com instrução variada, de diferentes raças, experiências, classes sociais, opções sexuais… E procuro respeitar a todos da mesma forma. Acho que consigo. Houve uma época em que eu era extremamente arrogante. Acho que minha prepotência está sob controle. Mas não com relação a médicos do SUS…

Na última vez em que minha mãe esteve internada, ela teve de esperar três dias numa emergência lotada, em que não havia espaço para uma mosca circular. No segundo dia, fui até a enfermeira-chefe perguntar como ela estava, e ela disse que eu devia falar com o médico, que só passava por lá às 10h da manhã. “Nesse horário, eu trabalho. Não tenho como falar com ele”. E ela: “então não posso lhe ajudar”. “Quer dizer que se ela estiver morrendo, você não sabe me informar e, muito menos, cuidará para nada de grave aconteça?” É possível que uma pessoa com pouca instrução não tivesse capacidade para questionar algo assim. Ou talvez lhe faltasse coragem. O fato é que o enfrentamento deu resultado, ainda que mínimo. Ela resolveu pegar a planilha com as informações dos pacientes e me passou as anotações sobre o quadro clínico da minha mãe. Precisava de enfrentamento?

Depois que ela saiu da emergência e foi para um quarto, aí sim, tive de lidar com médicos-residentes. Especificamente, duas médicas. A primeira perguntou o que eu e meu irmão fazíamos. Estranhou que éramos inteligentes, bem-sucedidos, que sabíamos nos expressas e que não éramos evangélicos. Depois disso, nos alertou que a situação da minha mãe era grave e que nós deveríamos nos preparar. Ela deve ter contato tudo isso pra segunda quando lhe passou o caso. Esta soube lidar melhor com a situação, embora tenha feito umas bobagens, a meu ver.

Talvez seja porque eu sei lidar com pessoas, mas eu não questionaria um médico. Ele entende de saúde, eu entendo de literatura. Se ele me diz que minha mãe vai morrer, eu acredito. Ou melhor, acreditava. É claro que todo mundo vai morrer, essa é a nossa única certeza, mas comecei a ter mais receio de médicos, muito especialmente os do SUS. Às vezes acho que entendo mais de saúde do que eles. E passei a sempre perder a compostura quando eles ficam impressionados porque leio livros.

Mas o que me deixa mais triste nisso tudo é que se a CPMF fosse utilizada para aquilo a que foi idealizada os médicos do SUS teriam de lidar, assim como eu, com todo tipo de pessoa, e teriam de respeitar todas as pessoas da mesma forma. 40 bilhões de reais por ano poderiam revolucionar a saúde brasileira. Ninguém mais precisaria de plano de saúde.

A CMPF existe há cerca de dez anos. Nesse tempo, quantos novos hospitais foram inaugurados? Quanto dinheiro foi gasto com isso? Quanto se gastou para remunerar corretamente os profissionais da saúde? Quanto se gastou para se especializar os médicos, cientificamente e psicologicamente? Quanto se gastou para salvar vidas?

A CPMF não é um imposto destinado à saúde porque logicamente há interesses políticos por trás disso. Planos de saúde, hospitais privados e médicos particulares iriam à falência se esse dinheiro todo fosse gasto corretamente. Talvez eu esteja sendo utópico demais, para alguns. Mas se isso existe na Suíça, por que não poderia existir no Brasil? Se existe em algum lugar do mundo um país em que não há plano de saúde, minhas idéias não têm nada de utopia quando existe um imposto como a CPMF que arrecada anualmente esse montante.Ok, acho que esse post ficou muito recheado de advérbios terminados em -mente e um pouco piegas. Mas tudo bem.

(É claro que existem os médicos do SUS que não agem dessa forma que descrevi. São poucos, mas existem. Mas, se você é médido e ficou irritado com tudo isso que escrevi, ou você concordou porque conhece colegas que agem dessas forma ou você mesmo age dessa forma. O chapéu lhe serviu… E como ficou bonito!)