Direto do Twitter

26/04/2011

Como fazer disseminação de conhecimento em tempos de internet

Quando criei o Surdina, em 2008, sabia que estava fazendo algo relativamente irregular. Em 2007/2, quando comecei a trabalhar como professor substituto do Instituto de Letras da UFRGS, resolvi colocar na internet, em um blog, boa parte dos textos que eu estava trabalhando com meus alunos. Alguns eram ensaios retirados de livros, outros de jornais. Devo ter colocado também alguns textos literários que faziam parte do conteúdo das disciplinas. No início de 2008/1, organizei o material, registrei um domínio, contratei um servidor e coloquei o Surdina no ar. Fiz isso porque queria evitar ao máximo a circulação de cópias xerocadas dos materiais. A meu ver, o estudante que poupa seu dinheiro não fazendo cópias reprográficas fica com dinheiro sobrando pra comprar os livros que julga mais importantes.

Eu tinha sido contratado para ministrar cadeiras variadas de Literatura Brasileira. Eu sabia que nem todos meus alunos tinham interesse em aprofundar seus estudos em Literatura Brasileira. Alguns estavam lá por causa da Linguística, outros por causa de alguma Língua Estrangeira, ou simplesmente queriam estudar Língua Portuguesa. Então, eu não via por que os alunos deveriam tirar xerox de materiais que iriam pro lixo no fim do semestre. Com muita frequência, eu indicava algum ensaio retirado de algum livro de Antonio Candido, por exemplo. Os ensaios de Candido são muito lidos nos cursos de Letras (embora eu sinta que ele tem mais leitores na UFRGS que na USP ou em outras universidades, mas isso é uma outra conversa), mas cada livro seu de ensaios reúne textos variadíssimos. Em Vários Escritos, por exemplo, Candido tem textos sobre Basílio da Gama, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Ora, segundo o currículo do curso de Letras da UFRGS, cada um desses autores é trabalhado em semestres diferentes. O primeiro aparece em Literatura Brasileira A; o segundo, em Brasileira B; e o terceiro, em Brasileira C. Para o aluno que se interessa por Literatura, o melhor é comprar logo esse livro, porque ele vai utilizá-lo muito ao longo do curso. E, se o estudante seguir fazendo mestrado e doutorado, será um livro de referência.

Mas se o foco não é Literatura, não faz muito sentido comprar esse livro. Livros são caros no Brasil, e estudantes normalmente não têm muito dinheiro para comprá-los. Por isso, professores e estudantes recorrem ao xerox. Eu só não precisei tirar cópias de nenhum texto em apenas uma cadeira de minha graduação inteira (no caso, era uma disciplina da Faculdade de Educação, e o professor gravou todos os textos num disquete que havíamos emprestado a ele — velhos tempos!). Quase todos meus professores solicitavam a leitura de textos e livros semanalmente. As bibliotecas das universidades federais, infelizmente, não conseguem sustentar as necessidades de seus estudantes. Todo ano, entram mais de 200 alunos no curso de Letras da UFRGS, mas a biblioteca não tem 200 exemplares da Formação da Literatura Brasileira, livro também de Antonio Candido que é lido na primeira cadeira de Literatura Brasileira, no primeiro semestre, embora nem todos professores solicitem a leitura do livro inteiro. Se a biblioteca tiver 50 exemplares, é muito (50? Se tiver 30, já é muito). Ou seja: como não tinha dinheiro pra comprar tudo (e, mesmo que tivesse, muitos livros estavam esgotados — e naquela época não existia a Estante Virtual), ou eu fazia cópias de boa parte dos textos solicitados, ou seria obrigado a ir às aulas sem ter lido os textos, prática que sempre abominei, mesmo não gostando da matéria.

Talvez fosse interessante que as editoras brasileiras organizassem seu catálogo de forma a vender, em formato e-book, textos individuais, além do livro inteiro, claro. Isso já acontece com a música (acho que todo mundo sabe que é possível comprar canções individuais, embora saia mais barato comprar o álbum inteiro). O problema é que o e-book ainda é caro no Brasil. Recentemente, uma editora lançou boa parte de seu catálogo nesse formato, mas quase todos os livros têm apenas R$ 1,00 de diferença para o livro impresso. A meu ver, algo está errado nisso.

De qualquer forma, depois que criei o Surdina, vários colegas professores começaram a indicar o site. Alguns me enviaram textos seus, além de textos de outros autores, para que eu linkasse o material. Quando algum texto não estava no Surdina, vários alunos perguntavam quando eu o linkaria. E, muitas vezes, indiquei links de textos e materiais esgotados, muito difíceis de serem encontrados. Confesso que perdi um pouco a paciência que eu tinha para atualizar o site. Já não tenho mais o mesmo tempo e nem o mesmo prazer em atualizá-lo, porque é muito raro alguém entrar em contato pedindo um texto, enviando um texto relevante ou simplesmente agradecendo a indicação do conteúdo.

Mas estou escrevendo isso tudo porque uma editora entrou em contato com o WordPress para retirar um blog que estava ali hospedado. O blog em questão, Letras USP Download, indicava links para download de textos lidos no curso de Letras da USP e de outras universidades. Era um blog muito organizado e que estava prestando um serviço fundamental para a disseminação do conhecimento. Mesmo assim, compreendo que as editoras não olhem com bons olhos esse tipo de serviço. Mas, antes de combaterem um blog, deveriam combater a prática das cópias reprográficas. Como? Certamente, não adianta fazer denúncias à Polícia Federal para que professores e centros de reprografia não aceitem reproduzir conteúdo protegido pela Lei dos Direitos Autorais. Isso suspende o problema apenas temporariamente. A Polícia Federal não vai colocar um agente diariamente em cada centro de reprografia de cada curso superior Brasil afora. Para combater esse tipo de problema, é necessário mudar a estratégia de distribuição e venda de conteúdo. A música já mudou. Resta saber quando o acesso ao conhecimento vai mudar também.

Quem tem interesse no assunto, pode seguir o Letras USP Download através do twitter @livrosdehumanas (e o jornalista @eduardosterzi também comprou a briga no apoio ao Letras USP Download). Duvido que a editora que derrubou o blog no WordPress consiga derrubar o twitter. No final das contas, o conhecimento continuará circulando, como deve ser.

PS: nunca ganhei nada com o Surdina. Só gastei. Os anúncios que estão na página são de empresas de amigos e da Livraria Cultura (mas pouca gente comprou livros linkados pelo Surdina e essas compras ainda não somaram o valor necessário pra retirada). Ninguém nunca quis anunciar oficialmente no Surdina. Mais um motivo de desânimo…

PS2: o Surdina não armazena os arquivos que estão linkados nas bibliotecas virtuais. Os textos e materiais estão apenas linkados ali. O Surdina não se responsabiliza pelo conteúdo dos arquivos. Se algum autor ficar incomodado, pode denunciar o link pro 4shared, que é o provedor onde estão armazenados os arquivos.

08/12/2010

Um escândalo chamado Tiririca? Não, um escândalo chamado Brasil

O programa Fantástico do último domingo apresentou uma reportagem sobre o desempenho num teste de leitura e escrita do deputado federal mais votado do Brasil de todos os tempos, o comediante Francisco Everardo, conhecido como Tiririca.

Segundo a reportagem, Tiririca foi submetido a um ditado de um trecho de um livro jurídico. O comediante errou oito das dez principais palavras do texto, entre elas “promulgação”, “código”, “eleitoral”, “fevereiro”, “trazendo”, “grandes”, “novidades”, “criação”, “justiça” e “eleitoral”. Além disso, ele não conseguiu escrever os números de “mil novecentos e trinta e dois”. O juiz precisou ditar número por número para que Tiririca conseguisse escrevê-los. A escrita da frase demorou oito minutos.

Na leitura, ele demorou três minutos para ler o título de uma reportagem e as duas linhas apresentadas. Além disso, cometeu vários erros de plural, eliminando vários “s” dos finais de algumas palavras, como “lojas”, “produtos”, “vencidos”, “supermercados” e “multas”.

O resultado final: Tiririca sabe ler e escrever. Foi o juiz quem disse. Tiririca poderá tomar posse. Quer dizer, isso se o promotor Maurício Lopes não obter resultado favorável ao recurso que apresentou segunda-feira no TRE de São Paulo contra a absolvição de Tiririca.

Não acho escandaloso que Tiririca tenha sido eleito com essa quantidade impressionante de votos. Nunca o considerei um bom comediante, seus trabalhos na TV nunca detiveram minha atenção por mais de cinco segundos. Não acho que suas limitações intelectuais sejam um problema tão grande para o exercício de um cargo como o de deputado federal (até porque os deputados, no fundo, lêem e escrevem muito pouco — quem faz o serviço pesado mesmo são os assessores parlamentares). Por isso, não tenho nada contra o direito de uma pessoa como ele se candidatar a um cargo público e, muito menos, contra o direito de todos os brasileiros de votar numa pessoa como ele.

Esse é um debate sem fundamento porque não se ataca o verdadeiro problema, que é um problema nacional, o da qualidade do ensino. Segundo dados do IBGE divulgados pela primeira vez em 2003 e que foram sendo atualizados desde então (embora os índices não tenham se alterado significativamente), cerca de 10% da população brasileira é analfabeta total. Os alfabetizados de nível 1 respondem por 30%, enquanto os alfabetizados de nível 2 representam 35% da população. Os primeiros conseguem ler uma manchete na capa de um jornal ou de uma revista. São pessoas que têm dificuldade para ler um parágrafo, são pessoas que identificam pelo número o ônibus que precisam pegar, porque têm dificuldade para ler o nome da linha. Pior: são pessoas que acabam se perdendo ao tentar localizar uma rua. Se tiverem um endereço anotado num papel e, ao chegarem à rua e lerem seu nome numa placa, constatarem que as palavras estão escritas de maneira muito diferente do que está no papel, vão achar que estão no endereço errado. Já os alfabetizados de nível 2 conseguem ler um ou dois parágrafos de um texto e extrair dele as principais informações. Os alfabetizados de nível 3 representam os 25% restantes da população brasileira e são as pessoas que demonstram plena capacidade para ler um texto longo.

Como as capacidades de leitura e compreensão diferem muito de pessoa para pessoa, começou a circular a expressão “analfabetismo funcional”. Os analfabetos funcionais são os alfabetizados de nível 1 e 2, ou seja, são pessoas que tiveram acesso à educação formal, foram alfabetizadas, mas não deram continuidade aos estudos ou não persistiram utilizando esses conhecimentos e apresentam dificuldades para ler e escrever. Tiririca é, claramente, um analfabeto funcional. E pode ter certeza de que eles estão muito perto de você, caro leitor. Uma das minhas convicções é esta: existem analfabetos funcionais com diploma de curso superior. Já trabalhei com pessoas assim.

E isso existe porque é do interesse das elites e do governo que assim seja. No post anterior, citei o Darcy Ribeiro, que escreveu em seu fabuloso texto “Sobre o óbvio” que está enganado quem acredita que o projeto para educação no Brasil não deu certo. Deu certo, sim, porque a intenção era justamente deixar o povo chucro.

No final do século XIX foram realizados dois censos que revelaram a triste realidade brasileira: pouco mais de 15% da população era alfabetizada. Na Argentina, na mesma época, metade da população sabia ler e escrever. Ok, alguém aí pode argumentar que isso é natural, afinal a Argentina teve mais de um gramático como presidente. No entanto, educação deveria ser uma prioridade de qualquer governante em qualquer país. Infelizmente, vivemos no Brasil, uma nação que não está realmente preocupada com o assunto, porque se estivesse não teríamos índices de leitura, escrita e raciocínio lógico tão horrorosos, não teríamos uma prova tão mal formulada como o ENEM (e não estou falando dos problemas que envolveram a aplicação da prova, estou falando da prova em si), não teríamos um ministro da educação como o que temos, responsável por criar essa prova esdrúxula totalmente desvinculada da realidade do que é ensinado nas escolas. Isso tudo é que é realmente escandaloso, não a eleição do Tiririca. Ou seja, não precisamos de pessoas com comprovada capacidade intelectual para comandar o país. Lula é a prova disso, afinal nosso presidente fez um dos melhores governos da história, por mais difícil que seja admitir isso para alguns. Precisamos de pessoas que queiram fazer a mudança. Se o Tiririca contribuir para isso, sua eleição terá valido a pena. E, vamos combinar, já estava na hora dos analfabetos funcionais, 65% da população brasileira, terem um representante no congresso nacional.

10/11/2010

Monteiro Lobato ou da necessidade literária

Uma notícia lamentável tem provocado as reações mais diversas desde que foi veiculada, há cerca de uma semana. Um livro de Monteiro Lobato está sendo banido de uma lista preparada pelo MEC para distribuição em escolas públicas de todo país. O caso se deve a possíveis conotações racistas em trechos do livro Caçadas de Pedrinho. O fato é que o racismo na obra de Monteiro Lobato realmente é um tema complicado que está presente tanto na sua literatura infantil/infanto-juvenil, como é o caso desse livro, quanto na sua produção adulta, como é o caso de O Presidente Negro.

O maior problema que vejo nessa discussão toda não está sendo abordado por ninguém, mas antes de apontá-lo é importante explicar como funciona essa seleção de livros.

Todos os anos, uma comissão de professores de literatura e de membros do MEC seleciona uma lista de livros. Cada editora pode enviar um determinado número de livros a serem submetidos a essa seleção. Não lembro exatamente o número, mas é algo em torno de 10 a 20 livros por editora. Algumas delas, especialmente as que possuem muitos livros em seu catálogo, chegam a criar selos alternativos para poderem enviar mais livros. A Companhia das Letras, por exemplo, tem o seu Claro Enigma. Nenhum problema nisso, até porque o catálogo da Companhia (pra continuar no exemplo citado) é excelente e possui muitos livros que não só podem como deveriam ser adotados em escolas por todo país. Mas o que acaba acontecendo é uma verdadeira guerra entre as editoras. Tentem imaginar o número de exemplares de cada livro comprados pelo MEC. Esse tipo de seleção pode salvar uma editora da falência e, no mínimo, injetar um dinheiro substancial na conta de autores e editores. E pro MEC a negociação também é boa, porque comprando algumas dezenas de milhares de exemplares de cada livro é possível baratear muito o preço de capa.

Então: o MEC recebe a lista de livros de cada editora, os livros são submetidos à avaliação da comissão, os pareceristas (em geral, professores universitários de literatura) fazem a sua avaliação, discutem a lista em grupo até chegar a um resultado final, que normalmente tem 50 livros selecionados (pelo menos esse era o número quando um amigo professor participou como parecerista numa seleção dessas). Aí o MEC faz a encomenda dos livros e os distribui para as escolas. No meio do caminho, o MEC pode ir lá e dizer que um dos livros não pode ser adotado ou porque tem conotação racista, ou porque tem cenas de sexo explícito, ou porque tem cenas de muita violência, ou porque tem linguagem chula recheada de palavrões, ou porque os personagens fumam, ou porque passarinhos são assassinados com estilingue, ou porque os personagens faltam às aulas escolares, ou ainda por causa de outros motivos quaisquer que não me vem à mente agora, mas que certamente não servem de bom exemplo. Só que Monteiro Lobato viveu numa época em que essas coisas eram normais. Ninguém considerava um problema fumar, caçar passarinho ou matar aula.

Mas o que pensam várias editoras neste momento em que recebem o parecer negativo com relação ao livro? Certamente, algo como “precisamos nos adequar ao que o MEC deseja, senão corremos o risco de ficarmos sem essa verba”. E para as editoras se adequarem ao que o MEC deseja, o que precisa ser feito? Algo como “precisamos solicitar ao autor do livro que altere essa passagem para algo menos explícito”. Resultado: os livros deixam de ser escritos por uma vontade de colocar no papel um sentimento ou por uma necessidade de contar uma boa história. Os autores passam a escrever para agradar as editoras, que querem agradar ao MEC. Não é difícil imaginar o prejuízo que a literatura brasileira sofre graças a esse jogo maléfico.

No caso de Lobato, não é possível solicitar que a narrativa seja alterada. E fazer uma adaptação do livro seria ridículo, porque adaptações normalmente são feitas para crianças e adolescentes com base em clássicos originalmente voltados para o leitor adulto. Ou seja, fazer uma adaptação para crianças e adolescentes de um livro que tinha como leitor ideal justamente esse público não faria o menor sentido. Claro que existem adaptações para o público infanto-juvenil de livros infanto-juvenis. Lembro, por exemplo, de As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Mas se um professor solicita a seus alunos que leiam a adaptação ao invés do texto integral (ou original traduzido), é sinal de que esse professor não acredita na capacidade de seus alunos. Ou, então, é um professor preguiçoso, porque não quer trabalhar a narrativa mais longa do texto original e prefere um texto mais rápido, com vocabulário mais pobre e com a trama menos elaborada.

Só que esse problema só está tomando conta dos meios de comunicação porque se trata de Monteiro Lobato, o melhor autor de livros infanto-juvenis do Brasil de todos os tempos, o Machado de Assis dos livros voltados para crianças. Se fosse um livro de um autor novo, pouco conhecido, provavelmente ninguém ficaria sabendo. E, provavelmente, a editora desse autor solicitaria a ele uma alteração nos trechos politicamente incorretos de seu livro, e ninguém ficaria sabendo.

Mais uma vez, estamos diante de um problema que vai além da leitura. O verdadeiro problema, para o trabalho de literatura na escola, é como estimular alunos a lerem, ou, simplesmente, como fazer os alunos tornarem-se leitores. No caso do Brasil, ainda temos um longo caminho para chegar a uma situação razoável, próxima do trabalho realizado em escolas de países como Itália, França e Estados Unidos. Há algum tempo, uma amiga que morou na Itália me contou que lá as crianças lêem Édipo Rei aos 10 anos. Quer algo mais politicamente incorreto que oferecer justamente essa história a alunos dessa idade? Claro, politicamente incorreto se pensarmos no Brasil, que é um país preocupado em manter seu povo chucro, como dizia Darcy Ribeiro em seu lúcido ensaio Sobre o Óbvio.

05/10/2009

Por que não investir em outras coisas?

Serão gastos R$ 26 bilhões nas Olimpíadas do Rio de Janeiro (tem gente que fala em R$ 28,8 bilhões, isso sem falar nos R$ 138 milhões que já foram gastos com campanha e no R$ 1 milhão que foi gasto para abrigar o comitê de postulação brasileiro na Dinamarca). É muito dinheiro. Dinheiro que não é investido em saúde, educação, segurança. Quem pagará essa quantia?

Desculpe, presidente Lula, mas enquanto saúde, educação e segurança não receberem investimentos substanciais que façam diferença na vida do cidadão brasileiro, que transformem o Brasil, R$ 26 bilhões pras Olimpíadas não é investimento, é gasto. Gasto desnecessário. Principalmente se lembrarmos que o Brasil não é um país preocupado realmente com o esporte, já que boa parte das maiores estrelas do país não tem patrocínio.

Novamente estamos atropelando o rumo da história. Como diria meu irmão, first things first.

A campanha de trânsito de POA

Essa campanha de trânsito que vem sendo promovida pela prefeitura de Porto Alegre é digna de aplausos. É uma campanha que já devia ter sido executada há muito tempo. É uma campanha semelhante à de Brasília, da época do governo do Cristóvão Buarque, que funcionou bem, embora já não tenha o mesmo poder que tinha.

Agora, em Porto Alegre não sito que vá funcionar tão bem assim. E o motivo é mais complexo do que parece. Não tem nada a ver com a consciência dos motoristas. O problema de Porto Alegre é a localização das faixas de segurança. Normalmente, elas ficam posicionadas nas esquinas da cidade. Ora, um carro que vem trafegando por uma rua e pretende dobrar à direita na rua seguinte não tem capacidade para visualizar com tranquilidade se há um pedestre pretendendo atravessar a rua na esquina. As faixas de segurança deveriam estar posicionadas mais para dentro das quadras, o que daria boa visibilidade para qualquer motorista, evitaria que o pedestre se visse obrigado a apertar o passo e não causaria acidentes com os automóveis que estivessem trafegando atrás do que está na frente vendo o pedestre.

Vamos nos preparar para muitos acidentes e atropelamentos…

29/05/2009

Uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura

Uma discussão que muito me interessa e sobre a qual procuro refletir com meus alunos na UFRGS é a forma como a leitura é trabalhada na escola. Escreveram recentemente sobre o tema Sergio Rodrigues (aqui e aqui), Carlos André Moreira (aqui, aqui e aqui — este último acertando em cheio na questão), o Alexandre Rodrigues (aqui e aqui), e a Gabriela Rassy, que detonou a discussão (aqui), analisando um lançamento sobre o assunto. Todos jornalistas, todos bons e ávidos leitores, os três primeiros com blogs que se dedicam quase exclusivamente a debater livros e literatura.

A preocupação de todos é a minha também: em resumo, como estimular a leitura na escola? No entanto, por ter trabalhado anos em colégios particulares dando aulas de Literatura (e para onde, provavelmente, voltarei em breve), por estar trabalhando num curso superior de Letras em que o assunto é pensado com frequência e, enfim, por ser professor, acredito que tenho uma proposta viável para atingir o êxito no desafio ou, pelo menos, uma visão um pouco diferente.

Em primeiro lugar, não é verdade que para estimular um jovem a se tornar leitor é fundamental que a família seja leitora. Os pais não precisam ler nada. O que precisam fazer é, simplesmente, possibilitar a seus filhos o acesso aos livros, seja levando o jovem a uma biblioteca, seja comprando os livros sugeridos pela escola ou outros do interesse do filho. Se um pai disser pro filho que nunca leu nenhum livro na vida e que nem por isso deixou de se dar bem profissionalmente aí, sim, estará matando um leitor.

Segundo e talvez o mais importante, uma verdade que ninguém percebe: o vestibular não precisa ser o termômetro pro ensino de Literatura na escola. Não estou dizendo que o professor pode solicitar outras leituras além das exigidas pelo vestibular. É claro que ele pode e consegue fazer isso, se quiser. Ao longo de três anos (pensando no Ensino Médio, época em que a Literatura é trabalhada de forma mais sistematizada), é possível incluir na lista de leituras obras que não aparecem no vestibular, como de autores estrangeiros (sempre trabalhei Voltaire, Sófocles, Shakespeare, entre outros) ou de jovens autores (quando trabalhei com meus alunos Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, um deles chegou a dizer que aquele havia sido o melhor livro que um professor tinha solicitado que eles lessem). Autores assim não atrapalham a leitura das obras exigidas pelo vestibular. Pelo contrário, até ajudam, afinal, como entender a irracionalidade de Bentinho ao lembrar de Otelo sem ter lido o clássico de Shakespeare?

Agora, há um elemento na prova de Literatura da maioria dos vestibulares que os professores normalmente não percebem, muito menos os jornalistas, sem querer ofender ninguém aqui. Para constatar isso, basta pegar uma prova da UFRGS (vou usá-la como exemplo porque é com ela que tenho mais intimidade, embora seja fácil perceber que ocorre da mesma forma em outros vestibulares). Pra quem não sabe, o programa da prova de Literatura do vestibular da UFRGS contempla os principais autores da cronologia da História da Literatura Brasileira, além de quatro autores portugueses, e também apresenta uma lista de 12 leituras obrigatórias, leituras que certamente aparecerão na prova e que abrangem, normalmente, 50% das 25 questões da prova. Ou seja, essa lista é um presente para o candidato, já que ele sabe que aquelas leituras serão cobradas, enquanto o resto das questões é um mistério.

Diante disso, alguma questão cobra as características de qualquer autor ou período literário? Não! Ok, às vezes aparecem questões em que o candidato precisa saber apenas o nome de alguns livros de um determinado autor, mas isso é raro e não chega a ser grave. Questões assim servem para eliminar aqueles candidatos que estão disputando os cursos mais concorridos. Alguém pode argumentar que isso exige uma decoreba por parte do candidato. Por um lado, é verdade. Por outro, mesmo sem ter lido Memórias Póstumas de Brás Cubas, é importante que o candidato saiba que se trata de uma obra fundamental de Machado de Assis.

A maioria das questões do vestibular da UFRGS, porém, apresenta um poema ou um excerto de poema, ou um trecho de um conto, novela, romance ou crônica, e exige do candidato que demonstre compreensão do que está ali apresentado nas afirmações que devem ser identificadas como corretas e incorretas nas alternativas apresentadas. Não é necessária a leitura da obra completa para que o candidato consiga responder a questão, porque ela está perguntando o que está descrito naquele trecho, só naquele trecho. É claro que se o candidato leu a obra cobrada na questão, provavelmente terá mais facilidade para respondê-la, mas mesmo questões que envolvem leituras obrigatórias são frequentemente apresentadas do jeito que descrevi no início deste parágrafo e é por isso que escuto muito que às vezes basta ler um resumo da leitura para responder a questão. Na realidade, às vezes nem o resumo é necessário.

O problema do ensino de Literatura é semelhante ao da Língua Portuguesa. Os professores de Língua obrigam seus alunos a compreender funções sintáticas, normalmente a partir da 7ª série do Ensino Fundamental, mas elas não são cobradas na prova de Língua Portuguesa da UFRGS. Por que então exigir do aluno que ele saiba identificar a diferença entre um adjunto nominal e um complemento nominal se isso não aparece no vestibular e se nem os gramáticos conseguem chegar a um consenso sobre o tema?

A Literatura, assim como a gramática da Língua Portuguesa, é ensinada de maneira matemática, como se tivesse lógica. Os alunos decoram a sequência dos períodos literários e suas respectivas características antes de ler a obra dos autores de cada período. Depois, são cobrados a identificar aquelas características nos textos. E, pior, ficam com a impressão de que termina um período e começa outro: como explicar que Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo são períodos coetâneos? Ou, pior ainda, como explicar que Machado de Assis é realista se o seu já citado Memórias Póstumas, que deu início ao Realismo no Brasil, é narrado por um morto? Ora, Machado de Assis não se via como um realista. Chegou, inclusive, a ironizar o Realismo várias vezes em alguns de seus textos críticos…

Então, é incorreta a pergunta “por que exigir leituras importantes que não atraem o interesse dos alunos?” A reflexão que deve ser feita é como trabalhar essas leituras. Elas não precisam ser substituídas. O que deveria ser feito é mais simples do que parece: ler, exclusivamente. O professor de Literatura deveria ser um professor de leituras, um orientador de discussões com base nas leituras por ele propostas. Sem discussão em cima do que é lido, o texto torna-se chato, e o aluno não compreende o que está lendo. A aula de Literatura deveria ser uma aula de leitura em conjunto. Assim, lendo e parando para refletir sobre o que foi lido, discutindo e iluminando o que foi lido, o texto só será visto como chato e incompreensível se o professor for incompetente.

E reitero que o professor deve, sim, indicar as leituras que devem ser cobradas, sim, em avaliação. Mas antes da realização desta, o debate é necessário e fundamental. Sobre esse tópico, discordo do Alexandre Rodrigues, que escreveu em um de seus posts:

“A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes” [os livros por ela sugeridos]. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro. A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.”

Nenhum professor de Literatura pode afirmar para seus alunos adolescentes que é chato o livro que está solicitando que eles leiam! Isso é absurdo! Ok, o professor pode até dizer que tem restrições, que identifica alguns defeitos, que considera outros livros mais importantes ou interessantes, mas dizer que são chatos não condiz com a condição de um professor de Literatura numa escola. E que um professor experimente, hoje, dar essa liberdade da leitura livre a seus alunos: eles só lerão Paulo Coelho, J. K. Rowling, Dan Brown e outras bobagens que aparecem na lista de mais vendidos da Veja (não que eu ache a Rowling uma bobagem, afinal ela está muito distante do Brown e do Paulo Coelho, mas tem coisa melhor). Duvido que um aluno, atualmente, pegasse os livros citados pelo Alexandre de livre e espontânea vontade.

E isso que sua professora fazia não “é o máximo onde a escola pode chegar”. Para realmente estimular a leitura e formar leitores, a escola precisa rever seus programas curriculares e apoiar uma transformação na forma de se trabalhar a leitura. Quanto mais se lê, mais fácil fica interpretar qualquer questão de vestibular, inclusive das provas de exatas. Não se instiga o gosto pela Literatura com base nos períodos literários ou em características dos autores desses períodos. Por isso, ler com o aluno é a tarefa que deveria ser executada por qualquer professor no Ensino Médio. E assim qualquer aluno vai acabar apreciando Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra e O conde de Monte Cristo. E qualquer professor poderá trabalhar obras que, de outra forma, seriam censuradas. Seriam, não: algumas estão sendo, como os poemas do Joca Reiners Terron na coletânea Poesia do Dia, da Ática (como apontou o CA), ou as Aventuras Provisórias, do Cristovão Tezza (ok, talvez isso não seja censura, mas um sinal claro de que está errado o ensino de Literatura praticado nas escolas Brasil afora).

Se o aluno quiser estudar mais Literatura, ele vai acabar cursando Letras e aí, sim, vai estudar a cronologia, a História da Literatura, a teoria e a crítica literárias. Mas qual deveria ser o objetivo da escola: formar leitores ou especialistas em História da Literatura? Demonstrar por que Machado de Assis é tão bom ou fazer os alunos decorarem que não fica claro que Capitu traiu Bentinho?

Ok?! Ok.

16/01/2009

Ano novo, língua nova

Muita gente anda preocupada com a reforma ortográfica. Sinceramente, eu não estou nem aí. Quer dizer, sei que isso vai mudar muita coisa, mas não acho que seja motivo pra tanto alarde. Em princípio, sou contra a reforma, por motivos variados, mas acho que vamos precisar de alguns anos pra ter certeza de que ela é boa ou ruim.

Uma das coisas mais inteligentes que li até agora foi o que escreveu a Carol Bensimon em seu blog Kevin Arnold para dois. Nós, estudiosos da língua ou membros de uma elite que domina o padrão culto, não podemos reclamar da reforma só porque vamos ter de controlar o que está sendo alterado. Diz a Carol: “o sujeito simplesmente diz que se negará a deixar de lado a velha ortografia para adotar a nova. O que enxergo aí é bem claro: quem domina o código linguístico não quer ver o seu poder enfraquecido frente a mudanças que ele ainda não domina. Além disso, a maioria não quer se esforçar nem um pouco para manter a posição que conquistou.” Bingo! É por isso que essa elite tem razão ao reclamar que a língua não pode ser alterada através de leis. Pode parecer papo de lingüista, mas não é, e, acredito, nem preciso explicar por quê. (Sei que agora devemos escrever “linguista”, porque o trema deixa de existir na nova ortografia, mas ainda não a adotei, porque podemos utilizar a velha ortografia por mais um tempo. Ou seja, ainda não é crime não usar a nova — afinal, a língua é regida por uma lei.)

Pra finalizar: na última segunda-feira, participei, junto com o jornalista Julio Ribeiro,  do programa Coffee Break, da rádio Band News RS, comandado pelo Guilherme Baumhardt. Uma das coisas que comentei era que a reforma vai gerar uma transformação no mercado editorial, e que vai se acabar gastando grandes quantias que poderiam ser utilizadas de outra forma. A meu ver, mesmo com o governo investindo mais do que nunca em educação, antes de reformar é preciso construir. E a construção continua capenga…