Direto do Twitter

26/04/2011

Como fazer disseminação de conhecimento em tempos de internet

Quando criei o Surdina, em 2008, sabia que estava fazendo algo relativamente irregular. Em 2007/2, quando comecei a trabalhar como professor substituto do Instituto de Letras da UFRGS, resolvi colocar na internet, em um blog, boa parte dos textos que eu estava trabalhando com meus alunos. Alguns eram ensaios retirados de livros, outros de jornais. Devo ter colocado também alguns textos literários que faziam parte do conteúdo das disciplinas. No início de 2008/1, organizei o material, registrei um domínio, contratei um servidor e coloquei o Surdina no ar. Fiz isso porque queria evitar ao máximo a circulação de cópias xerocadas dos materiais. A meu ver, o estudante que poupa seu dinheiro não fazendo cópias reprográficas fica com dinheiro sobrando pra comprar os livros que julga mais importantes.

Eu tinha sido contratado para ministrar cadeiras variadas de Literatura Brasileira. Eu sabia que nem todos meus alunos tinham interesse em aprofundar seus estudos em Literatura Brasileira. Alguns estavam lá por causa da Linguística, outros por causa de alguma Língua Estrangeira, ou simplesmente queriam estudar Língua Portuguesa. Então, eu não via por que os alunos deveriam tirar xerox de materiais que iriam pro lixo no fim do semestre. Com muita frequência, eu indicava algum ensaio retirado de algum livro de Antonio Candido, por exemplo. Os ensaios de Candido são muito lidos nos cursos de Letras (embora eu sinta que ele tem mais leitores na UFRGS que na USP ou em outras universidades, mas isso é uma outra conversa), mas cada livro seu de ensaios reúne textos variadíssimos. Em Vários Escritos, por exemplo, Candido tem textos sobre Basílio da Gama, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Ora, segundo o currículo do curso de Letras da UFRGS, cada um desses autores é trabalhado em semestres diferentes. O primeiro aparece em Literatura Brasileira A; o segundo, em Brasileira B; e o terceiro, em Brasileira C. Para o aluno que se interessa por Literatura, o melhor é comprar logo esse livro, porque ele vai utilizá-lo muito ao longo do curso. E, se o estudante seguir fazendo mestrado e doutorado, será um livro de referência.

Mas se o foco não é Literatura, não faz muito sentido comprar esse livro. Livros são caros no Brasil, e estudantes normalmente não têm muito dinheiro para comprá-los. Por isso, professores e estudantes recorrem ao xerox. Eu só não precisei tirar cópias de nenhum texto em apenas uma cadeira de minha graduação inteira (no caso, era uma disciplina da Faculdade de Educação, e o professor gravou todos os textos num disquete que havíamos emprestado a ele — velhos tempos!). Quase todos meus professores solicitavam a leitura de textos e livros semanalmente. As bibliotecas das universidades federais, infelizmente, não conseguem sustentar as necessidades de seus estudantes. Todo ano, entram mais de 200 alunos no curso de Letras da UFRGS, mas a biblioteca não tem 200 exemplares da Formação da Literatura Brasileira, livro também de Antonio Candido que é lido na primeira cadeira de Literatura Brasileira, no primeiro semestre, embora nem todos professores solicitem a leitura do livro inteiro. Se a biblioteca tiver 50 exemplares, é muito (50? Se tiver 30, já é muito). Ou seja: como não tinha dinheiro pra comprar tudo (e, mesmo que tivesse, muitos livros estavam esgotados — e naquela época não existia a Estante Virtual), ou eu fazia cópias de boa parte dos textos solicitados, ou seria obrigado a ir às aulas sem ter lido os textos, prática que sempre abominei, mesmo não gostando da matéria.

Talvez fosse interessante que as editoras brasileiras organizassem seu catálogo de forma a vender, em formato e-book, textos individuais, além do livro inteiro, claro. Isso já acontece com a música (acho que todo mundo sabe que é possível comprar canções individuais, embora saia mais barato comprar o álbum inteiro). O problema é que o e-book ainda é caro no Brasil. Recentemente, uma editora lançou boa parte de seu catálogo nesse formato, mas quase todos os livros têm apenas R$ 1,00 de diferença para o livro impresso. A meu ver, algo está errado nisso.

De qualquer forma, depois que criei o Surdina, vários colegas professores começaram a indicar o site. Alguns me enviaram textos seus, além de textos de outros autores, para que eu linkasse o material. Quando algum texto não estava no Surdina, vários alunos perguntavam quando eu o linkaria. E, muitas vezes, indiquei links de textos e materiais esgotados, muito difíceis de serem encontrados. Confesso que perdi um pouco a paciência que eu tinha para atualizar o site. Já não tenho mais o mesmo tempo e nem o mesmo prazer em atualizá-lo, porque é muito raro alguém entrar em contato pedindo um texto, enviando um texto relevante ou simplesmente agradecendo a indicação do conteúdo.

Mas estou escrevendo isso tudo porque uma editora entrou em contato com o WordPress para retirar um blog que estava ali hospedado. O blog em questão, Letras USP Download, indicava links para download de textos lidos no curso de Letras da USP e de outras universidades. Era um blog muito organizado e que estava prestando um serviço fundamental para a disseminação do conhecimento. Mesmo assim, compreendo que as editoras não olhem com bons olhos esse tipo de serviço. Mas, antes de combaterem um blog, deveriam combater a prática das cópias reprográficas. Como? Certamente, não adianta fazer denúncias à Polícia Federal para que professores e centros de reprografia não aceitem reproduzir conteúdo protegido pela Lei dos Direitos Autorais. Isso suspende o problema apenas temporariamente. A Polícia Federal não vai colocar um agente diariamente em cada centro de reprografia de cada curso superior Brasil afora. Para combater esse tipo de problema, é necessário mudar a estratégia de distribuição e venda de conteúdo. A música já mudou. Resta saber quando o acesso ao conhecimento vai mudar também.

Quem tem interesse no assunto, pode seguir o Letras USP Download através do twitter @livrosdehumanas (e o jornalista @eduardosterzi também comprou a briga no apoio ao Letras USP Download). Duvido que a editora que derrubou o blog no WordPress consiga derrubar o twitter. No final das contas, o conhecimento continuará circulando, como deve ser.

PS: nunca ganhei nada com o Surdina. Só gastei. Os anúncios que estão na página são de empresas de amigos e da Livraria Cultura (mas pouca gente comprou livros linkados pelo Surdina e essas compras ainda não somaram o valor necessário pra retirada). Ninguém nunca quis anunciar oficialmente no Surdina. Mais um motivo de desânimo…

PS2: o Surdina não armazena os arquivos que estão linkados nas bibliotecas virtuais. Os textos e materiais estão apenas linkados ali. O Surdina não se responsabiliza pelo conteúdo dos arquivos. Se algum autor ficar incomodado, pode denunciar o link pro 4shared, que é o provedor onde estão armazenados os arquivos.

04/07/2010

Cachalote e minhas ânsias

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, é, desde já, um dos melhores lançamentos literários do ano. Digo que se trata de literatura, porque esse é o tratamento dado por Galera e desenhado por Coutinho. Sim, trata-se de uma graphic novel, caso você ainda não saiba.

São cinco (ou seis?) histórias que não se cruzam, mas se completam quase como se dependessem umas das outras. É difícil dizer exatamente qual é o tema principal do livro. Solidão, talvez. Separação também… Alguns podem dizer depressão… O certo é que, independente do assunto, não há como não se encantar com cada trama. O desenho de Coutinho transforma o roteiro de Galera em uma experiência sensorial impactante: terminei a leitura em poucas horas e não parei de pensar na vida, nas coisas que estou fazendo, no que quero pra mim. Um livro que faz você pensar assim é, sem exagero, um grande livro.

Sou fã do Galera desde o início do Cardosonline. A primeira vez que ouvi falar dele foi na aula do professor Paulo Seben, na UFRGS. Na época, o Seben era substituto de Leitura e Produção Textual (hoje, ele é adjunto de Literatura Brasileira). Ele ministrava a mesma cadeira na Fabico e na Letras. Naquela, era professor do Galera e de outros futuros integrantes do COL. Nesta, era meu professor e de mais um grupo de alunos que hoje está dando aula em colégios, cursinhos e faculdades. E ele costumava levar os melhores textos de uma turma para a outra ouvir. E o conto “Triângulo”, que seria publicado no primeiro livro do Galera, Dentes Guardados, foi lido pelo Seben na minha turma. Não sei se foi por causa da leitura tendenciosa do Seben, que já sabia a entonação que queria dar em cada frase, mas o fato é que foi encantamento à primeira audição (seria melhor se tivesse sido leitura, mas o Seben não nos distribuiu cópias do texto).

Desde então, sempre prestei muita atenção na produção do Galera. Acompanhei o lançamento da Livros do Mal, editora criada por ele, pelo Mojo e pelo pelo Guilherme Pilla, e guardo como relíquia os dois primeiros livros da editora (porque se tornaram relíquia, realmente). Fiquei muito contente quando ele publicou Mãos de Cavalo, seu primeiro livro pela Companhia das Letras, que reeditou Até o dia em que o cão morreu, lançado antes pela Livros do Mal. E a Companhia também publicou Cordilheira, único texto do Galera de que não gostei muito (embora tenha passagens muito boas, a trama não me agradou; isso acontece com uma certa frequência quando leio livros feitos sob encomenda, como é o caso deste, que foi o primeiro da coleção Amores Expressos, da Cia.).

Além de acompanhar as publicações, leio matérias e entrevistas sobre o Galera e adotei o Mãos de Cavalo no ano de seu lançamento com os meus alunos de 1º ano da época. Quando dei aula na UFRGS, pedi aos alunos que lessem alguns contos de Dentes Guardados. Agora que voltei a dar aula em colégio, meus alunos de 1º e 2º anos vão ler o Mãos de Cavalo. Parece obsessão, mas não é.

No prefácio para a nova edição de Caminhos Cruzados, de Erico Verissimo, Antonio Candido escreveu que, na década de 30, uma das maiores ansiedades dele e de seus amigos era aguardar os lançamentos de Erico, Graciliano Ramos, Jorge Amado e de outros escritores que estavam publicando seus primeiros livros naquele instante. Não estou comparando Galera ao Erico, e muito menos me comparando a Antonio Candido, mas a sensação que tenho é a mesma. Sinto ansiedade para ler os novos livros de Galera, Mojo, Tatiana Salem Levy, Marcelino Freire, Antonio Xerxenesky, Michel Laub, Carol Bensimon e de vários outros autores vivos. Ansiedade de ler o que ainda nem escreveram. Pode? Acho que sim.

Eu gostaria de ler até mais do que já li dessa geração, mas o trabalho e os estudos impõem algumas leituras mais clássicas que desviam minha atenção. Mesmo assim, meu projeto de doutorado é uma revisão do que foi, do que significou e das consequências do Modernismo no Brasil, ou seja, algo pouco explorado nos estudos acadêmicos. Num exemplo mais concreto: eu amo Machado de Assis, mas não teria paciência pra escrever sobre ele, porque já tem tanta coisa escrita que precisa ser lida antes de se encontrar uma ideia nova sobre Machado… Muita gente escreve sobre Machado. E muita gente vai continuar escrevendo sobre ele. De mão levantada, pergunto, então, quem vai escrever sobre os novos? E, principalmente, quem vai ler os novos?

Leia Cachalote.

PS: assim que tiver tempo, escreverei mais sobre Cachalote e sua relação com a literatura do Mojo, que vai citado no livro de Galera e Coutinho. Tenho a sensação de que ninguém percebeu. Pelo menos, não vi ninguém comentar. Será que estou vendo coisas?

22/02/2010

Resposta aberta: mais Nei Lisboa

Caro João,

resolvi escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos lá.

Obrigado pela correção quanto ao Paixão Cortes. Eu confesso que não sou muito ligado na cultura tradicionalista, por isso o equívoco, mas me interesso por essas discussões a respeito da identidade gaúcha. De qualquer forma, já corrigi o erro no post.

Concordo que cada um pode pensar o que quiser e manifestar isso como e onde achar melhor. Realmente, Porto Alegre e o resto do Rio Grande do Sul têm espaços variados pra todo tipo de manifestação cultural, o que é muito bom.

Agora, você escreveu de maneira um pouco dispersa, me parece, então vou ser um pocuo disperso também e pontuar o que me chamou mais atenção:

1) Quando o Nei Lisboa disse que não gosta do Teixeirinha? Onde? Não foi na tal entrevista da ZH. Ou foi? Ele disse: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria.” Ele não disse que não gosta do Teixeirinha. Ele o ouvia quando criança. Só porque ele considera a música tradicionalista ruim estética, ideológica e musicalmente, não significa que ele não aprecia o Teixeirinha ou qualquer outro compositor da corrente. Reproduzi mais algumas frases aí porque trato do assunto abaixo.

2) Um dos problemas do Paixão Cortes e do Barbosa Lessa era a americanização que estava tomando conta do estado e do país. Na época em que eles idealizaram o MTG, a coca-cola estava entrando em larga escala no mercado brasileiro. Em São Paulo e no Rio, o modernismo já era reconhecido como o grande movimento artístico e cultural brasileiro. O próprio Paixão Cortes já contou essa história. Então, a briga é muito mais com a McDonaldização do mundo (expressão que o Luís Augusto Fischer criou e usa correntemente), que, de certa forma, ganhou uma contribuição do modernismo pra que se firmasse pelo país.

3) Sendo assim, está aí mais uma prova de que o MTG foi inventado. Ok, até aí quase nenhum problema, porque a maioria das tradições ao redor do mundo foram inventadas. Mas quando um grupo de tradicionalistas não aceita que alguém lembre que o movimento se transformou em atração turística com objetivos meramente financeiros e especulativos, chegando ao ponto de fazer ameaças de morte (ok, talvez estivesse brincando o cara que escreveu que faria com Nei o mesmo que aconteceu com o irmão dele, mas eu não acho que possamos brincar com a tortura da ditadura militar e seus desaparecidos políticos; isso é piada de mau gosto), a coisa parece que está fugindo do controle. E vamos combinar: a maioria das pessoas que defende as tradições gauchescas não as pratica de verdade. Ou estou errado? Na hora de gritar “Ah, eu sou gaúcho!”, é fácil reunir uma multidão, mas no dia a dia quantos cultivam as tradições? Meu palpite: menos de 10% da população.

4) E por que um número tão baixo? A resposta, a meu ver, explica também por que eu acho que o Nei Lisboa será mais lembrado que o Teixeirinha pelas gerações contemporâneas e vindouras: o mundo urbano ganhou o jogo, é a lógica urbana que rege o mundo; qualquer manifestação regional fica relegada a segundo plano, como coisa menor, mal feita. Não estou dizendo que concordo que deva ser assim nem que acho isso bom. Não é, realmente. (Seria ótimo se o povo gaúcho lesse mais Simões Lopes Neto.) E o Nei é um cantor urbano. O que ele faz é música urbana, mesmo que flerte com o pop, a mpb, o rock e até mesmo com a música tradicionalista (quem não lembra a belíssima “Exaltação”?).

5) Tentando concluir, o que eu acho errado nisso tudo é que querem nos fazer engolir uma tradição inventada, que não nos exprime. E querem fazer isso de maneira tão violenta quanto o modernismo e a americanização fizeram com a lógica urbana cosmopolista sobre a periferia do capitalismo e o mundo rural (Porto Alegre, por exemplo, é uma província até hoje, mas disso já falei; o Brasil também sempre esteve na periferia do capitalismo, só agora é que as coisas andam mudando). Aí vem a pergunta cabal: Precisa ser assim? Não dá pra achar um meio termo?

17/02/2010

A cidade que merecemos

Há algum tempo, rolou outra polêmica interessante aqui no Rio Grande do Sul. Na época, escrevi sobre o assunto, enviei pra ZH, mas não se interessaram em publicar. Por isso, agora resolvi postar o texto aqui. Na sequência, traço um rápido paralelo entre o post anterior, sobre o Nei Lisboa, e este aqui.

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A cidade que merecemos

Nunca fui aluno do professor Voltaire Schilling, embora desejasse ter sido. Temos amigos em comum, mas ele não deve saber da minha existência. Sei que ele é um homem com uma cultura refinada e dono de uma ironia única na capital gaúcha. Por isso, a recente polêmica iniciada por ele no jornal Zero Hora em 25 de outubro último, com o artigo A capital das monstruosidades, que atiçou os ânimos de artistas e intelectuais, deve ser pensada com cuidado. Em seu texto, Voltaire questiona o valor de algumas obras pretensamente artísticas e propõe a discussão a respeito da sociedade aceitar tão facilmente que elas passem a fazer parte da paisagem porto-alegrense.

No caderno Cultura de 31 de outubro, dois professores questionaram as ideias de Voltaire. Clóvis Da Rolt acredita que o artigo de Voltaire pode abrir espaço para uma discussão mais ampla a respeito de quem decide quais obras devem ser expostas em locais públicos e de como deve ser feita essa decisão. Apesar de questionar Voltaire com respeito, Da Rolt pensa “que ele poderia ter proposto uma reflexão seguindo outro caminho e não conduzindo o leitor a aderir, sumariamente, aos seus conceitos estéticos pouco ventilados”, concluindo que o debate foi proposto de maneira ingênua. Gaudêncio Fidelis classificou o artigo de Voltaire de demagógico e “manifesto iconoclasta”. Ora, a arte moderna é (ou foi), desde sempre, iconoclasta (talvez coubesse uma reflexão mais longa a respeito de onde começa e onde termina a arte moderna, se é que ela já terminou; no entanto, deixo para outra ocasião).

Quando li esses dois artigos tive a nítida sensação de que algo estava errado. Especialmente porque, a meu ver, o artigo do professor Voltaire não tinha realmente o objetivo de propor a  remoção ou a destruição das obras por ele citadas.

Digo isso especificamente por causa de um parágrafo de seu texto, o antepenúltimo, em que o professor classifica Porto Alegre de “cidade aprazível, moderna, povoada por gente simpática”, com belas mulheres e lar de grandes artistas. Aprazível é um adjetivo que depende muito da visão individual. Moderna, Porto Alegre definitivamente não é, nunca quis ser. Alguns habitantes acreditam que, porque agora temos uma Livraria Cultura e um aeroporto com túneis que nos conduzem diretamente ao interior do avião, deixamos de morar numa província. Porto Alegre não tem vocação pra modernidade. São Paulo é moderna, e por isso obras como a do artista paulista Henrique Oliveira, citado por Voltaire pela sua Casa Monstro, não parecem combinar com a paisagem porto-alegrense. No entanto, não a estranharíamos tanto se nos deparássemos com ela em São Paulo.

Gente simpática é outra classificação que dá o que pensar. Quando vou a uma loja, são raras as vezes em que me sinto bem atendido. Quando peço ajuda a um taxista para localizar uma rua, normalmente recebo a resposta de maneira rápida, beirando a grosseria. Quando entro numa livraria para olhar o seu acervo, sem ter um objetivo de consumo claro na cabeça, me olham como se eu fosse roubar algo. Isso é simpatia? Experimentem fazer isso tudo no Rio de Janeiro (ok, é uma cidade turística, preparada pra isso, mas Porto Alegre também não deseja ser turística?).

Com relação às mulheres, acredito que Fidelis exagerou ao chamar Voltaire de machista, mas acho que a discussão perde o foco se continuarmos por aí. Com relação aos artistas que viveram em Porto Alegre citados pelo professor Voltaire (Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves), são todos exemplos de artistas modernos com obras que também são incompreendidas pela maioria.

No fundo, acho que Voltaire conseguiu o que queria: provocar a discussão. É uma pena que Voltaire teve de vir a público explicar suas ideias, que já estavam claras desde o início. No Cultura do dia 05 de dezembro, os jornalistas Eduardo Veras e Luiz Antonio Araujo entrevistaram o professor acerca de sua posição (a entrevista é agressiva, o que pode-se perceber pelas perguntas; a íntegra pode ser lida aqui). Ok, era difícil concluir que arte ele aprecia, mas afirmar que não tem senso estético e que suas ideias são demagógicas talvez seja o maior erro de Da Rolt e Fidelis. Afinal, Voltaire tem razão ao concluir que a maior parte da população não aceita a arte contemporânea, porque não a compreende. É fácil encontrar pessoas que olham para a Casa Monstro, por exemplo, e se perguntam se isso é realmente arte (concluindo, normalmente, que não é). Essas são as pessoas que acatam com tanta facilidade que essas obras sejam acolhidas naturalmente pela prefeitura. São as mesmas pessoas que não questionam por que não existe uma parada de ônibus em frente ao Museu da Fundação Iberê Camargo, ou por que ali não existe um semáforo e uma faixa de segurança. Se estamos nessa situação, é porque esta é a cidade que merecemos.

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A polêmica envolvendo o Nei é só mais uma prova de que o Rio Grande do Sul não é povoado por gente simpática nem moderna. Se fosse assim, as pessoas conseguiriam discutir o assunto com mais sensatez…

PS: quem nunca escutou o Nei, por favor, procure canções dele no Youtube ou em qualquer outro site. Claro, se puderem comprar os cds dele, não se arrependerão.

29/05/2009

Uma proposta sobre a recente discussão acerca da leitura

Uma discussão que muito me interessa e sobre a qual procuro refletir com meus alunos na UFRGS é a forma como a leitura é trabalhada na escola. Escreveram recentemente sobre o tema Sergio Rodrigues (aqui e aqui), Carlos André Moreira (aqui, aqui e aqui — este último acertando em cheio na questão), o Alexandre Rodrigues (aqui e aqui), e a Gabriela Rassy, que detonou a discussão (aqui), analisando um lançamento sobre o assunto. Todos jornalistas, todos bons e ávidos leitores, os três primeiros com blogs que se dedicam quase exclusivamente a debater livros e literatura.

A preocupação de todos é a minha também: em resumo, como estimular a leitura na escola? No entanto, por ter trabalhado anos em colégios particulares dando aulas de Literatura (e para onde, provavelmente, voltarei em breve), por estar trabalhando num curso superior de Letras em que o assunto é pensado com frequência e, enfim, por ser professor, acredito que tenho uma proposta viável para atingir o êxito no desafio ou, pelo menos, uma visão um pouco diferente.

Em primeiro lugar, não é verdade que para estimular um jovem a se tornar leitor é fundamental que a família seja leitora. Os pais não precisam ler nada. O que precisam fazer é, simplesmente, possibilitar a seus filhos o acesso aos livros, seja levando o jovem a uma biblioteca, seja comprando os livros sugeridos pela escola ou outros do interesse do filho. Se um pai disser pro filho que nunca leu nenhum livro na vida e que nem por isso deixou de se dar bem profissionalmente aí, sim, estará matando um leitor.

Segundo e talvez o mais importante, uma verdade que ninguém percebe: o vestibular não precisa ser o termômetro pro ensino de Literatura na escola. Não estou dizendo que o professor pode solicitar outras leituras além das exigidas pelo vestibular. É claro que ele pode e consegue fazer isso, se quiser. Ao longo de três anos (pensando no Ensino Médio, época em que a Literatura é trabalhada de forma mais sistematizada), é possível incluir na lista de leituras obras que não aparecem no vestibular, como de autores estrangeiros (sempre trabalhei Voltaire, Sófocles, Shakespeare, entre outros) ou de jovens autores (quando trabalhei com meus alunos Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, um deles chegou a dizer que aquele havia sido o melhor livro que um professor tinha solicitado que eles lessem). Autores assim não atrapalham a leitura das obras exigidas pelo vestibular. Pelo contrário, até ajudam, afinal, como entender a irracionalidade de Bentinho ao lembrar de Otelo sem ter lido o clássico de Shakespeare?

Agora, há um elemento na prova de Literatura da maioria dos vestibulares que os professores normalmente não percebem, muito menos os jornalistas, sem querer ofender ninguém aqui. Para constatar isso, basta pegar uma prova da UFRGS (vou usá-la como exemplo porque é com ela que tenho mais intimidade, embora seja fácil perceber que ocorre da mesma forma em outros vestibulares). Pra quem não sabe, o programa da prova de Literatura do vestibular da UFRGS contempla os principais autores da cronologia da História da Literatura Brasileira, além de quatro autores portugueses, e também apresenta uma lista de 12 leituras obrigatórias, leituras que certamente aparecerão na prova e que abrangem, normalmente, 50% das 25 questões da prova. Ou seja, essa lista é um presente para o candidato, já que ele sabe que aquelas leituras serão cobradas, enquanto o resto das questões é um mistério.

Diante disso, alguma questão cobra as características de qualquer autor ou período literário? Não! Ok, às vezes aparecem questões em que o candidato precisa saber apenas o nome de alguns livros de um determinado autor, mas isso é raro e não chega a ser grave. Questões assim servem para eliminar aqueles candidatos que estão disputando os cursos mais concorridos. Alguém pode argumentar que isso exige uma decoreba por parte do candidato. Por um lado, é verdade. Por outro, mesmo sem ter lido Memórias Póstumas de Brás Cubas, é importante que o candidato saiba que se trata de uma obra fundamental de Machado de Assis.

A maioria das questões do vestibular da UFRGS, porém, apresenta um poema ou um excerto de poema, ou um trecho de um conto, novela, romance ou crônica, e exige do candidato que demonstre compreensão do que está ali apresentado nas afirmações que devem ser identificadas como corretas e incorretas nas alternativas apresentadas. Não é necessária a leitura da obra completa para que o candidato consiga responder a questão, porque ela está perguntando o que está descrito naquele trecho, só naquele trecho. É claro que se o candidato leu a obra cobrada na questão, provavelmente terá mais facilidade para respondê-la, mas mesmo questões que envolvem leituras obrigatórias são frequentemente apresentadas do jeito que descrevi no início deste parágrafo e é por isso que escuto muito que às vezes basta ler um resumo da leitura para responder a questão. Na realidade, às vezes nem o resumo é necessário.

O problema do ensino de Literatura é semelhante ao da Língua Portuguesa. Os professores de Língua obrigam seus alunos a compreender funções sintáticas, normalmente a partir da 7ª série do Ensino Fundamental, mas elas não são cobradas na prova de Língua Portuguesa da UFRGS. Por que então exigir do aluno que ele saiba identificar a diferença entre um adjunto nominal e um complemento nominal se isso não aparece no vestibular e se nem os gramáticos conseguem chegar a um consenso sobre o tema?

A Literatura, assim como a gramática da Língua Portuguesa, é ensinada de maneira matemática, como se tivesse lógica. Os alunos decoram a sequência dos períodos literários e suas respectivas características antes de ler a obra dos autores de cada período. Depois, são cobrados a identificar aquelas características nos textos. E, pior, ficam com a impressão de que termina um período e começa outro: como explicar que Realismo, Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo são períodos coetâneos? Ou, pior ainda, como explicar que Machado de Assis é realista se o seu já citado Memórias Póstumas, que deu início ao Realismo no Brasil, é narrado por um morto? Ora, Machado de Assis não se via como um realista. Chegou, inclusive, a ironizar o Realismo várias vezes em alguns de seus textos críticos…

Então, é incorreta a pergunta “por que exigir leituras importantes que não atraem o interesse dos alunos?” A reflexão que deve ser feita é como trabalhar essas leituras. Elas não precisam ser substituídas. O que deveria ser feito é mais simples do que parece: ler, exclusivamente. O professor de Literatura deveria ser um professor de leituras, um orientador de discussões com base nas leituras por ele propostas. Sem discussão em cima do que é lido, o texto torna-se chato, e o aluno não compreende o que está lendo. A aula de Literatura deveria ser uma aula de leitura em conjunto. Assim, lendo e parando para refletir sobre o que foi lido, discutindo e iluminando o que foi lido, o texto só será visto como chato e incompreensível se o professor for incompetente.

E reitero que o professor deve, sim, indicar as leituras que devem ser cobradas, sim, em avaliação. Mas antes da realização desta, o debate é necessário e fundamental. Sobre esse tópico, discordo do Alexandre Rodrigues, que escreveu em um de seus posts:

“A professora foi bem honesta conosco: “São chatos, mas importantes” [os livros por ela sugeridos]. Ela, porém, tinha mais um truque: a cada livro chato lido, podíamos escolher um qualquer para ler e resenhar. Vinte mil léguas submarinas foi meu primeiro. Viagem ao centro da Terra, o segundo. O conde de Monte Cristo, o terceiro. A alternância funcionou. Uma turma quase inteira de leitores se formou assim. É o máximo onde a escola pode chegar.”

Nenhum professor de Literatura pode afirmar para seus alunos adolescentes que é chato o livro que está solicitando que eles leiam! Isso é absurdo! Ok, o professor pode até dizer que tem restrições, que identifica alguns defeitos, que considera outros livros mais importantes ou interessantes, mas dizer que são chatos não condiz com a condição de um professor de Literatura numa escola. E que um professor experimente, hoje, dar essa liberdade da leitura livre a seus alunos: eles só lerão Paulo Coelho, J. K. Rowling, Dan Brown e outras bobagens que aparecem na lista de mais vendidos da Veja (não que eu ache a Rowling uma bobagem, afinal ela está muito distante do Brown e do Paulo Coelho, mas tem coisa melhor). Duvido que um aluno, atualmente, pegasse os livros citados pelo Alexandre de livre e espontânea vontade.

E isso que sua professora fazia não “é o máximo onde a escola pode chegar”. Para realmente estimular a leitura e formar leitores, a escola precisa rever seus programas curriculares e apoiar uma transformação na forma de se trabalhar a leitura. Quanto mais se lê, mais fácil fica interpretar qualquer questão de vestibular, inclusive das provas de exatas. Não se instiga o gosto pela Literatura com base nos períodos literários ou em características dos autores desses períodos. Por isso, ler com o aluno é a tarefa que deveria ser executada por qualquer professor no Ensino Médio. E assim qualquer aluno vai acabar apreciando Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra e O conde de Monte Cristo. E qualquer professor poderá trabalhar obras que, de outra forma, seriam censuradas. Seriam, não: algumas estão sendo, como os poemas do Joca Reiners Terron na coletânea Poesia do Dia, da Ática (como apontou o CA), ou as Aventuras Provisórias, do Cristovão Tezza (ok, talvez isso não seja censura, mas um sinal claro de que está errado o ensino de Literatura praticado nas escolas Brasil afora).

Se o aluno quiser estudar mais Literatura, ele vai acabar cursando Letras e aí, sim, vai estudar a cronologia, a História da Literatura, a teoria e a crítica literárias. Mas qual deveria ser o objetivo da escola: formar leitores ou especialistas em História da Literatura? Demonstrar por que Machado de Assis é tão bom ou fazer os alunos decorarem que não fica claro que Capitu traiu Bentinho?

Ok?! Ok.

16/01/2009

Ano novo, língua nova

Muita gente anda preocupada com a reforma ortográfica. Sinceramente, eu não estou nem aí. Quer dizer, sei que isso vai mudar muita coisa, mas não acho que seja motivo pra tanto alarde. Em princípio, sou contra a reforma, por motivos variados, mas acho que vamos precisar de alguns anos pra ter certeza de que ela é boa ou ruim.

Uma das coisas mais inteligentes que li até agora foi o que escreveu a Carol Bensimon em seu blog Kevin Arnold para dois. Nós, estudiosos da língua ou membros de uma elite que domina o padrão culto, não podemos reclamar da reforma só porque vamos ter de controlar o que está sendo alterado. Diz a Carol: “o sujeito simplesmente diz que se negará a deixar de lado a velha ortografia para adotar a nova. O que enxergo aí é bem claro: quem domina o código linguístico não quer ver o seu poder enfraquecido frente a mudanças que ele ainda não domina. Além disso, a maioria não quer se esforçar nem um pouco para manter a posição que conquistou.” Bingo! É por isso que essa elite tem razão ao reclamar que a língua não pode ser alterada através de leis. Pode parecer papo de lingüista, mas não é, e, acredito, nem preciso explicar por quê. (Sei que agora devemos escrever “linguista”, porque o trema deixa de existir na nova ortografia, mas ainda não a adotei, porque podemos utilizar a velha ortografia por mais um tempo. Ou seja, ainda não é crime não usar a nova — afinal, a língua é regida por uma lei.)

Pra finalizar: na última segunda-feira, participei, junto com o jornalista Julio Ribeiro,  do programa Coffee Break, da rádio Band News RS, comandado pelo Guilherme Baumhardt. Uma das coisas que comentei era que a reforma vai gerar uma transformação no mercado editorial, e que vai se acabar gastando grandes quantias que poderiam ser utilizadas de outra forma. A meu ver, mesmo com o governo investindo mais do que nunca em educação, antes de reformar é preciso construir. E a construção continua capenga…

27/08/2008

Época de revival: Cardosonline e Galãs da Menopausa

Marcelo, Claus e Tiago

Há 10 anos eu formava a melhor e mais duradoura banda que já tive na vida: Os Galãs da Menopausa. No início deste ano, montei um site chamado O Baú dos Galãs. O Claus (vocalista, guitarrista e mentor da banda) ficou muito empolgado com o site e me propôs que fizéssemos um show para comemorar o lançamento de dez anos da primeira fita demo, que chamava-se Vamos Dançar?. Claro que aceitei. Nunca consegui tocar com mais ninguém além do Claus. Sempre senti que nossos gostos se fechavam muito bem e que tínhamos uma química bacana. O Tiago (baterista) não topou a empreitada. Então escalamos o Cereja, que toca com o Claus na Super Gatas. Estamos ensaiando e em breve teremos detalhes a respeito de shows, apresentações na TV, turnês internacionais, etc. Pra quem nunca ouviu Os Galãs, basta acessar o site e conferir as musiquinhas que gravamos durante a existência da banda. Dá pra baixar tudo. Vou querer ver todos cantando…

Mas acabo de fazer uma pesquisa sobre o Cardosonline. Queria conferir o link pra enviar pra um amigo. Aí, descubro que hoje mesmo entrou no ar um site chamado Cardosonline 10 anos: nós inventamos a internet. Tá, talvez não tenha sido hoje, mas foi há poucos dias, porque encontrei um e-mail do Galera enviado pra revista Trip com data de hoje. O COL era um fanzine enviado por e-mail duas vezes por semana entre 1998 e 2001. Fez história, tinha milhares de assinantes, muitos deles ilustres, além de alguns outros ilustres desconhecidos. Todo mundo queria ser amigo do pessoal do COL. Todo mundo queria fazer parte do COL. Foi a coisa mais bem bolada que já surgiu na internet. Tá, talvez eu esteja exagerando, mas naquela época em que a internet era discada, receber por e-mail textos de qualidade escritos por gente tão próxima era o máximo, pelo menos pra mim. Nós éramos contemporâneos da UFRGS, mas eles eram da Fabico; eu, da Letras.

Hoje, cada um dos membros do COL está cuidando da vida. A Clarah tem um blog que é um fenômeno e seus livros inspiraram o filme Nome Próprio. O Galera tinha blog, lançou alguns livros (entre eles o ótimo Mãos de Cavalo e o muito bom Até o dia em que o cão morreu, que inspirou o filme Cão sem dono) e lança mais um até o fim do ano. O Mojo é o escritor mais ousado, experimental e interessante que surgiu no Brasil nos últimos anos, além de ser um lunático com milhares de projetos na rede. O Träsel dá aulas na PUC-RS, tem o Martelada e comanda o ótimo Conversas Furtadas. O Cardoso é o Cardoso… Dos outros, não sei muita coisa, mas é só digitar o nome de cada um que vocês encontram pérolas pelo Google. E, claro, não percam a chance de receber a edição especial de RIVÁIVOU. Eu já garanti a minha…

Alguém pergunta: e o que eu estou fazendo? No momento, vendendo um apartamento pra comprar outro. Tá a fim de comprar? Tá a fim de vender? Entra em contato… Senão, espera o show dos Galãs. Ou vai me assistir dando aulas na UFRGS. Ou então fica por aqui, que já tá de bom tamanho.