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22/02/2010

Resposta aberta: mais Nei Lisboa

Caro João,

resolvi escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos lá.

Obrigado pela correção quanto ao Paixão Cortes. Eu confesso que não sou muito ligado na cultura tradicionalista, por isso o equívoco, mas me interesso por essas discussões a respeito da identidade gaúcha. De qualquer forma, já corrigi o erro no post.

Concordo que cada um pode pensar o que quiser e manifestar isso como e onde achar melhor. Realmente, Porto Alegre e o resto do Rio Grande do Sul têm espaços variados pra todo tipo de manifestação cultural, o que é muito bom.

Agora, você escreveu de maneira um pouco dispersa, me parece, então vou ser um pocuo disperso também e pontuar o que me chamou mais atenção:

1) Quando o Nei Lisboa disse que não gosta do Teixeirinha? Onde? Não foi na tal entrevista da ZH. Ou foi? Ele disse: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria.” Ele não disse que não gosta do Teixeirinha. Ele o ouvia quando criança. Só porque ele considera a música tradicionalista ruim estética, ideológica e musicalmente, não significa que ele não aprecia o Teixeirinha ou qualquer outro compositor da corrente. Reproduzi mais algumas frases aí porque trato do assunto abaixo.

2) Um dos problemas do Paixão Cortes e do Barbosa Lessa era a americanização que estava tomando conta do estado e do país. Na época em que eles idealizaram o MTG, a coca-cola estava entrando em larga escala no mercado brasileiro. Em São Paulo e no Rio, o modernismo já era reconhecido como o grande movimento artístico e cultural brasileiro. O próprio Paixão Cortes já contou essa história. Então, a briga é muito mais com a McDonaldização do mundo (expressão que o Luís Augusto Fischer criou e usa correntemente), que, de certa forma, ganhou uma contribuição do modernismo pra que se firmasse pelo país.

3) Sendo assim, está aí mais uma prova de que o MTG foi inventado. Ok, até aí quase nenhum problema, porque a maioria das tradições ao redor do mundo foram inventadas. Mas quando um grupo de tradicionalistas não aceita que alguém lembre que o movimento se transformou em atração turística com objetivos meramente financeiros e especulativos, chegando ao ponto de fazer ameaças de morte (ok, talvez estivesse brincando o cara que escreveu que faria com Nei o mesmo que aconteceu com o irmão dele, mas eu não acho que possamos brincar com a tortura da ditadura militar e seus desaparecidos políticos; isso é piada de mau gosto), a coisa parece que está fugindo do controle. E vamos combinar: a maioria das pessoas que defende as tradições gauchescas não as pratica de verdade. Ou estou errado? Na hora de gritar “Ah, eu sou gaúcho!”, é fácil reunir uma multidão, mas no dia a dia quantos cultivam as tradições? Meu palpite: menos de 10% da população.

4) E por que um número tão baixo? A resposta, a meu ver, explica também por que eu acho que o Nei Lisboa será mais lembrado que o Teixeirinha pelas gerações contemporâneas e vindouras: o mundo urbano ganhou o jogo, é a lógica urbana que rege o mundo; qualquer manifestação regional fica relegada a segundo plano, como coisa menor, mal feita. Não estou dizendo que concordo que deva ser assim nem que acho isso bom. Não é, realmente. (Seria ótimo se o povo gaúcho lesse mais Simões Lopes Neto.) E o Nei é um cantor urbano. O que ele faz é música urbana, mesmo que flerte com o pop, a mpb, o rock e até mesmo com a música tradicionalista (quem não lembra a belíssima “Exaltação”?).

5) Tentando concluir, o que eu acho errado nisso tudo é que querem nos fazer engolir uma tradição inventada, que não nos exprime. E querem fazer isso de maneira tão violenta quanto o modernismo e a americanização fizeram com a lógica urbana cosmopolista sobre a periferia do capitalismo e o mundo rural (Porto Alegre, por exemplo, é uma província até hoje, mas disso já falei; o Brasil também sempre esteve na periferia do capitalismo, só agora é que as coisas andam mudando). Aí vem a pergunta cabal: Precisa ser assim? Não dá pra achar um meio termo?

17/02/2010

A cidade que merecemos

Há algum tempo, rolou outra polêmica interessante aqui no Rio Grande do Sul. Na época, escrevi sobre o assunto, enviei pra ZH, mas não se interessaram em publicar. Por isso, agora resolvi postar o texto aqui. Na sequência, traço um rápido paralelo entre o post anterior, sobre o Nei Lisboa, e este aqui.

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A cidade que merecemos

Nunca fui aluno do professor Voltaire Schilling, embora desejasse ter sido. Temos amigos em comum, mas ele não deve saber da minha existência. Sei que ele é um homem com uma cultura refinada e dono de uma ironia única na capital gaúcha. Por isso, a recente polêmica iniciada por ele no jornal Zero Hora em 25 de outubro último, com o artigo A capital das monstruosidades, que atiçou os ânimos de artistas e intelectuais, deve ser pensada com cuidado. Em seu texto, Voltaire questiona o valor de algumas obras pretensamente artísticas e propõe a discussão a respeito da sociedade aceitar tão facilmente que elas passem a fazer parte da paisagem porto-alegrense.

No caderno Cultura de 31 de outubro, dois professores questionaram as ideias de Voltaire. Clóvis Da Rolt acredita que o artigo de Voltaire pode abrir espaço para uma discussão mais ampla a respeito de quem decide quais obras devem ser expostas em locais públicos e de como deve ser feita essa decisão. Apesar de questionar Voltaire com respeito, Da Rolt pensa “que ele poderia ter proposto uma reflexão seguindo outro caminho e não conduzindo o leitor a aderir, sumariamente, aos seus conceitos estéticos pouco ventilados”, concluindo que o debate foi proposto de maneira ingênua. Gaudêncio Fidelis classificou o artigo de Voltaire de demagógico e “manifesto iconoclasta”. Ora, a arte moderna é (ou foi), desde sempre, iconoclasta (talvez coubesse uma reflexão mais longa a respeito de onde começa e onde termina a arte moderna, se é que ela já terminou; no entanto, deixo para outra ocasião).

Quando li esses dois artigos tive a nítida sensação de que algo estava errado. Especialmente porque, a meu ver, o artigo do professor Voltaire não tinha realmente o objetivo de propor a  remoção ou a destruição das obras por ele citadas.

Digo isso especificamente por causa de um parágrafo de seu texto, o antepenúltimo, em que o professor classifica Porto Alegre de “cidade aprazível, moderna, povoada por gente simpática”, com belas mulheres e lar de grandes artistas. Aprazível é um adjetivo que depende muito da visão individual. Moderna, Porto Alegre definitivamente não é, nunca quis ser. Alguns habitantes acreditam que, porque agora temos uma Livraria Cultura e um aeroporto com túneis que nos conduzem diretamente ao interior do avião, deixamos de morar numa província. Porto Alegre não tem vocação pra modernidade. São Paulo é moderna, e por isso obras como a do artista paulista Henrique Oliveira, citado por Voltaire pela sua Casa Monstro, não parecem combinar com a paisagem porto-alegrense. No entanto, não a estranharíamos tanto se nos deparássemos com ela em São Paulo.

Gente simpática é outra classificação que dá o que pensar. Quando vou a uma loja, são raras as vezes em que me sinto bem atendido. Quando peço ajuda a um taxista para localizar uma rua, normalmente recebo a resposta de maneira rápida, beirando a grosseria. Quando entro numa livraria para olhar o seu acervo, sem ter um objetivo de consumo claro na cabeça, me olham como se eu fosse roubar algo. Isso é simpatia? Experimentem fazer isso tudo no Rio de Janeiro (ok, é uma cidade turística, preparada pra isso, mas Porto Alegre também não deseja ser turística?).

Com relação às mulheres, acredito que Fidelis exagerou ao chamar Voltaire de machista, mas acho que a discussão perde o foco se continuarmos por aí. Com relação aos artistas que viveram em Porto Alegre citados pelo professor Voltaire (Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves), são todos exemplos de artistas modernos com obras que também são incompreendidas pela maioria.

No fundo, acho que Voltaire conseguiu o que queria: provocar a discussão. É uma pena que Voltaire teve de vir a público explicar suas ideias, que já estavam claras desde o início. No Cultura do dia 05 de dezembro, os jornalistas Eduardo Veras e Luiz Antonio Araujo entrevistaram o professor acerca de sua posição (a entrevista é agressiva, o que pode-se perceber pelas perguntas; a íntegra pode ser lida aqui). Ok, era difícil concluir que arte ele aprecia, mas afirmar que não tem senso estético e que suas ideias são demagógicas talvez seja o maior erro de Da Rolt e Fidelis. Afinal, Voltaire tem razão ao concluir que a maior parte da população não aceita a arte contemporânea, porque não a compreende. É fácil encontrar pessoas que olham para a Casa Monstro, por exemplo, e se perguntam se isso é realmente arte (concluindo, normalmente, que não é). Essas são as pessoas que acatam com tanta facilidade que essas obras sejam acolhidas naturalmente pela prefeitura. São as mesmas pessoas que não questionam por que não existe uma parada de ônibus em frente ao Museu da Fundação Iberê Camargo, ou por que ali não existe um semáforo e uma faixa de segurança. Se estamos nessa situação, é porque esta é a cidade que merecemos.

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A polêmica envolvendo o Nei é só mais uma prova de que o Rio Grande do Sul não é povoado por gente simpática nem moderna. Se fosse assim, as pessoas conseguiriam discutir o assunto com mais sensatez…

PS: quem nunca escutou o Nei, por favor, procure canções dele no Youtube ou em qualquer outro site. Claro, se puderem comprar os cds dele, não se arrependerão.

Nei Lisboa tocando o terror

O músico e compositor Nei Lisboa iniciou uma polêmica que, de tempos em tempos, retorna ao debate cultural gaúcho. Pra quem não acompanhou a história toda, precisa começar lendo a entrevista que o Nei deu pro Luís Bissigo, da ZH, em 25/01 último.

A declaração mais polêmica, sob o meu ponto de vista, foi também a mais inteligente: “A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso.”

Eu costumo trabalhar com meus alunos a Estética do Frio, texto do Vitor Ramil sobre a tensão que existe entre ser gaúcho e ser brasileiro. A discussão normalmente demora a engrenar, porque a visão que eles têm a respeito do assunto é muito bairrista. Poucos conseguem enxergar o problema com distanciamento. Só que o mais interessante dessa conversa é que a maioria dessas pessoas que defende o tracionalismo não pratica, no fundo, o tradicionalismo. Só tomar chimarrão não significa que a pessoa esteja cultivando um hábito gauchesco, tradicionalista. Ou seja: o tradicionalismo conseguiu fazer com que a consciência do gaúcho se transformasse de tal forma que o personagem por ele inventado (ele, o tradicionalismo) é representado por quase todo gaúcho em qualquer situação de ataque à cultura gauchesca, mesmo que a pessoa não tenha e, muito menos, costume usar trajes gauchescos; mesmo que a pessoa não tenha nenhum disco de artista gauchesco; mesmo que a pessoa não frequente CTGs; enfim, mesmo que a pessoa não tenha intimidade nenhuma com o tradicionalismo.

Pior: agora, esses tradicionalistas de ocasião ficaram tão irritados que estão ameaçando o Nei da maneira mais bagaceira possível. Ontem saiu em ZH mais um texto sobre a polêmica, em que vários artistas e representantes do MTG dão sua opinião sobre o que o Nei declarou. Em seguida, o próprio Nei foi convidado a se explicar e lá apresenta seu texto chamado “Não aos ‘patrões da cultura’” (também dá pra ler os dois textos aqui, com indicação pra um blog ridículo hospedado na ZH). Pra quem não sabe (e, certamente, muitos não sabem, inclusive alguns de vocês que estão me lendo e discordando de mim), nos CTGs mundo afora existem duas classes de trabalhadores: o patrão e os peões. Cada CTG tem um patrão, o resto é peonada. Parece piada, mas é sério. Com isso, logicamente o Nei quis cutucar esses patrões que, não contentes em mandar e desmandar no pequeno espaço que seu CTG representa, precisam também aparecer na mídia pra dizer o que é e o que não é tradicionalismo. (Eu já escrevi sobre isso aqui, e quem quiser pode clicar aí do lado, nas categorias, em Gauchismo, pra ler tudo que já escrevi sobre o assunto.)

Como todo mundo sabe, ou deveria saber, a maioria dos CTGs se transformou num espaço de exploração econômica. Em outras palavras, os CTGs são atrações turísticas que exploram uma tradição inventada (inventada mesmo, com data de fundação, inclusive — 1948 –, pelo Paixão Cortes e pelo Barbosa Lessa). E essa tradição inventada conseguiu muito poder, tanto que muitos tradicionalistas de ocasião começaram uma discussão fortíssima no site do Nei, com direito a ameaças de morte e física. Sem exagero, está tudo lá. Pelo menos, pra um cara como eu, dá pra lavar a alma: todos esses tradicionalistas destilam sua ignorância cultural nos seus comentários… Só é triste que, lógico, poucos assinam com o seu verdadeiro nome. (Fazer ameaças assim tem nome, chama-se covardia, algo que, dizem os tradicionalistas, não combina com o movimento.)

22/09/2009

“O churrasco e os gaúchos” (atualizado)

Causou indignação o texto “O churrasco e os gaúchos”, publicado pela ZH na última sexta-feira. O fato é que o autor do texto tem muita razão ao fazer as afirmações que faz. Realmente, as churrascarias nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro costumam ser melhores que as do Rio Grande do Sul. Alguns dizem que são gaúchos os responsáveis por essas churrascarias fora do estado, inclusive utilizam nomes que remetem ao RS, como o próprio autor apontou.

Na realidade, os gaúchos se orgulham de muitas coisas sem o menor cabimento. Eu já disse e repito: só acredita que a Polar é a melhor cerveja do Brasil quem está bebendo pouco.

Mas não fujamos do churrasco: já cansei de pedir carne ao ponto e sempre recebo carne mal passada. Isso não ocorre em São Paulo e Rio de Janeiro, pelo menos não nas boas churrascarias. Na Schneider, na Braseiro ou em qualquer outra boa churrascaria de Porto Alegre, ou o garçom não entendeu meu pedido, ou o churrasqueiro é muito ruim, mesmo. Vai saber…

Agora, não entendi por que tamanha irritação do autor do texto, morador de São Borja. Não parece ser um problema só com o churrasco… Enfim.

Atualização: 23 de setembro de 2009, às 12:05

Aproveitando o ensejo, saiu uma entrevista na ZH com o cartunista Allan Sieber, que é gaúcho, mora no Rio há 10 anos e não poupa ninguém. Recomendo. Ah, sim, aqui e aqui.

05/08/2008

Teatro em BSB II: Não sobre o amor

Certamente, a melhor peça brasileira de 2008: Não sobre o amor é dirigida por Felipe Hirsch, provavelmente o diretor brasileiro mais inventivo dos últimos quinze anos. A peça é uma troca de cartas entre Alya e Victor Shklovsky interpretados, respectivamente, por Arieta Corrêa e Leonardo Medeiros. São tantos elementos que chamam a atenção (num espaço tão pequeno) que é impossível descrever todos os detalhes.

De qualquer forma, a peça não é simplesmente epistolar: é poesia do começo ao fim. Alya pede ao seu correspondente que pare de lhe escrever sobre o amor, o que explica o título. A personagem criada por Victor Shklovsky (1893-1984), um dos principais representantes do formalismo russo é baseada em Elsa Triolet, que era irmã de Lilia Brik, amante do poeta russo Vladimir Maiakovski.

A peça começa com Leonardo posicionando-se numa cama instalada na parede. A partir de então, o espectador compreende com facilidade que a intenção do diretor era obrigá-lo a observar de cima a situação desses personagens. O espectador está no teto, ou no céu. A partir de então somos levados através de uma corrente de imagens e legendas contendo informações sobre a trama que vão se projetando sobre cenário e atores como se estivéssemos num cinema. Poderia ser apenas um recurso moderninho (quem freqüenta este blog sabe que sou um pouco conservador para artes), mas contribui de maneira sensível para o drama de Victor, que se vê impedido de falar sobre amor, como já comentado.

Mais do que isso: o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília é relativamente grande, devia ter espaço para uns 200 espectadores, mas foi diminuído pela metade propositalemente para a apresentação da peça. É como se estivéssemos realmente dentro do quarto ao inverso. O drama de Victor ganha força com essa proximidade, que contrasta estranhamente com o distanciamento que ele tem de Alya, já que está exilado na Alemanha.

Um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar.

É fácil ser cruel. Basta não amar.

Ao escrever, não fale sobre o quanto, quanto, quanto, quanto me ama. Porque no segundo quanto eu já estou pensando em outra coisa.

Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo. A ironia devora as palavras. É a maneira mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas.

Pelos trechos acima, dá pra notar que esta é mais uma peça imperdível e que não tem previsão de vir a Porto Alegre. É uma pena que ela não esteja escalada para o Em Cena. Talvez o público daqui não seja tão dedicado quanto o necessário, como Felipe Hirsch declarou numa entrevista para a Gazeta do Povo, de Curitiba:

Li uma reportagem na qual você pede paciência ao público. É seu espetáculo mais difícil?
Pedi paciência para Thom Pain – Lady Grey. Mas quase ninguém teve (risos). Acho que a melhor platéia é a dedicada. Infelizmente, existe cada vez um menor número de dedicados. Querem entretenimento. Pronto, rápido. Sem mediação. “Smells Like Teen Spirit” (hit do Nirvana), sabe? Pedir paciência é uma chamada de atenção. Olha, não seja precipitado, você está diante de algo original, mas que depende também de você. O leitor é cada vez mais importante no desenvolvimento conceitual de novas idéias. Mas grande parte do público está cada vez menos preparado. Isso é ilógico, não?

Se não tivéssemos um teatro tão preocupado em ganhar dinheiro com bobagens engraçadinhas, se tivéssemos mais do que quatro ou cinco diretores preocupados em formar um maior público sério, crítico, inteligente, talvez o pedido de paciência de Hirsch não seria necessário em Porto Alegre. O que ameniza a gravidade disso é que, pelo visto, a busca do público por entretenimento pronto, rápido, sem mediação não é um problema apenas aqui da província, como ele comprova acima…

Não sobre o amor

(Outro problema grave do teatro gaúcho é o sotaque. Quando se assiste a uma peça de São Paulo ou do Rio, não dá pra afirmar que os atores são cariocas, paulistas, pernambucanos, sergipanos… Parece que aqui os atores e diretores gaúchos fazem questão de mostrar que é possível adaptar a linguagem de Moliére ao sotaque gaúcho. Os melhores atores gaúchos são aqueles que não têm sotaque.)

Veja um trecho da peça:

01/02/2008

[ tradicionalismo atacado ]

Um amigo me enviou o texto abaixo. Não sei quem escreveu, não estava assinado. Tem algumas idéias interessantes, mas me parece radical demais. Costumo ler com os alunos A Estética do Frio, do Vitor Ramil, que, a meu ver, é um texto bem mais ponderado. De qualquer forma, acho interessante alguém ter essa disposição pra escrever isso tudo e com tamanha coragem. Quer dizer, nem tanto assim. Senão, saberíamos quem escreveu…

MANIFESTO CONTRA O TRADICIONALISMO

I – Em defesa de uma cultura e de uma estética correspondentes à memória e à história do Rio Grande do Sul.

O Rio Grande do Sul é um estado da federação brasileira resultante de um longo processo histórico de conquista e ocupação, no âmbito da geopolítica colonial, na disputa territorial entre Portugal e Espanha. O território foi consolidado em suas dimensões definitivas no período imperial e teve pequenas áreas ajustadas na República Velha.

Em todo o ciclo histórico, observou-se o esforço de vidas humanas e material para a construção de um espaço luso-brasileiro nos séculos iniciais, e brasileiro, com a Independência, a partir de 1822. A população do Rio Grande concorreu para a invenção do Brasil soberano. Nesse ato, passou a ter uma identidade e a pertencer a um Estado-nação. Historicamente, a escolha rio-grandense foi pelo seu pertencimento brasileiro, rompendo com Portugal e tendo a América espanhola como sua alteridade.

Concorreram para a conquista, ocupação e formação da sociedade sulina indivíduos de diversos grupos sociais e étnicos, genericamente identificados como: portugueses, índios, negros, mamelucos, cafuzos, mestiços da terra; espanhóis, uruguaios, argentinos, paraguaios, que escolheram permanecer na terra independentemente dos tratados divisórios; imigrantes de projetos de colonização ou que se aventuraram individualmente, em especial, advindos de territórios atualmente inseridos na territorialidade da Alemanha, Itália, Polônia, Rússia, Ucrânia, Espanha, França, etc.

Ao longo do tempo, o rio-grandense se formou através da inserção em uma identidade política, na composição da brasilidade e da naturalidade regionalizada e fronteiriça. E no cotidiano, através da vivência de todas as culturas, hábitos e costumes de origem, reelaborados na dinâmica da convivência.

Nesse processo de formação, em diversos de seus setores, ocorreu um involucramento com a sociedade e a cultura platina e latino-americana.

Historicamente, o Rio Grande é multicultural e multi-étnico.

Cultural e simbolicamente é uma região de representação aberta, de recriação constante, como critério indispensável às manifestações de pertencimento, motivadas pelas transformações históricas, sociológicas e culturais, típicas de uma sociedade em movimento, de transformações estruturais e antropológicas, onde ainda se opera, por exemplo, a mestiçagem dos grupos étnicos de origem. Um estado onde as fronteiras internas são evidentes.

Portanto, só é legítima a cultura que representar esta diversidade.

Conseqüentemente, é ilegítimo todo o movimento ou iniciativa doutrinária de orientação pública ou particular que não represente a complexidade social e cultural do estado.

É alienante e escapista todo o movimento que impede e atua através de instrumentos de coerção cultural, midiático ou econômico, com o objetivo de dificultar os desenvolvimentos culturais e estéticos que tomam os indivíduos e as realidades contemporâneas como matérias de suas criações e vivências estéticas.

É repressor todo o movimento que milita através do governo, da educação, da economia e da mídia, para fechar os espaços das manifestações artísticas, das representações simbólicas e das inquietações filosóficas sobre os múltiplos aspectos do Rio Grande do Sul.

É doutrinador e usurpador do direito individual todo o movimento organizado que impõe modelos de comportamento fora de seu espaço privado, se auto-elegendo como arquétipo de uma moralidade para toda a sociedade.

Nessa direção, consideramos como legítimas as manifestações que tomam os rio-grandenses em suas complexidades históricas e culturais, dimensionados em seus tempos sociais, e que transformam, em especial, a sociedade contemporânea como expressões de suas criações estéticas, formulações teóricas e inquietações existenciais.

Somos, em razão disso, contra todas as forças que dogmatizam, embretam, engessam, imobilizam a cultura e o saber em “expressões” canonizadas em um espaço simbólico de revigoramento e opressão a partir de um “mito fundante”, inventando um imaginário para atender interesses contemporâneos e questionáveis, geralmente identificados pela história como farsa e inexistência concreta. Consideramos que todo o processo de invenção e sustentação de uma visão “mitologizada” objetiva, unicamente, atender interesses atuais; é uma forma de militância que recorre à fábula, a ressignificação de rituais, hábitos e costumes, como forma de “legitimação” de causas particulares como se fossem “tradições” coletivas.

II – Em defesa de uma racionalidade sobre a história do Rio Grande do Sul, de equivalência para todos os construtores de nossa sociedade, de equiparação e direito para todas as manifestações culturais, de inclusão multicultural e respeito às heranças étnicas, sem que todas essas expressões sejam diluídas em um gauchismo pilchado de civismo ufanista, ideológico e manipulador dos mais sinceros sentimentos do povo.

Fundamentados nos princípios acima e nos demais existentes no transcurso deste manifesto, identificamos o MOVIMENTO TRADICIONALISTA GAÚCHO (MTG) como o principal instrumento de negação e destruição desses traços culturais e direitos fundamentais do povo rio-grandense.

Nossa posição se fundamenta nos seguintes argumentos:

1. Somos contra o Movimento Tradicionalista Gaúcho, especialmente porque, em sua cruzada unificadora, construiu uma idéia vitoriosa de “rio-grandense autêntico”, pilchado e tradicionalista, criando uma espécie de discriminação, como se a maioria da população tivesse uma cidadania de segunda ordem, como “estrangeira” no “estado templário” produzido fantasiosamente pela ideologia tradicionalista.

2. Somos contra o Movimento Tradicionalista Gaúcho, por identificá-lo como um movimento ideológico-cultural, com uma visão conservadora e ilusória sobre o Rio Grande, cujo sucesso se deve, em especial, à manipulação e ressignificação de patrimônios genuínos do povo, pertencentes aos seus hábitos e costumes.

3. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele não é a Tradição, mas se arrogou de seu representante e a transformou em elemento de sua construção simbólica, distorcendo-a, manipulando-a, inserindo-a em uma rede gauchesca aculturadora, sem respeito às tradições genuinamente representativas das diversidades dos grupos sociais.

4. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele não é Folclore, mas o caducou dentro de invernadas artísticas e retirou dele seus aspectos dinâmicos e pedagógicos; o seu apresilhamento ao espírito e ao sentido do pilchamento do estado está destruindo o Folclore do Rio Grande do Sul.

5. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele é um movimento organizado na sociedade civil, de natureza privada, mas que desenvolveu uma hábil estratégia de ocupação dos órgãos do Estado, da Educação e de controle da programação da mídia, conseguindo produzir a ilusão de que o tradicionalismo é oficialmente a genuína cultura e a identidade do Rio Grande do Sul. A “representação” tomou o lugar da realidade.

6. Somos contra o Tradicionalismo, porque, insensível à história e à constituição multicultural do Rio Grande do Sul, através de procedimentos normativos, embretou o rio-grandense em uma representação simbólica pilchada.

7. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele criou um calendário de eventos e, através de seus prepostos, aprovou leis que “reconhecem” o próprio tradicionalista como modelo gentílico, apesar de ser, em verdade, um ente contemporâneo, sem enraizamento histórico e cultural.

8. Somos contra o Tradicionalismo porque identificamos nele a criação de instrumentos normativos usurpadores, com a ambição de exercer um controle sobre a população, multiplicando a cultura da “patronagem”, com a reprodução de milhares de caudilhetes que tiranizam os grupos sociais em seu cotidiano. Tiranetes que, com sua truculência, ditam regras “estéticas” e limitam os espaços da arte e da cultura, lançando o preconceito estigmatizador, pejorativo e excludente, sobre formas de comportamento e manifestações artísticas inovadoras ou sobre concepções do regional, diferentes da matriz “cetegista”, mesmo quando essas manifestações surgem no interior do próprio Tradicionalismo.

9. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele instrumentaliza política e culturalmente uma visão unificadora, como se a origem identitária do Rio Grande estivesse no movimento da “minoria farroupilha”, falseando sobre a sua natureza “republicana”, elencando um panteão de “heróis” latifundiários e senhores de escravos, como se fossem entes tutelares a serem venerados pelas gerações atuais e vindouras.

10. Somos contra o Tradicionalismo, por ele se fazer passar por uma Tradição, desmentida pela própria história de sua origem, ao ser inventado através de uma bucólica reunião de estudantes secundaristas, em 1947, no colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.

11. Somos contra o Tradicionalismo, porque ele se transformou em força institucional e “popular”, em cultura oficial, através dos prepostos da Ditadura Militar no Rio Grande do Sul.

a) Na verdade, em 1964, o Tradicionalismo foi incluído no projeto cultural da Ditadura Militar, pois o “Folclore”, como fenômeno que não pensa o presente, serviu de alternativa estatal à contundência do movimento nacional-popular, que colocou o povo e seus problemas reais no centro das preocupações culturais e políticas.

b) O Tradicionalismo usurpou, assim mesmo, o lugar do Folclore, e se beneficiou do decreto do general Humberto Castelo Branco, de 1965, que criou o Dia Nacional do Folclore, e suas políticas sucedâneas. A difusão de espaços tradicionalistas no Estado e as multiplicações dos galpões crioulos nos quartéis do Exército e da Brigada Militar são fenômenos dessa aliança.

c) A lei que instituiu a “Semana Farroupilha” é de dezembro de 1964, determinando que os festejos e comemorações fossem realizados através da fusão estatal e civil, pela organização de secretarias governamentais (Cultura, Desportos, Turismo, Educação, etc.) e de particulares (CTGs, mídia, comércio, etc.).

d) Durante a Ditadura Militar, o Tradicionalismo foi praticamente a única “representação” com origem na sociedade civil que fez desfiles juntamente com as forças da repressão.

e) Enquanto as demais esferas da cultura eram perseguidas, seus representantes censurados, presos, torturados e mortos, o Tradicionalismo engrossou os piquetes da ditadura – seus serviçais pilchados animaram as solenidades oficiais, chulearam pelos gabinetes e se responsabilizaram pelas churrasqueadas do poder. Esse processo de oficialização dos tradicionalistas resultou na “federalização” autoritária, com um centro dominador (ao estilo do positivismo), com a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1967. Autoritário, ao estilo do espírito de caserna dos donos do poder, nasceu como órgão de coordenação e representação. Enquanto o general Médici, de Bagé, era o patrão da Ditadura e responsável, juntamente com seu grupo, pelos trágicos anos de chumbo que enlutaram o Brasil na tortura, na execução, na submissão à censura, na expulsão de milhares de brasileiros para o exílio, os tradicionalistas bailavam pelos salões do poder. Paradoxalmente, enquanto muitos freqüentadores de CTGs eram perseguidos ou impedidos de transitarem suas idéias políticas no âmbito de suas entidades, o Tradicionalismo oficialista atrelou o movimento ao poder, pervertendo o sentimento de milhares de pessoas que nele ingressaram motivados por autênticos sentimentos lúdicos de pertencimento e identidade fraterna.

f) Através da relação de intimidade com a ditadura, o MTG conseguiu “criar” órgãos estatais de invenção, difusão e educação tradicionalista, ao mesmo tempo em que entregou, ou reservou diversos cargos “públicos”, para seus ideólogos, sob os títulos de “folclorista”, “assessor cultural”, etc.

g) O auge do processo de colaboração entre a Ditadura e o MTG foi a instituição do IGTF – Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, em 1974, consagrando uma ação que vinha em operação desde 1954. A missão era aparentemente nobre: pesquisar e difundir o folclore e a tradição. Mas do papel para a realidade existe grande diferença. Havia um interesse perverso e não revelado. A constituição do quadro de pessoal, ao contrário da inclusão de antropólogos, historiadores da cultura, pessoas habilitadas para a tarefa (que deveriam ser selecionadas por concurso público), o critério preponderante para assumir os cargos era, antes de tudo, a condição de tradicionalista. Assim, um órgão de pesquisa, mantido pelo dinheiro público, transformou-se em mais uma mangueira do MTG. Com o passar dos anos, os governos que tentaram arejar o IGTF, indicando dirigentes menos dogmáticos, invariavelmente, entraram em tensão com o MTG.

h) Essa rede de usurpação do público pelo Tradicionalismo, por fim, atingiu a força de uma imanência incontrolável. Em 1985, já na redemocratização, o MTG conseguiu que a Assembléia Legislativa instituísse o Dia do Gaúcho, adotando como tipo ideal o “modelo” tradicionalista.

i) Em 1988, com uma manipulação jamais vista na vida republicana, o MTG se mobilizou pela aprovação da lei estadual que estabeleceu a “obrigatoriedade do Ensino de Folclore”; na regulamentação, a lei determinou que o IGTF exercesse a função de “suporte técnico”, sem capacitá-lo pedagogicamente. De fato, passou a ocorrer uma relação direta entre as escolas e os CTGs. Dessa maneira, o Tradicionalismo entrou no sistema educacional, transgredindo a natureza da escola republicana como lugar de estudo e saber, e não de culto e reprodução de manuais. Hoje, os alunos são adestrados pela pedagogia de aculturação e cultuação tradicionalista.

j) Por fim, em 1989, a roupa tradicionalista recebeu o nome de “pilcha gaúcha”, e foi convertida em traje oficial do RS, conforme determinação do MTG.

12. O grande poncho do MTG, por derradeiro, foi tecido pela oficialização dos símbolos rio-grandenses, emanados diretamente do simulacro da “república” dos farroupilhas.

III – Em defesa de uma cultura que respeite os tempos de registro histórico-cultural e de representação contemporânea e sua densidade histórica.

13. Somos contra o MTG, porque consideramos indispensável para a cultura regional distinguir os fenômenos da história dos da memória, identificar os eventos em seus tempos históricos e desenvolver um conhecimento em que os tempos históricos não sejam diluídos nas celebrações contemporâneas e seus interesses ideológicos, culturais e econômicos. A “institucionalização” de uma cultura cívica e de lazer tradicionalista como “legitimidade”, reforçada e inserida na indústria cultural pilchada, impõe uma visão da sociedade e do passado, segundo a ótica dos interesses dos indivíduos que operam socialmente na atualidade. Através dessa falsa “historicidade”, eles se legitimam como “autênticos” e podem especular com este inventivo “selo de qualidade”.

14. Somos contra o MTG, porque a sua atividade de militância “aculturadora”, ressignificando símbolos, ícones, eventos históricos, em um espaço praticado e imaginado como o ethos de uma estância atemporal, empobrece culturalmente o Rio Grande do Sul e, de fato, relega etnias e grupos sociais, historicamente importantes, à massa dos “sem-simbologia”.

15. Somos contra o MTG, porque o seu controle e patrulhamento vigora sobre a sociedade como um espectro opressivo, em muitos casos como uma maldição, como uma ameaça punitiva, desclassificativa daqueles que não ideologizam as pilchas ou não se enquadram nos modelos “humanos”, geralmente caricaturais, decretados pelo MTG.

16. Somos contra o MTG, porque aqueles que se libertam de sua doutrina, depois do longo processo de adestramento, geralmente iniciado na infância, enfrentam traumas de identidade, especialmente ao descobrirem suas “versões manipulatórias” da história, como a de que o povo do Rio Grande do Sul se levantou contra o Império, ou que os farroupilhas eram republicanos.

17. Somos contra o MTG, porque ele pratica a demência cronológica e estatística, impondo a deturpação de que o povo se levantou contra o Império e os imigrantes e seus descendentes também cultuaram a Revolução Farroupilha, quando, quase em sua totalidade, sequer estavam no RS entre 1835 e 1845. Se um dia aportaram no Brasil, isso se deve ao projeto de colonização do Império. Os projetos de colonização fundamentais, que contribuíram para a formação do Rio Grande do Sul contemporâneo, não pertenceram aos farroupilhas.

18. Somos contra o MTG, porque ele ajudou a instituir e alimenta em seu calendário de celebrações, nas escolas, na mídia, um panteão de “heróis”, na sua maioria senhores de escravos.

19. Somos contra o MTG, porque ele é uma força militante ideológica e cultural que trabalha contra a criação de uma mentalidade ilustrada; a transposição para o presente de personagens do antigo regime, como “lumes tutelares” a serem adorados, impediu que se fizesse, nesse particular, um movimento cultural com a densidade dos princípios consagrados pela Revolução Burguesa.

20. Somos contra o MTG, por ele ter transformado a população em adoradora de senhores de escravos (no geral, sem saberem).

21. Somos contra o MTG, especialmente, porque defendemos o RS da inclusão, da convivência multicultural, de todas as indumentárias, de todos os ritmos, de todas as danças, de todas as emoções, de todos os trabalhos e ofícios, de poéticas de múltiplos espaços, e não da territorialidade simbólica exclusiva do pampa.

22. Somos contra o MTG, porque desejamos construir espaços poéticos que representem também a complexidade de nosso tempo.

23. Somos contra o MTG, porque, em defesa dos postulados da liberdade de criação e de comportamento, do saber sobre o culto inócuo e ideologicamente manipulador, o identificamos como o instrumento preponderante de negação dos direitos elementares da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

24. Somos contra o MTG, por se tratar de um movimento de interesse hegemonizador sobre a sociedade sul-rio-grandense, de caráter privado, que transgride a sua esfera particular, para operar um autoritarismo de conversão dogmática da população a um estilo gauchesco, inventado e normatizado por seus membros, como expressão estilística de um pretenso gentílico de conteúdo e forma cívico-ufanista.

25. Somos contra o MTG, porque, ao se transformar arbitrária e oficialmente em uma imagem gentílica, se converteu em um movimento de intolerância cultural no Rio Grande do Sul e em outras regiões do Brasil e do mundo, através de instalações de CTGs que não respeitam as culturas locais, que invadem como intrusos localidades de tradições milenares, usurpando seus espaços, destruindo sua poética popular e deturpando sua arquitetura. Nessa operação, o Tradicionalismo não é uma “representação” aceitável da cultura sulina, mas o instrumento de uma “aculturação”, da não inserção dos grupos migrantes nas culturas locais, transformando-se, de fato, em agente de destruição.

26. Somos contra o MTG, porque, ao se converter em uma representação do Rio Grande do Sul e exercitar sua arrogância aculturadora em outros espaços sócio-culturais, fazendo uma escolha pela não inserção e respeito às populações do restante do Brasil e do mundo, está desencadeando movimentos de reação discriminatória contra os “gaúchos”. Devido às posturas dos tradicionalistas, tornam-se cada vez mais freqüentes campanhas populares de “Fora gaúchos” em outros estados da federação, confundindo os “tradicionalistas” com os “rio-grandenses”, jogando sobre o povo do RS um estigma motivado unicamente pelo “cetegismo”. Essa militância tradicionalista contribui, de fato, para a difusão da intolerância na população sulina.

27. Somos contra o MTG, por considerá-lo agente de um dano irreparável à maioria dos sul-rio-grandenses frente ao Brasil, pois defendemos princípios de identidades regionais harmonizados com as genuínas culturas locais das demais regiões brasileiras.

28. Somos contra o MTG, por ele se apresentar militantemente em outras unidades da federação, em seu extremo, como uma “etnia gaúcha”, deturpando a formação multi-étnica sul-rio-grandense, e ofendendo, além de tudo, os conceitos mais elementares da Antropologia.

29. Somos contra o MTG devido a sua soberba de pressionar outros estados brasileiros para adotar a “pilcha gauchesca” como traje oficial, produzindo ainda maior rejeição aos sul-rio-grandenses.

30. Somos contra o MTG no Rio Grande do Sul e nos demais estados brasileiros pela sua articulação incessante para se transformar na cultura oficial, ou ser reconhecido como “uma representação externa”, e desejar se constituir em guardião dos símbolos, dos ícones e do imaginário do povo.

31. Somos contra o MTG, porque, como entidade privada, ele tange, em sua arreada intolerante, grande parte das verbas públicas dos setores da cultura, da educação, do turismo, da publicidade e da Lei de Incentivo à Cultura das empresas estatais, fundações e autarquias, para o seu imenso calendário de eventos, onde, nem sempre, se distingue a cultura do turismo e do lazer.

a) Em defesa da cultura rio-grandense postulamos pela instalação de uma CPI na Assembléia Legislativa, para investigar a transferência de verbas e infra-estruturas públicas para as atividades tradicionalistas, o que caracteriza flagrantemente uma usurpação do patrimônio público.

b) Reivindicamos audiências públicas ao Conselho de Cultura, para discutir a canalização da LIC para um excessivo predomínio de projetos tradicionalistas, muitos de caráter turístico e de lazer, iludindo a natureza da Lei.

c) Alertamos e igualmente reivindicamos audiências públicas ao Conselho de Educação, para discutir a deturpação dos currículos e dos princípios de Educação Pública, em conseqüência da infestação, da usurpação e da distorção pedagógica representada pela invasão tradicionalista nas escolas, substituindo os preceitos do “saber”, do “estudar”, pelo “culto” e pelos “manuais” tradicionalistas. O indicativo dessa distorção e atropelo obscurantista é a transformação do próprio espaço escolar, com a criação de “piquetes” e “invernadas artísticas”. Essa situação revela a falência pedagógica da escola, o abandono de sua natureza laica e republicana. Os alunos são induzidos a comportamentos e práticas dogmáticas, adestradoras, apresilhados a uma identidade questionável, originada em um mito fundante. Essa escola doutrinariamente cívica, “gentílica” e de “orgulho gaúcho” exercita a fé, a pertença alienada. Ela significa a falência da Educação. Por essa razão, reconhecemos como legítima a revolta daqueles professores que rejeitam a sua conversão em instrumentos de realização do calendário tradicionalista, como se fossem meros executores de seus manuais dentro dos educandários. Reconhecemos como legítima a resistência dos professores às pressões para serem transformados em pregadores pelas direções, pelo poder e por alguns ciclos de país e mestres, pois esse enquadramento significa a negação de suas funções constitucionais de educadores.

32. Somos contra o MTG, porque, entre todas as suas deturpações, a mais grave é representada pela sua própria oficialização, cujo corolário é a ambição de instituir como “legalidade” a sua versão da história, através de uma legislação introduzida progressivamente na esfera pública. Em alguns processos judiciais contra pessoas transformadas em réus, por terem feito crítica ao Tradicionalismo ou aos seus atos, os advogados do MTG argumentam com “base” em leis que os parlamentares tradicionalistas criaram, em decretos de seus executivos, em “epistolas” de seus ideólogos.

33. Somos contra o MTG, porque, devido à sua ação de controle cultural, uso das verbas públicas, interferência nos currículos escolares, vigilância sobre os meios de comunicação, imposição manipulatória de uma idéia de “história” que converteu em “heróis” senhores de escravos, sua hegemonia e operação militante no Estado, na sociedade civil e no senso comum, contribui para a mediocrização do Rio Grande do Sul em seus aspectos culturais, de inserção moderna e respeitosa no Brasil e na América, produzindo uma incapacidade de leitura crítica da sociedade rio-grandense e do mundo. Nas últimas décadas, os acontecimentos culturais populares importantes se constituíram na relação e na contradição com o Tradicionalismo. Na maioria dos casos tiveram que superá-lo, ou negá-lo, para sobreviverem e afirmarem os seus espaços estéticos.

34. Somos contra o MTG em sua usurpação do público, mas, por outro lado, ainda como manifestação de nossos princípios republicanos, defendemos o MTG quanto ao seu direito privado, ao seu exclusivo espaço cultural, à noção de que ele é apenas um segmento interpretativo da história e da cultura do Rio Grande do Sul, sem que as suas convicções singulares tenham a ambição e a ação militante ilegítima de “aculturação” das demais esferas sociais e culturais do estado, sem que se coloque no topo de uma hierarquia dominante e exclusivamente gauchesca da identidade.

35. Somos contra o MTG, exclusivamente, no que tange à usurpação das esferas públicas e à coerção de nossos direitos civis, culturais e estéticos.

36. Somos contra o MTG, porque identificamos nele a alimentação de uma sinergia cultural que atolou o Rio Grande do Sul no passadismo conservador, criando uma força de pertencimento que bloqueia o desenvolvimento de uma energia socialmente humana moderna, humanista, republicana, respeitosa com os sentimentos historicamente multiculturais da população rio-grandense.

37. Somos contra o MTG, porque nos sentimos reprimidos, cerceados e vitimizados, cultural e profissionalmente, por ele, identificando-o como uma força militantemente dogmática contra os nossos direitos e cidadania.

38. Somos contra o MTG, porque defendemos o Folclore representativo da nossa multiplicidade étnica, consideramos as frações da Tradição que expressam as relações humanizadas e o espírito solidário do povo sul-rio-grandense, a Cultura Popular, os espaços efetivos para uma cultura que expresse nossa historicidade, desde o passado até a atualidade, e, principalmente, porque postulamos uma estética sem embretamentos, capaz de apreender a complexidade regional com suas particularidades e conexões universais.

Rio Grande do Sul, março de 2007.

06/08/2006

[ hamlet ]

Hamlet é a peça mais famosa de William Shakespeare, mas isso não impede que a montagem dirigida por Luciano Alabarse seja a primeira com texto integral realizada no Rio Grande do Sul. A peça fez sua estréia no início de julho no Theatro São Pedro e agora retornou no palco do Renascença. Com ingressos a R$ 20,00 (e 50% de desconto para estudantes, professores e maiores de 60 anos), ninguém pode deixar de assisti-la.

O texto tem tradução de Lawrence Flores Pereira, professor da UFSM, e dramaturgia de Kathrin Rosenfield, professora da UFRGS. É provável que Alabarse teria conseguido o mesmo resultado sem esse apoio, por mais importante que tenha sido, mas talvez isso levasse a peça a gestar por mais tempo. De qualquer forma, quem assiste à produção tem a nítida noção de que se existissem mais nove diretores como Luciano Alabarse no teatro gaúcho, seríamos referência na área para todo país.

O problema do teatro gaúcho é que os atores e diretores acreditam que só conseguirão sobreviver montando espetáculos infantis ou comédias non-sense e o tradicional pastelão. Alabarse provou, com a curta tempoarada no São Pedro, que não é necessário ser engraçado para ter a casa cheia. Eu mesmo tentei assitir à estréia, mas quando cheguei para comprar o ingresso era tarde demais.

Não estou dizendo que não é bom existirem comédias. O problema aqui no Rio Grande do Sul é que elas dominam o teatro gaúcho, e o pior é que são todas parecidas, recheadas de clichês que todos já vimos em seriados como Seinfeld, Sex and the city e Friends, ou mesmo n’A Grande Família, n’Os Normais e em Sexo Frágil. Até os títulos dessas peças remetem a essas séries: Manual Prático da Mulher Moderna, Se meu ponto G falasse, Homens de perto… As montagens não são ruins, os atores são alguns dos melhores que fazem teatro por aqui, mas faltam no teatro gaúcho diretores que ousem, que criem obras consistentes, que montem clássicos e peças modernas (mas sem essa história de minimalismo ou pós-modernidade, por favor).

Alabarse não é o único a desenvolver um teatro de qualidade. Temos Ramiro Silveira, Roberto Oliveira, Patrícia Fagundes, entre outros poucos. Mas a direção executada em Hamlet é a melhor dos últimos anos. A peça conta com mais de 20 atores, e vários deles participam da orquestra de panelas que executa a trilha sonora ao vivo, remetendo à música popular da época em que a peça foi escrita (entre 1600 e 1602 e impressa pela primeira vez em 1603). Cada detalhe da montagem parece ter sido minuciosamente trabalhado, desde um simples gesto de um personagem coadjuvante até o cenário limpo, sem cortinas, que permite ao público visualizar a preparação de cada ator antes de entrar em cena.

Além da ótima direção, os atores captaram muito bem a alma de cada personagem da tragédia. Ida Celina transmite exemplarmente as dúvidas da Rainha Gertrudes, Carlos Cunha Filho encarna um Rei Claudio cheio de ironia e perturbações, José Baldissera é um Polônio patético, engraçado, mas também triste, tudo na medida certa. Mas as grandes atuações ficam mesmo para Evandro Soldatelli (na foto acima) e Ekin, que vivem Hamlet e Ofélia, respectivamente. O pudor, no início, e a loucura, depois, são os elementos básicos de Ofélia, reconhecidos por Ekin com maestria. Não é à toa que é um dos personagens mais difíceis de Shakespeare, considerado um enigma por centenas de atores, diretores e dramaturgos. E Soldatelli é um Hamlet debochado, irônico, louco, desesperado. Sua interpretação acompanha de maneira exata os altos e baixos do príncipe da Dinamarca. Mais do que um desafio, Soldatelli parece ter recebido a proposta de interpretá-lo como um presente.

Mas presente mesmo é o que esta montagem oferece ao público. Assistindo a uma boa encenação de uma peça cheia de traições, mortes e reviravoltas, é inevitável associá-la ao que estamos presenciando nos noticiários. Hamlet nos ajuda a refletir sobre a situação política do país e do mundo. Só nos resta esperar que mais diretores tenham coragem e ousadia para montar mais Shakespeare, mas também Beckett, Ibsen, Nelson Rodrigues…

(E não se esqueçam, a temporada de Hamlet, que tem quase três horas de duração com um intervalo de dez minutos, vai até o dia 27 de agosto, no Renascença. Sextas e Sábados às 21h, e Domingos às 18h. O Renascença tem estacionamento próprio. Não percam!)