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11/02/2009

Ditadura na Ópera: mais amadorismo…

Pensei em começar este post reproduzindo graficamente os sons das minhas risadas que vão acabar acordando as pessoas devido ao adiantado da hora. Eu não ia escrever nada agora, mas um jovem professor da área de Letras e estudante de mestrado em Artes Cênicas entrou em contato comigo pra me indicar uma pérola da burrice e da contradição humanas.

Vamos aos fatos: há algum tempo escrevi uma crítica sobre o espetáculo Ópera do Malandro, dirigida pelo Ernani Poeta, que comanda o grupo Coro dos Contrários. Como vocês podem conferir lá, na minha opinião, o Chico Buarque não teria aprovado a montagem de seu texto pelas mãos desse grupo caso tivesse tido a oportunidade de assistir à peça. Tá, não é uma oportunidade, porque ela é uma das piores peças a que já assisti, tanto no Rio Grande do Sul quanto fora. Mas enfim, vocês entenderam o recado.

O fato é que o Rodrigo Monteiro escreveu sobre a peça recentemente, acredito que por causa das apresentações no Porto Verão Alegre e inclusive indicou o link do seu blog aqui nos comentários. Eu registro desde já que não concordo com tudo que ele escreveu. Acho que a direção não deveria ter feito tantas opções quanto fez, deveria ter se atrelado mais ao texto original. Dessa forma, os riscos eram menores. E um grupo novo, com atores inexperientes, não pode e não deveria se arriscar tanto, ainda mais em se tratando de um grupo que tem cerca de 15, 20 atores no palco. O Rodrigo acha que, já que o Poeta optou por adaptar o texto, essa adaptação deveria ter sido mais radical. Ok, cada macaco no seu galho, pra não fugir do clichê original (no sentido de origem, claro)…

O que me chamou a atenção pro texto do Rodrigo foi uma crítica feita por um certo Anônimo ao que ele (Rodrigo) escreveu e que, lá pelas tantas, faz referência a minha singela pessoa. Já fiz comentários a respeito do anonimato na internet numa outra oportunidade. Mesmo não gostando, isso existe, é permitido e é bom que seja assim, porque sempre tem alguém com medo de assumir publicamente sua posição, sua opinião, seu pensamento. Eu nunca xingaria ninguém sem assumir minha identidade, mas tudo bem. De repente o cidadão fica com medo de ser processado, sei lá…

O fato é que fui ofendido. O Anônimo me chama de ignorante… Agora sim: hehehehehehehe… Bom, vamos enfim ler (e não ver) por que estou rindo. Para tanto, reproduzamos alguns trechos do comentário do Anônimo:

“A obra da década de 70 é ambientada nos anos 40, justamente pela semelhança histórica. Acabamos de completar 40 anos do AI-5, não seria um bom momento para mostrar uma peça que fala de uma ditadura para não falar de outra? A materialidade histórica que se reflete na linguagem do texto demonstra as relações de poder que continuam as mesmas desde sempre.”

A minha sensação é de que ele não sabe o que é materialismo histórico. Mas não quero dispersá-lo, caro leitor: por favor, concentre-se na primeira parte do trecho acima. Ok?! Agora leia este:

“Esse é o mal da internet: qualquer um, envaidecido com seus conhecimentos limitados, tem a pretensão de achar que tem condições de escrever uma crítica. Um bom crítico, com as bases e os conhecimentos para criticar teatro, sabe identificar aspectos negativos e positivos num espetáculo.”

A internet é o primeiro veículo de comunicação que a humanidade inventou que possibilita que qualquer um, em qualquer lugar do mundo, possa transmitir suas idéias de maneira livre e honesta sem depender de um grande conglomerado midiático. O Anônimo não devia ficar ofendido com o fato de que o Rodrigo escreveu uma crítica ruim sobre a peça (também porque a peça do Coro dos Contrários realmente é ruim). O Rodrigo está prestando um excelente serviço à comunidade teatral gaúcha: ele assistiu a muitos espetáculos recentes e escreveu longos comentários sobre eles. Não cabe aqui julgar os comentários. O simples fato do blog existir já deveria ser motivo de sobra para atores e diretores comemorarem. Afinal, acredito que ele, como eu, paga para assistir a um espetáculo. Pô, um pagante, que saiu de casa (correndo risco de ser assaltado, assassinado, de se envolver num acidente, etc, afinal nossas ruas e nossos teatros não são muito seguros e a maioria dos teatros não fica em locais seguros), que entrou numa fila para comprar seu ingresso, para sentar lá (às vezes em poltronas desconfortáveis), que assistiu a todo espetáculo, que voltou pra casa e, pior ainda, chegou em casa e escreveu sobre o que assitiu deveria ser motivo de orgulho independente da crítica ser positiva ou negativa. Pior seria ignorar completamente o espetáculo…

Mas o problema do Anônimo não é esse. O problema dele é com a liberdade que a internet proporcionou a milhares de pessoas falar o que pensam sobre qualquer coisa, mesmo não dominando totalmente o assunto. Então, vejam bem: ele está defendendo o espetáculo Ópera do Malandro, que ataca a ditadura, mas não quer aceitar que uma pessoa escreva e publique na internet que não gostou da peça. Isso não é sinal de ditadura?!

E aí ele me ataca:

“Postar um comentário na página daquele completo ignorante que fez uma ‘critica’ anterior naquele outro blog é realmente queimar o filme para alguém que pretenda ser sério.”

Quisera eu ser um completo ignorante… Certamente, seria muito mais feliz, não sentiria pena das pessoas que morrem de fome, assassinadas, da burrice humana, não sentiria raiva dos corruptos, dos bandidos, não assistiria a shows, filmes ou espetáculos cênicos, não freqüentaria exposições, não compraria e muito menos leria livros. Aí fico sem entender algumas coisas: por que ele colocou a palavra “crítica” entre aspas no seu comentário no post do Rodrigo? Por que ele acha que sou ignorante? Se ele quis dizer que fui ignorante no sentido de ter sido cruel ao tecer meus comentários sobre a Ópera do Malandro, talvez ele esteja certo, mas não é isso que parece. Acho que ele quis dizer que eu sou ignorante mesmo, no sentido mais literal da palavra. E cruel talvez eu tenha sido, mas injusto não. Afinal, comentei o que vi no dia em quem assisti ao espetáculo, argumentando e explicando meu ponto de vista. Minha crueldade foi toda embasada em fatos retirados da peça. Se isso não é crítica, o que é?!

O Anônimo certamente não sabe que eu fiz teatro durante anos, que trabalhei com grupos teatrais, que tenho muitos amigos atores, que freqüento os espetáculos sempre (e não só no POA Em Cena; o Porto Verão Alegre não vale a pena porque são sempre as mesmas peças ruins ou batidas, mas já escrevi sobre isso também). Também não deve saber que eu ministrei uma cadeira na UFRGS em 2008/1 chamada Literatura Dramática Brasileira. Só espero que o anônimo saiba o que é drama realmente… Porque ele não precisa saber essas coisas a respeito de mim, embora ele não pudesse me ofender dessa forma. Agora, se ele não sabe o que é drama, aí saberemos quem é o verdadeiro ignorante (aqui, no sentido de burro).

Vida longa ao blog do Rodrigo!

E roubando as palavras do professor Claudio Moreno: “ao falecer, coloquem como epitáfio em minha lápide: ‘lutou contra a ignorância, mas foi vencido. Eram muitos’”.

30/11/2008

Muitas capitus…

Elisa LucasHá duas semanas, fui assistir ao espetáculo Confesso que capitu, da minha amiga Elisa Lucas. Trata-se de um monólogo, dirigido pelo Roberto Birindelli, escrito pela própria Elisa, que interpreta a personagem mais misteriosa da Literatura Brasileira: Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Devo confessar que uma adaptação desse tipo normalmente me deixa apreensivo. É difícil transpor para o palco uma adaptação inteligente de um livro tão importante e fascinante. Mas Elisa consegue superar essa dificuldade muito bem. Na realidade, ela não interpreta Capitu do início ao fim: a peça traça um paralelo entre a personagem e uma moça que descobre a personagem. Com engenho, Elisa encarna as várias facetas dessa mulher sedutora, infeliz, que detona o conflito psicológico do pobre Bento Santiago.

Quem não assistiu ao espetáculo, tem a oportunidade de conferi-lo nesta semana. A peça de Elisa está dentro da programação do VII Fórum de Literatura Brasileira e II Fórum de Literatura Portuguesa e Luso-Africanas, que ocorre de terça a quinta, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues (Érico Veríssimo esquina com Ipiranga) e na Escola Técnica da UFRGS (Ramiro Barcellos esquina com Ipiranga). As apresentações da peça serão na Sala Álvaro Moreyra (no Centro Municipal de Cultura), às 21h de terça e quinta, dias 02 e 04 de dezembro. Para os participantes do Fórum, haverá desconto especial (mas confesso que agora não sei os valores exatos…).

E na semana que vem, estréia na Globo a minissérie Capitu, também baseada em Dom Casmurro. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a narrativa terá uma linguagem não-realista, que está se tornando a marca do diretor (vide Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino), e faz parte do projeto Quadrante, que ainda adaptará Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Dançar Tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.

Michel Melamed como BentinhoNormalmente, Carvalho é muito feliz nessas suas aventuras que misturam literatura, cinema e artes visuais. Vamos aguardar o dia 09/12 pra ter certeza de que a coisa é tão boa quanto parece. Pelo menos, acho que numa coisa ele já certou: Michel Melamed vivendo o Bentinho adulto. (Já a Maria Fernanda Candido interpretando a Capitu adulta me parece um tiro no pé. Ela já viveu uma Capitu naquele filme Dom, uma das maiores porcarias do cinema nacional. Apesar disso, acho que o Carvalho é um diretor muito mais inteligente do que o Moacyr Góes e deve ter aproveitado o que ela tem de bom. Veremos.)

05/08/2008

Dica

Acho que nunca tinha escrito tanto por aqui num só dia.

Bom, pra quem se interessou pela Não sobre o amor, vale a pena conferir os textos da Daniele Avila e do Daniel Schenker na melhor revista de crítica teatral do país: a Questão de Crítica. É muito bom um veículo como esse: além da qualidade dos textos, a revista é organizada e tem um layout bacana. Eu só gostaria de ver mais textos sobre espetáculos que costumam circular fora do eixo Rio-São Paulo.

Teatro em BSB II: Não sobre o amor

Certamente, a melhor peça brasileira de 2008: Não sobre o amor é dirigida por Felipe Hirsch, provavelmente o diretor brasileiro mais inventivo dos últimos quinze anos. A peça é uma troca de cartas entre Alya e Victor Shklovsky interpretados, respectivamente, por Arieta Corrêa e Leonardo Medeiros. São tantos elementos que chamam a atenção (num espaço tão pequeno) que é impossível descrever todos os detalhes.

De qualquer forma, a peça não é simplesmente epistolar: é poesia do começo ao fim. Alya pede ao seu correspondente que pare de lhe escrever sobre o amor, o que explica o título. A personagem criada por Victor Shklovsky (1893-1984), um dos principais representantes do formalismo russo é baseada em Elsa Triolet, que era irmã de Lilia Brik, amante do poeta russo Vladimir Maiakovski.

A peça começa com Leonardo posicionando-se numa cama instalada na parede. A partir de então, o espectador compreende com facilidade que a intenção do diretor era obrigá-lo a observar de cima a situação desses personagens. O espectador está no teto, ou no céu. A partir de então somos levados através de uma corrente de imagens e legendas contendo informações sobre a trama que vão se projetando sobre cenário e atores como se estivéssemos num cinema. Poderia ser apenas um recurso moderninho (quem freqüenta este blog sabe que sou um pouco conservador para artes), mas contribui de maneira sensível para o drama de Victor, que se vê impedido de falar sobre amor, como já comentado.

Mais do que isso: o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília é relativamente grande, devia ter espaço para uns 200 espectadores, mas foi diminuído pela metade propositalemente para a apresentação da peça. É como se estivéssemos realmente dentro do quarto ao inverso. O drama de Victor ganha força com essa proximidade, que contrasta estranhamente com o distanciamento que ele tem de Alya, já que está exilado na Alemanha.

Um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar.

É fácil ser cruel. Basta não amar.

Ao escrever, não fale sobre o quanto, quanto, quanto, quanto me ama. Porque no segundo quanto eu já estou pensando em outra coisa.

Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo. A ironia devora as palavras. É a maneira mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas.

Pelos trechos acima, dá pra notar que esta é mais uma peça imperdível e que não tem previsão de vir a Porto Alegre. É uma pena que ela não esteja escalada para o Em Cena. Talvez o público daqui não seja tão dedicado quanto o necessário, como Felipe Hirsch declarou numa entrevista para a Gazeta do Povo, de Curitiba:

Li uma reportagem na qual você pede paciência ao público. É seu espetáculo mais difícil?
Pedi paciência para Thom Pain – Lady Grey. Mas quase ninguém teve (risos). Acho que a melhor platéia é a dedicada. Infelizmente, existe cada vez um menor número de dedicados. Querem entretenimento. Pronto, rápido. Sem mediação. “Smells Like Teen Spirit” (hit do Nirvana), sabe? Pedir paciência é uma chamada de atenção. Olha, não seja precipitado, você está diante de algo original, mas que depende também de você. O leitor é cada vez mais importante no desenvolvimento conceitual de novas idéias. Mas grande parte do público está cada vez menos preparado. Isso é ilógico, não?

Se não tivéssemos um teatro tão preocupado em ganhar dinheiro com bobagens engraçadinhas, se tivéssemos mais do que quatro ou cinco diretores preocupados em formar um maior público sério, crítico, inteligente, talvez o pedido de paciência de Hirsch não seria necessário em Porto Alegre. O que ameniza a gravidade disso é que, pelo visto, a busca do público por entretenimento pronto, rápido, sem mediação não é um problema apenas aqui da província, como ele comprova acima…

Não sobre o amor

(Outro problema grave do teatro gaúcho é o sotaque. Quando se assiste a uma peça de São Paulo ou do Rio, não dá pra afirmar que os atores são cariocas, paulistas, pernambucanos, sergipanos… Parece que aqui os atores e diretores gaúchos fazem questão de mostrar que é possível adaptar a linguagem de Moliére ao sotaque gaúcho. Os melhores atores gaúchos são aqueles que não têm sotaque.)

Veja um trecho da peça:

Teatro em BSB I: Zona de Guerra

zona de guerra

Uma das coisas boas de viajar é poder conferir as atrações culturais de outras cidades. Nos cerca de 10 dias que passei em Brasília, consegui assistir a duas peças. A primeira, na sexta-feira 25/07/08, chama-se Zona de Guerra. A segunda, no domingo 27, Não sobre o amor. Esta merece um post muito especial, que virá em breve. Fiquemos com a primeira, por enquanto.

Zona de Guerra é uma montagem da Cia. Triptal, de São Paulo, que integra o projeto Homens ao mar e que trabalha com textos do início da carreira do dramaturgo Eugene O’Neill.

Confesso que eu não conhecia esse texto do O’Neill. Talvez por isso eu tenha ficado muito impaciente durante os primeiros quinze silenciosos minutos da peça. Depois que os atores começam a dar seu texto, a apreensão de que a peça poderia ser uma porcaria pós-moderna se transforma numa angústia que ficou pra trás, porque o tom angustiante só aumenta a partir de então. Acho que eu nunca tinha saído de uma peça que inicialmente parecia chata, mas que revelou-se um espetáculo fabuloso.

A trama se passa durante a I Guerra Mundial: um grupo de marinheiros transporta munição dos EUA para a Inglaterra. O clima de medo é constante, já que eles podem acabar sendo atingidos e tudo pode ir pelos ares. Se a explosão física não ocorre, uma transformação psicológica acaba detonando uma explosão muito mais sofrida.

Os marinheiros começam a suspeitar de um colega, que guarda uma caixa preta com conteúdo desconhecido. Se fosse um espião, todos poderiam estar comprometidos. Mas só saberiam se abrissem a caixa, o que, claro, acaba ocorrendo, mas é aí que ocorre a transformação de todos e só resta lamentar que não é possível mais dormir, de acordo com a fala do último personagem que se manifesta nessa peça impecável.

Para minha alegria, ela estará no 15ª Porto Alegre em Cena. Além disso, o grupo dirigido por André Garolli também apresentará Longa viagem de volta pra casa, também do projeto Homens ao mar, também de O’Neill. Imperdível!

21/04/2008

ópera amadora

Uma das minhas intenções nesse blog é divulgar e comentar eventos culturais interessantes que estão rolando, em especial, aqui em Porto Alegre. Costumo freqüentar as poucas opções culturais que temos e, sempre que considero interessante, escrevo sobre. No último sábado, fui até a exposição da Anne Frank na Usina do Gasômetro. Vale a pena conferir, embora eu esperasse algo mais, não sei bem o quê. Depois, fui até o File – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, no Santander. Achei essa exposição interessante, acho que as obras demonstram um caminho que a Arte está começando a trilhar, mas ainda não vejo a arte eletrônica como algo consolidado.

Mas não poderia deixar de comentar de maneira mais detalhada a Ópera do Malandro, dirigida pelo Ernani Poeta, responsável pelo grupo Coro dos Contrários. Assisti à montagem ontem, no Teatro Bruno Kiefer da CCMQ, e já na primeira cena fiquei decepcionado. Os quatro atores que abrem o espetáculo cantavam baixo e sem emoção O Malandro. E a peça inteira seguiu esse ritmo. A maior parte do elenco não sabe cantar, dançar ou atuar e nenhum dos atores sabia fazer nem duas dessas três coisas. Tive a impressão de que estava diante de um grupo amador, que estava fazendo teatro escolar.

Dois exemplos: 1) na segunda cena, em que Duran recebe Fichinha, em vários momentos o ator que interpretava Duran (que, segundo rápida pesquisa pelo Google, é o próprio diretor da peça, Ernani Poeta) ficou dando o texto de costas para o público. Ora, em teatro, quando se está em cena, quando se está falando, nunca se fica de costas para o público. Isso é algo elementar… Eu fiz teatro amador, e no primeiro dia de aula/laboratório recebi essa instrução. Mas não é apenas o ator de Duran que fica de costas. Vários outros atores não sabiam se posicionar. Em alguns momentos, outros atores davam suas falas das coxias do teatro!

2) mais grave: na primeira cena do 2º ato (segundo o texto original de Chico Buarque), momento em que Teresinha ensina inglês aos capangas de Max, a atriz que a interpreta começou a rir sem conseguir se controlar. Além disso, menos de trinta minutos antes do início do espetáculo ela estava tomando chá pela Rua dos Andradas, ao invés de estar se concentrando para o espetáculo. Se não estivesse fazendo isso, talvez conseguisse se controlar durante a apresentação… E talvez esse passeio de uma das protagonistas da peça pela Rua dos Andradas tenha contribuído para o atraso de mais de 15min no início da peça, que estava marcado para as 19h.

Retomando alguns pontos: o texto da Ópera do Malandro, diferente do que está escrito no folder da peça, é do Chico Buarque (sim, porque os R$ 20,00 de entrada dão direito apenas a um folder, e não a um programa decente, que tivesse os nomes da equipe técnica e dos atores com seus respectivos personagens; se algum diretor que assistiu à peça se interessasse por alguns dos atores — uma hipótese pouco provável — não conseguiria descobrir os seus nomes a não ser indo até o camarim no final da apresentação). Aliás, esse erro também foi cometido por três atores do grupo numa divulgação da peça no programa do Tulio Milman na TVCOM: antes de dizer que o texto não é do Chico, que o Chico apenas o musicou, é bom estudar… Aliás, sempre é bom estudar.

Além dos R$ 20,00 serem caros (pelo menos há 50% de desconto para estudante) para um espetáculo mal dirigido que não tem nem um programa, o tal folder, disponível na bilheteria do teatro, está recheado de erros de português. Poxa, antes de entregar pra gráfica o responsável por esse material poderia ter consultado um professor de língua portuguesa, né?! (O dia em que alguém abrir uma gráfica, uma agência de publicidade e uma empresa de construção de sites para internet com professores de língua contratados e fazendo parte do orçamento de cada trabalho, veremos menos erros absurdos estampados nos sites, outdoors, revistas, folders e outros tipos de mídia…)

Mas voltando ao texto: o original foi radicalmente modificado, especialmente no início e no fim da peça. No início, não temos a discussão entre o Produtor e Vitória, como no original. No fim, Max é assassinado, algo que não ocorre no texto original. E sua morte, além de algumas cenas anteriores (como a de Johnny culpando o governo — qual governo? — pela sua situação de homem miserável e bêbado — como se o governo tivesse culpa pela sua dependência –, algo que também não está no original), detona uma panfletagem política que não combina com a peça. Ou melhor, poderia combinar, talvez, mas ela ficou deslocada, perdida nas falas dos atores. Inclusive, a sensação que tive é que nem mesmo eles sabiam por que estavam falando aquilo…

Além disso tudo, eu não permitiria que meu nome fosse apresentado como o do coreógrafo e do figurinista da peça. Os figurinos são feios, mal pensados, não têm unidade. As danças estão mal executadas, mal ensaiadas. Os atores não sabem para onde se dirigir, além de não terem expressão corporal. E não sabem para onde se dirigir nem onde se posicionar nem mesmo quando não estão dançando…

Levando-se em consideração o que escrevi até aqui, a duração da peça é desrespeitosa: 3h, sem intervalo!!! Ok, o texto original é longo, mas ele foi cortado e adaptado pelo diretor, pretensamente, para diminuir a duração do espetáculo, mas isso não ocorreu, porque, como já escrevi acima, foram acrescidas algumas falas que não existem no original, e porque se a peça tivesse ritmo, o público não precisaria ficar 3h sentado. As falas são arrastadas, não há dinâmica nas respostas e nas deixas de um ator para o outro. Se houvesse ritmo, se os atores soubessem apresentar suas falas com mais dinamismo, menos afetação e boa expressão facial e corporal, o espetáculo poderia ter 2h. As trocas de um ato para o outro também deveriam ser mais rápidas.

Um belo exemplo da falta de dinamismo é uma das cenas finais, quando o ator que interpreta Geni está chantageando Chaves, Duran e Vitória: a cena se arrasta, os atores parecem repetir falas, fica-se com a sensação de que o diálogo poderia ser cortado ao meio para se chegar ao único momento razoável do espetáculo, quando esse ator (que interpreta Geni) canta Geni e o Zepelim. Outro exemplo de falta de ritmo na fala, na dança e na expressão corporal é a cena em que as atrizes de Lucia e Teresinha discutem cantando O Meu Amor. Enquanto as duas atrizes que interpretam essas personagens apresentam a canção, outras duas atrizes executam uma dança pretensamente flamenca, fora de ritmo. Até o momento desta cena, eu acreditava que a iluminação era o único elemento que se podia salvar do espetáculo. Mas quando essas duas atrizes começaram a dançar, percebi que nem isso se salvava… A luz, nesse momento, devia ser branca, para realçar as atrizes. Em vez disso, misturavam-se no palco luzes azuis, vermelhas e amarelas…

Uma das atrizes da Ópera entrou em contato comigo através deste blog, especificamente no post anterior a este, que trata da Megera Domada, dirigida pela Patrícia Fagundes. Depois de alguns comentários publicados aqui, trocamos algumas mensagens por e-mail. Num desses e-mails, ela comentou que o grupo não estava ensaiando nos últimos tempos. É claro que um grupo não precisa ensaiar sempre, especialmente se a peça já foi exaustivamente ensaiada e apresentada. Mas no Rio Grande do Sul, é muito se 10% dos atores e diretores teatrais podem dizer que são profissionais. A maior parte das pessoas envolvidas com teatro por aqui tem outras profissões e atividades. Os atores da Cia. Rústica, em sua maioria, são profissionais, pelo menos é o que parece conferindo os nomes de cada um e seus respectivos currículos. Mas mesmo a Cia. Rústica parece ter sofrido com o provável pequeno número de ensaios. Senão, como comentei, não haveria gagueiras nas falas de alguns atores na Megera.

No caso do Coro dos Contrários, fico com a impressão de que eles não ensaiaram nem a metade do que precisavam… Os maiores grupos de teatro do país, o Oficina, dirigido pelo Zé Celso Martinez Corrêa, e o CPT – Centro de Pesquisa Teatral, dirigido pelo Antunes Filho, chegam a ensaiar 12h por dia durante meses. Quem no Rio Grande do Sul faz isso? É claro que esses grupos têm história, estão no centro do país, conseguem com mais facilidade patrocínios privados e incentivos governamentais. Mas, então, qual o objetivo do teatro no Rio Grande do Sul? Fazer teatro amador independente de patrocínio sem contribuir em nada para o teatro nacional e ganhando elogios apenas dos familiares, amigos e da imprensa gaúcha que, em geral, não pratica crítica de verdade? Ou tentar trabalhar com dignidade buscando sempre o melhor? Uma peça como a Ópera do Malandro precisava de atores mais experientes, precisava de mais ensaios e de mais seriedade em todos os seus elementos. Pelo menos, por respeito ao autor da peça.

06/04/2008

megera domada?

Ontem à noite fui assistir à montagem mais recente da Cia. Rústica, A Megera Domada, de William Shakespeare, dirigida e adaptada por Patrícia Fagundes a partir da tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Assim como a excelente montagem de Sonho de uma noite de verão, A Megera Domada nos apresenta com maestria uma linguagem teatral moderna, que dá mais brilho ao espetáculo. Para quem assistiu ao Hamlet, dirigido por Luciano Alabarse, não será difícil identificar alguns pontos semelhantes entre as duas montagens, como a execução da trilha sonora pelos próprios atores, o palco limpo, sem coxias, com os atores preparando-se em frente ao público enquanto aguardam a sua deixa.

Mas não é apenas isso que chama a atenção do público. Assim como em Sonho…, a peça começa com os atores interagindo com a platéia. Antes éramos recepcionados como se estivéssemos chegando a um cabaré. Agora, enquanto o público se ajeita nas (desconfortáveis) cadeiras do Teatro de Câmara, acompanhamos números de dança, piadas, música, tudo executado como se estivéssemos em frente a um show de calouros. Pode parecer bobagem, mas dá um toque de descontração importante para os atores conhecerem e ganharem o público.

Se o cabaré de Sonho… era colorido, exuberante, remetendo ao mundo mágico imaginado por Shakespeare, n’A Megera… há um trabalho aparentemente mais simples com as cores em cena, apenas preto, branco e vermelho. Aparentemente, porque Patrícia Fagundes consegue explorar todas as possibilidades dessas três cores com um belo equilíbrio. Os figurinos dos atores contrastam de maneira perfeita com as luzes e adereços empregados no palco, com gestos e passos de dança milimetricamente ensaiados.

Mas se há essa excelência na pantomima, não se pode dizer o mesmo do texto. Assim como Catarina, o texto de Shakespeare também precisa ser domado. Alguns atores, em alguns momentos, atropelaram suas falas, gaguejaram, o que não chegou a prejudicar a apresentação, mas é uma boa amostra de como o texto de Shakespeare precisa ser ensaiado à exaustão, precisa ser executado por atores que dominem totalmente a sua expressão vocal — sem desmerecer a atuação de ninguém, merecem destaque as atuações de Álvaro Vilaverde e de Felipe de Paula. Álvaro, com sua voz poderosa que vai dos graves em suas falas sorridentemente (?!) irônicas até os agudos mais agradáveis em seus doces cantos; Felipe, provavelmente o mais jovem ator do grupo, com uma capacidade impressionante para o humor e a ironia que ainda melhorará muito, certamente. Mas não quero ser impiedoso, porque o grupo dirigido por Patrícia Fagundes é um dos poucos bons grupos do teatro gaúcho. Foi com muita felicidade que acompanhei a apresentação de ontem, pois, além do grupo, esta é uma das poucas boas peças montadas nos últimos anos no teatro gaúcho, como já discuti no post sobre Hamlet.