Direto do Twitter

30/04/2008

um circo chamado nardoni

Ontem completou-se um mês da morte da menina Isabella Nardoni. Não me interessa discutir essa atrocidade, que me parece sem explicação e sem possibilidade de ser racionalizada. O que acho esquisito é o circo midiático criado em cima dessa morte. Poxa, milhares de pessoas morrem todos os dias no Brasil e no mundo, muitas delas são assassinadas de maneira muito mais brutal e não só por bandidos, traficantes, seqüestradores. No entanto, o Circo Nardoni tomou conta das redes de comunicação do país. É impossível assistir a um telejornal, escutar um programa de rádio ou acessar um portal na internet que não tenha uma informação a respeito do assunto como manchete. A última vez que algo assim ocorreu foi no ataque ao WTC, em 2001.

Ok, as pessoas têm curiosidade, têm necessidade de tentar compreender o que aconteceu. Mas daí para o que está ocorrendo acho que há um exagero: semana passada, numa reportagem da GloboNews, os repórteres perguntavam-se chocados o que levava centenas de pessoas a querer acompanhar o caso tão de perto. Há pessoas viajando centenas de quilômetros para ver o pai e a madrasta de Isabella durante trinta segundos entre a saída de casa e a entrada num carro da polícia. Outros foram conferir de perto a reconstituição do crime no último fim de semana. E os repórteres chocados.

Chocados por quê, pergunto eu? Eles e suas respectivas emissoras são os responsáveis por esse circo que não precisa de ingresso e que pode ser conferido de qualquer lugar do país, embora alguns prefiram conferir ao vivo. Se a mídia não chamasse tanta atenção para o caso, não haveria tanta gente desocupada em frente às residências dos familiares de Isabella e às delegacias onde o caso está sendo investigado.

Ao fazer perguntas como “você conhecia Isabella ou seus familiares? De onde o senhor ou a senhora veio? Por que viajou de tão longe?”, a mídia brasileira está dando sinais de emburrecimento, o que pode parecer paradoxal para alguns… Eu, que ainda acredito que a mídia pode auxiliar no melhoramento do país (até porque senão não estaria aqui escrevendo, embora eu não seja jornalista), acho que esses repórteres deveriam parar de fazer essas perguntas, de auxiliar na organização desse circo e se concentrar no que realmente interessa. Se continuar assim, o Brasil prosseguirá sendo um país de gente majoritariamente ignorante.

21/04/2008

ópera amadora

Uma das minhas intenções nesse blog é divulgar e comentar eventos culturais interessantes que estão rolando, em especial, aqui em Porto Alegre. Costumo freqüentar as poucas opções culturais que temos e, sempre que considero interessante, escrevo sobre. No último sábado, fui até a exposição da Anne Frank na Usina do Gasômetro. Vale a pena conferir, embora eu esperasse algo mais, não sei bem o quê. Depois, fui até o File – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, no Santander. Achei essa exposição interessante, acho que as obras demonstram um caminho que a Arte está começando a trilhar, mas ainda não vejo a arte eletrônica como algo consolidado.

Mas não poderia deixar de comentar de maneira mais detalhada a Ópera do Malandro, dirigida pelo Ernani Poeta, responsável pelo grupo Coro dos Contrários. Assisti à montagem ontem, no Teatro Bruno Kiefer da CCMQ, e já na primeira cena fiquei decepcionado. Os quatro atores que abrem o espetáculo cantavam baixo e sem emoção O Malandro. E a peça inteira seguiu esse ritmo. A maior parte do elenco não sabe cantar, dançar ou atuar e nenhum dos atores sabia fazer nem duas dessas três coisas. Tive a impressão de que estava diante de um grupo amador, que estava fazendo teatro escolar.

Dois exemplos: 1) na segunda cena, em que Duran recebe Fichinha, em vários momentos o ator que interpretava Duran (que, segundo rápida pesquisa pelo Google, é o próprio diretor da peça, Ernani Poeta) ficou dando o texto de costas para o público. Ora, em teatro, quando se está em cena, quando se está falando, nunca se fica de costas para o público. Isso é algo elementar… Eu fiz teatro amador, e no primeiro dia de aula/laboratório recebi essa instrução. Mas não é apenas o ator de Duran que fica de costas. Vários outros atores não sabiam se posicionar. Em alguns momentos, outros atores davam suas falas das coxias do teatro!

2) mais grave: na primeira cena do 2º ato (segundo o texto original de Chico Buarque), momento em que Teresinha ensina inglês aos capangas de Max, a atriz que a interpreta começou a rir sem conseguir se controlar. Além disso, menos de trinta minutos antes do início do espetáculo ela estava tomando chá pela Rua dos Andradas, ao invés de estar se concentrando para o espetáculo. Se não estivesse fazendo isso, talvez conseguisse se controlar durante a apresentação… E talvez esse passeio de uma das protagonistas da peça pela Rua dos Andradas tenha contribuído para o atraso de mais de 15min no início da peça, que estava marcado para as 19h.

Retomando alguns pontos: o texto da Ópera do Malandro, diferente do que está escrito no folder da peça, é do Chico Buarque (sim, porque os R$ 20,00 de entrada dão direito apenas a um folder, e não a um programa decente, que tivesse os nomes da equipe técnica e dos atores com seus respectivos personagens; se algum diretor que assistiu à peça se interessasse por alguns dos atores — uma hipótese pouco provável — não conseguiria descobrir os seus nomes a não ser indo até o camarim no final da apresentação). Aliás, esse erro também foi cometido por três atores do grupo numa divulgação da peça no programa do Tulio Milman na TVCOM: antes de dizer que o texto não é do Chico, que o Chico apenas o musicou, é bom estudar… Aliás, sempre é bom estudar.

Além dos R$ 20,00 serem caros (pelo menos há 50% de desconto para estudante) para um espetáculo mal dirigido que não tem nem um programa, o tal folder, disponível na bilheteria do teatro, está recheado de erros de português. Poxa, antes de entregar pra gráfica o responsável por esse material poderia ter consultado um professor de língua portuguesa, né?! (O dia em que alguém abrir uma gráfica, uma agência de publicidade e uma empresa de construção de sites para internet com professores de língua contratados e fazendo parte do orçamento de cada trabalho, veremos menos erros absurdos estampados nos sites, outdoors, revistas, folders e outros tipos de mídia…)

Mas voltando ao texto: o original foi radicalmente modificado, especialmente no início e no fim da peça. No início, não temos a discussão entre o Produtor e Vitória, como no original. No fim, Max é assassinado, algo que não ocorre no texto original. E sua morte, além de algumas cenas anteriores (como a de Johnny culpando o governo — qual governo? — pela sua situação de homem miserável e bêbado — como se o governo tivesse culpa pela sua dependência –, algo que também não está no original), detona uma panfletagem política que não combina com a peça. Ou melhor, poderia combinar, talvez, mas ela ficou deslocada, perdida nas falas dos atores. Inclusive, a sensação que tive é que nem mesmo eles sabiam por que estavam falando aquilo…

Além disso tudo, eu não permitiria que meu nome fosse apresentado como o do coreógrafo e do figurinista da peça. Os figurinos são feios, mal pensados, não têm unidade. As danças estão mal executadas, mal ensaiadas. Os atores não sabem para onde se dirigir, além de não terem expressão corporal. E não sabem para onde se dirigir nem onde se posicionar nem mesmo quando não estão dançando…

Levando-se em consideração o que escrevi até aqui, a duração da peça é desrespeitosa: 3h, sem intervalo!!! Ok, o texto original é longo, mas ele foi cortado e adaptado pelo diretor, pretensamente, para diminuir a duração do espetáculo, mas isso não ocorreu, porque, como já escrevi acima, foram acrescidas algumas falas que não existem no original, e porque se a peça tivesse ritmo, o público não precisaria ficar 3h sentado. As falas são arrastadas, não há dinâmica nas respostas e nas deixas de um ator para o outro. Se houvesse ritmo, se os atores soubessem apresentar suas falas com mais dinamismo, menos afetação e boa expressão facial e corporal, o espetáculo poderia ter 2h. As trocas de um ato para o outro também deveriam ser mais rápidas.

Um belo exemplo da falta de dinamismo é uma das cenas finais, quando o ator que interpreta Geni está chantageando Chaves, Duran e Vitória: a cena se arrasta, os atores parecem repetir falas, fica-se com a sensação de que o diálogo poderia ser cortado ao meio para se chegar ao único momento razoável do espetáculo, quando esse ator (que interpreta Geni) canta Geni e o Zepelim. Outro exemplo de falta de ritmo na fala, na dança e na expressão corporal é a cena em que as atrizes de Lucia e Teresinha discutem cantando O Meu Amor. Enquanto as duas atrizes que interpretam essas personagens apresentam a canção, outras duas atrizes executam uma dança pretensamente flamenca, fora de ritmo. Até o momento desta cena, eu acreditava que a iluminação era o único elemento que se podia salvar do espetáculo. Mas quando essas duas atrizes começaram a dançar, percebi que nem isso se salvava… A luz, nesse momento, devia ser branca, para realçar as atrizes. Em vez disso, misturavam-se no palco luzes azuis, vermelhas e amarelas…

Uma das atrizes da Ópera entrou em contato comigo através deste blog, especificamente no post anterior a este, que trata da Megera Domada, dirigida pela Patrícia Fagundes. Depois de alguns comentários publicados aqui, trocamos algumas mensagens por e-mail. Num desses e-mails, ela comentou que o grupo não estava ensaiando nos últimos tempos. É claro que um grupo não precisa ensaiar sempre, especialmente se a peça já foi exaustivamente ensaiada e apresentada. Mas no Rio Grande do Sul, é muito se 10% dos atores e diretores teatrais podem dizer que são profissionais. A maior parte das pessoas envolvidas com teatro por aqui tem outras profissões e atividades. Os atores da Cia. Rústica, em sua maioria, são profissionais, pelo menos é o que parece conferindo os nomes de cada um e seus respectivos currículos. Mas mesmo a Cia. Rústica parece ter sofrido com o provável pequeno número de ensaios. Senão, como comentei, não haveria gagueiras nas falas de alguns atores na Megera.

No caso do Coro dos Contrários, fico com a impressão de que eles não ensaiaram nem a metade do que precisavam… Os maiores grupos de teatro do país, o Oficina, dirigido pelo Zé Celso Martinez Corrêa, e o CPT – Centro de Pesquisa Teatral, dirigido pelo Antunes Filho, chegam a ensaiar 12h por dia durante meses. Quem no Rio Grande do Sul faz isso? É claro que esses grupos têm história, estão no centro do país, conseguem com mais facilidade patrocínios privados e incentivos governamentais. Mas, então, qual o objetivo do teatro no Rio Grande do Sul? Fazer teatro amador independente de patrocínio sem contribuir em nada para o teatro nacional e ganhando elogios apenas dos familiares, amigos e da imprensa gaúcha que, em geral, não pratica crítica de verdade? Ou tentar trabalhar com dignidade buscando sempre o melhor? Uma peça como a Ópera do Malandro precisava de atores mais experientes, precisava de mais ensaios e de mais seriedade em todos os seus elementos. Pelo menos, por respeito ao autor da peça.

06/04/2008

megera domada?

Ontem à noite fui assistir à montagem mais recente da Cia. Rústica, A Megera Domada, de William Shakespeare, dirigida e adaptada por Patrícia Fagundes a partir da tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Assim como a excelente montagem de Sonho de uma noite de verão, A Megera Domada nos apresenta com maestria uma linguagem teatral moderna, que dá mais brilho ao espetáculo. Para quem assistiu ao Hamlet, dirigido por Luciano Alabarse, não será difícil identificar alguns pontos semelhantes entre as duas montagens, como a execução da trilha sonora pelos próprios atores, o palco limpo, sem coxias, com os atores preparando-se em frente ao público enquanto aguardam a sua deixa.

Mas não é apenas isso que chama a atenção do público. Assim como em Sonho…, a peça começa com os atores interagindo com a platéia. Antes éramos recepcionados como se estivéssemos chegando a um cabaré. Agora, enquanto o público se ajeita nas (desconfortáveis) cadeiras do Teatro de Câmara, acompanhamos números de dança, piadas, música, tudo executado como se estivéssemos em frente a um show de calouros. Pode parecer bobagem, mas dá um toque de descontração importante para os atores conhecerem e ganharem o público.

Se o cabaré de Sonho… era colorido, exuberante, remetendo ao mundo mágico imaginado por Shakespeare, n’A Megera… há um trabalho aparentemente mais simples com as cores em cena, apenas preto, branco e vermelho. Aparentemente, porque Patrícia Fagundes consegue explorar todas as possibilidades dessas três cores com um belo equilíbrio. Os figurinos dos atores contrastam de maneira perfeita com as luzes e adereços empregados no palco, com gestos e passos de dança milimetricamente ensaiados.

Mas se há essa excelência na pantomima, não se pode dizer o mesmo do texto. Assim como Catarina, o texto de Shakespeare também precisa ser domado. Alguns atores, em alguns momentos, atropelaram suas falas, gaguejaram, o que não chegou a prejudicar a apresentação, mas é uma boa amostra de como o texto de Shakespeare precisa ser ensaiado à exaustão, precisa ser executado por atores que dominem totalmente a sua expressão vocal — sem desmerecer a atuação de ninguém, merecem destaque as atuações de Álvaro Vilaverde e de Felipe de Paula. Álvaro, com sua voz poderosa que vai dos graves em suas falas sorridentemente (?!) irônicas até os agudos mais agradáveis em seus doces cantos; Felipe, provavelmente o mais jovem ator do grupo, com uma capacidade impressionante para o humor e a ironia que ainda melhorará muito, certamente. Mas não quero ser impiedoso, porque o grupo dirigido por Patrícia Fagundes é um dos poucos bons grupos do teatro gaúcho. Foi com muita felicidade que acompanhei a apresentação de ontem, pois, além do grupo, esta é uma das poucas boas peças montadas nos últimos anos no teatro gaúcho, como já discuti no post sobre Hamlet.