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11/02/2009

Ditadura na Ópera: mais amadorismo…

Pensei em começar este post reproduzindo graficamente os sons das minhas risadas que vão acabar acordando as pessoas devido ao adiantado da hora. Eu não ia escrever nada agora, mas um jovem professor da área de Letras e estudante de mestrado em Artes Cênicas entrou em contato comigo pra me indicar uma pérola da burrice e da contradição humanas.

Vamos aos fatos: há algum tempo escrevi uma crítica sobre o espetáculo Ópera do Malandro, dirigida pelo Ernani Poeta, que comanda o grupo Coro dos Contrários. Como vocês podem conferir lá, na minha opinião, o Chico Buarque não teria aprovado a montagem de seu texto pelas mãos desse grupo caso tivesse tido a oportunidade de assistir à peça. Tá, não é uma oportunidade, porque ela é uma das piores peças a que já assisti, tanto no Rio Grande do Sul quanto fora. Mas enfim, vocês entenderam o recado.

O fato é que o Rodrigo Monteiro escreveu sobre a peça recentemente, acredito que por causa das apresentações no Porto Verão Alegre e inclusive indicou o link do seu blog aqui nos comentários. Eu registro desde já que não concordo com tudo que ele escreveu. Acho que a direção não deveria ter feito tantas opções quanto fez, deveria ter se atrelado mais ao texto original. Dessa forma, os riscos eram menores. E um grupo novo, com atores inexperientes, não pode e não deveria se arriscar tanto, ainda mais em se tratando de um grupo que tem cerca de 15, 20 atores no palco. O Rodrigo acha que, já que o Poeta optou por adaptar o texto, essa adaptação deveria ter sido mais radical. Ok, cada macaco no seu galho, pra não fugir do clichê original (no sentido de origem, claro)…

O que me chamou a atenção pro texto do Rodrigo foi uma crítica feita por um certo Anônimo ao que ele (Rodrigo) escreveu e que, lá pelas tantas, faz referência a minha singela pessoa. Já fiz comentários a respeito do anonimato na internet numa outra oportunidade. Mesmo não gostando, isso existe, é permitido e é bom que seja assim, porque sempre tem alguém com medo de assumir publicamente sua posição, sua opinião, seu pensamento. Eu nunca xingaria ninguém sem assumir minha identidade, mas tudo bem. De repente o cidadão fica com medo de ser processado, sei lá…

O fato é que fui ofendido. O Anônimo me chama de ignorante… Agora sim: hehehehehehehe… Bom, vamos enfim ler (e não ver) por que estou rindo. Para tanto, reproduzamos alguns trechos do comentário do Anônimo:

“A obra da década de 70 é ambientada nos anos 40, justamente pela semelhança histórica. Acabamos de completar 40 anos do AI-5, não seria um bom momento para mostrar uma peça que fala de uma ditadura para não falar de outra? A materialidade histórica que se reflete na linguagem do texto demonstra as relações de poder que continuam as mesmas desde sempre.”

A minha sensação é de que ele não sabe o que é materialismo histórico. Mas não quero dispersá-lo, caro leitor: por favor, concentre-se na primeira parte do trecho acima. Ok?! Agora leia este:

“Esse é o mal da internet: qualquer um, envaidecido com seus conhecimentos limitados, tem a pretensão de achar que tem condições de escrever uma crítica. Um bom crítico, com as bases e os conhecimentos para criticar teatro, sabe identificar aspectos negativos e positivos num espetáculo.”

A internet é o primeiro veículo de comunicação que a humanidade inventou que possibilita que qualquer um, em qualquer lugar do mundo, possa transmitir suas idéias de maneira livre e honesta sem depender de um grande conglomerado midiático. O Anônimo não devia ficar ofendido com o fato de que o Rodrigo escreveu uma crítica ruim sobre a peça (também porque a peça do Coro dos Contrários realmente é ruim). O Rodrigo está prestando um excelente serviço à comunidade teatral gaúcha: ele assistiu a muitos espetáculos recentes e escreveu longos comentários sobre eles. Não cabe aqui julgar os comentários. O simples fato do blog existir já deveria ser motivo de sobra para atores e diretores comemorarem. Afinal, acredito que ele, como eu, paga para assistir a um espetáculo. Pô, um pagante, que saiu de casa (correndo risco de ser assaltado, assassinado, de se envolver num acidente, etc, afinal nossas ruas e nossos teatros não são muito seguros e a maioria dos teatros não fica em locais seguros), que entrou numa fila para comprar seu ingresso, para sentar lá (às vezes em poltronas desconfortáveis), que assistiu a todo espetáculo, que voltou pra casa e, pior ainda, chegou em casa e escreveu sobre o que assitiu deveria ser motivo de orgulho independente da crítica ser positiva ou negativa. Pior seria ignorar completamente o espetáculo…

Mas o problema do Anônimo não é esse. O problema dele é com a liberdade que a internet proporcionou a milhares de pessoas falar o que pensam sobre qualquer coisa, mesmo não dominando totalmente o assunto. Então, vejam bem: ele está defendendo o espetáculo Ópera do Malandro, que ataca a ditadura, mas não quer aceitar que uma pessoa escreva e publique na internet que não gostou da peça. Isso não é sinal de ditadura?!

E aí ele me ataca:

“Postar um comentário na página daquele completo ignorante que fez uma ‘critica’ anterior naquele outro blog é realmente queimar o filme para alguém que pretenda ser sério.”

Quisera eu ser um completo ignorante… Certamente, seria muito mais feliz, não sentiria pena das pessoas que morrem de fome, assassinadas, da burrice humana, não sentiria raiva dos corruptos, dos bandidos, não assistiria a shows, filmes ou espetáculos cênicos, não freqüentaria exposições, não compraria e muito menos leria livros. Aí fico sem entender algumas coisas: por que ele colocou a palavra “crítica” entre aspas no seu comentário no post do Rodrigo? Por que ele acha que sou ignorante? Se ele quis dizer que fui ignorante no sentido de ter sido cruel ao tecer meus comentários sobre a Ópera do Malandro, talvez ele esteja certo, mas não é isso que parece. Acho que ele quis dizer que eu sou ignorante mesmo, no sentido mais literal da palavra. E cruel talvez eu tenha sido, mas injusto não. Afinal, comentei o que vi no dia em quem assisti ao espetáculo, argumentando e explicando meu ponto de vista. Minha crueldade foi toda embasada em fatos retirados da peça. Se isso não é crítica, o que é?!

O Anônimo certamente não sabe que eu fiz teatro durante anos, que trabalhei com grupos teatrais, que tenho muitos amigos atores, que freqüento os espetáculos sempre (e não só no POA Em Cena; o Porto Verão Alegre não vale a pena porque são sempre as mesmas peças ruins ou batidas, mas já escrevi sobre isso também). Também não deve saber que eu ministrei uma cadeira na UFRGS em 2008/1 chamada Literatura Dramática Brasileira. Só espero que o anônimo saiba o que é drama realmente… Porque ele não precisa saber essas coisas a respeito de mim, embora ele não pudesse me ofender dessa forma. Agora, se ele não sabe o que é drama, aí saberemos quem é o verdadeiro ignorante (aqui, no sentido de burro).

Vida longa ao blog do Rodrigo!

E roubando as palavras do professor Claudio Moreno: “ao falecer, coloquem como epitáfio em minha lápide: ‘lutou contra a ignorância, mas foi vencido. Eram muitos’”.