Direto do Twitter

10/11/2010

Monteiro Lobato ou da necessidade literária

Uma notícia lamentável tem provocado as reações mais diversas desde que foi veiculada, há cerca de uma semana. Um livro de Monteiro Lobato está sendo banido de uma lista preparada pelo MEC para distribuição em escolas públicas de todo país. O caso se deve a possíveis conotações racistas em trechos do livro Caçadas de Pedrinho. O fato é que o racismo na obra de Monteiro Lobato realmente é um tema complicado que está presente tanto na sua literatura infantil/infanto-juvenil, como é o caso desse livro, quanto na sua produção adulta, como é o caso de O Presidente Negro.

O maior problema que vejo nessa discussão toda não está sendo abordado por ninguém, mas antes de apontá-lo é importante explicar como funciona essa seleção de livros.

Todos os anos, uma comissão de professores de literatura e de membros do MEC seleciona uma lista de livros. Cada editora pode enviar um determinado número de livros a serem submetidos a essa seleção. Não lembro exatamente o número, mas é algo em torno de 10 a 20 livros por editora. Algumas delas, especialmente as que possuem muitos livros em seu catálogo, chegam a criar selos alternativos para poderem enviar mais livros. A Companhia das Letras, por exemplo, tem o seu Claro Enigma. Nenhum problema nisso, até porque o catálogo da Companhia (pra continuar no exemplo citado) é excelente e possui muitos livros que não só podem como deveriam ser adotados em escolas por todo país. Mas o que acaba acontecendo é uma verdadeira guerra entre as editoras. Tentem imaginar o número de exemplares de cada livro comprados pelo MEC. Esse tipo de seleção pode salvar uma editora da falência e, no mínimo, injetar um dinheiro substancial na conta de autores e editores. E pro MEC a negociação também é boa, porque comprando algumas dezenas de milhares de exemplares de cada livro é possível baratear muito o preço de capa.

Então: o MEC recebe a lista de livros de cada editora, os livros são submetidos à avaliação da comissão, os pareceristas (em geral, professores universitários de literatura) fazem a sua avaliação, discutem a lista em grupo até chegar a um resultado final, que normalmente tem 50 livros selecionados (pelo menos esse era o número quando um amigo professor participou como parecerista numa seleção dessas). Aí o MEC faz a encomenda dos livros e os distribui para as escolas. No meio do caminho, o MEC pode ir lá e dizer que um dos livros não pode ser adotado ou porque tem conotação racista, ou porque tem cenas de sexo explícito, ou porque tem cenas de muita violência, ou porque tem linguagem chula recheada de palavrões, ou porque os personagens fumam, ou porque passarinhos são assassinados com estilingue, ou porque os personagens faltam às aulas escolares, ou ainda por causa de outros motivos quaisquer que não me vem à mente agora, mas que certamente não servem de bom exemplo. Só que Monteiro Lobato viveu numa época em que essas coisas eram normais. Ninguém considerava um problema fumar, caçar passarinho ou matar aula.

Mas o que pensam várias editoras neste momento em que recebem o parecer negativo com relação ao livro? Certamente, algo como “precisamos nos adequar ao que o MEC deseja, senão corremos o risco de ficarmos sem essa verba”. E para as editoras se adequarem ao que o MEC deseja, o que precisa ser feito? Algo como “precisamos solicitar ao autor do livro que altere essa passagem para algo menos explícito”. Resultado: os livros deixam de ser escritos por uma vontade de colocar no papel um sentimento ou por uma necessidade de contar uma boa história. Os autores passam a escrever para agradar as editoras, que querem agradar ao MEC. Não é difícil imaginar o prejuízo que a literatura brasileira sofre graças a esse jogo maléfico.

No caso de Lobato, não é possível solicitar que a narrativa seja alterada. E fazer uma adaptação do livro seria ridículo, porque adaptações normalmente são feitas para crianças e adolescentes com base em clássicos originalmente voltados para o leitor adulto. Ou seja, fazer uma adaptação para crianças e adolescentes de um livro que tinha como leitor ideal justamente esse público não faria o menor sentido. Claro que existem adaptações para o público infanto-juvenil de livros infanto-juvenis. Lembro, por exemplo, de As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Mas se um professor solicita a seus alunos que leiam a adaptação ao invés do texto integral (ou original traduzido), é sinal de que esse professor não acredita na capacidade de seus alunos. Ou, então, é um professor preguiçoso, porque não quer trabalhar a narrativa mais longa do texto original e prefere um texto mais rápido, com vocabulário mais pobre e com a trama menos elaborada.

Só que esse problema só está tomando conta dos meios de comunicação porque se trata de Monteiro Lobato, o melhor autor de livros infanto-juvenis do Brasil de todos os tempos, o Machado de Assis dos livros voltados para crianças. Se fosse um livro de um autor novo, pouco conhecido, provavelmente ninguém ficaria sabendo. E, provavelmente, a editora desse autor solicitaria a ele uma alteração nos trechos politicamente incorretos de seu livro, e ninguém ficaria sabendo.

Mais uma vez, estamos diante de um problema que vai além da leitura. O verdadeiro problema, para o trabalho de literatura na escola, é como estimular alunos a lerem, ou, simplesmente, como fazer os alunos tornarem-se leitores. No caso do Brasil, ainda temos um longo caminho para chegar a uma situação razoável, próxima do trabalho realizado em escolas de países como Itália, França e Estados Unidos. Há algum tempo, uma amiga que morou na Itália me contou que lá as crianças lêem Édipo Rei aos 10 anos. Quer algo mais politicamente incorreto que oferecer justamente essa história a alunos dessa idade? Claro, politicamente incorreto se pensarmos no Brasil, que é um país preocupado em manter seu povo chucro, como dizia Darcy Ribeiro em seu lúcido ensaio Sobre o Óbvio.