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26/04/2011

Como fazer disseminação de conhecimento em tempos de internet

Quando criei o Surdina, em 2008, sabia que estava fazendo algo relativamente irregular. Em 2007/2, quando comecei a trabalhar como professor substituto do Instituto de Letras da UFRGS, resolvi colocar na internet, em um blog, boa parte dos textos que eu estava trabalhando com meus alunos. Alguns eram ensaios retirados de livros, outros de jornais. Devo ter colocado também alguns textos literários que faziam parte do conteúdo das disciplinas. No início de 2008/1, organizei o material, registrei um domínio, contratei um servidor e coloquei o Surdina no ar. Fiz isso porque queria evitar ao máximo a circulação de cópias xerocadas dos materiais. A meu ver, o estudante que poupa seu dinheiro não fazendo cópias reprográficas fica com dinheiro sobrando pra comprar os livros que julga mais importantes.

Eu tinha sido contratado para ministrar cadeiras variadas de Literatura Brasileira. Eu sabia que nem todos meus alunos tinham interesse em aprofundar seus estudos em Literatura Brasileira. Alguns estavam lá por causa da Linguística, outros por causa de alguma Língua Estrangeira, ou simplesmente queriam estudar Língua Portuguesa. Então, eu não via por que os alunos deveriam tirar xerox de materiais que iriam pro lixo no fim do semestre. Com muita frequência, eu indicava algum ensaio retirado de algum livro de Antonio Candido, por exemplo. Os ensaios de Candido são muito lidos nos cursos de Letras (embora eu sinta que ele tem mais leitores na UFRGS que na USP ou em outras universidades, mas isso é uma outra conversa), mas cada livro seu de ensaios reúne textos variadíssimos. Em Vários Escritos, por exemplo, Candido tem textos sobre Basílio da Gama, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Ora, segundo o currículo do curso de Letras da UFRGS, cada um desses autores é trabalhado em semestres diferentes. O primeiro aparece em Literatura Brasileira A; o segundo, em Brasileira B; e o terceiro, em Brasileira C. Para o aluno que se interessa por Literatura, o melhor é comprar logo esse livro, porque ele vai utilizá-lo muito ao longo do curso. E, se o estudante seguir fazendo mestrado e doutorado, será um livro de referência.

Mas se o foco não é Literatura, não faz muito sentido comprar esse livro. Livros são caros no Brasil, e estudantes normalmente não têm muito dinheiro para comprá-los. Por isso, professores e estudantes recorrem ao xerox. Eu só não precisei tirar cópias de nenhum texto em apenas uma cadeira de minha graduação inteira (no caso, era uma disciplina da Faculdade de Educação, e o professor gravou todos os textos num disquete que havíamos emprestado a ele — velhos tempos!). Quase todos meus professores solicitavam a leitura de textos e livros semanalmente. As bibliotecas das universidades federais, infelizmente, não conseguem sustentar as necessidades de seus estudantes. Todo ano, entram mais de 200 alunos no curso de Letras da UFRGS, mas a biblioteca não tem 200 exemplares da Formação da Literatura Brasileira, livro também de Antonio Candido que é lido na primeira cadeira de Literatura Brasileira, no primeiro semestre, embora nem todos professores solicitem a leitura do livro inteiro. Se a biblioteca tiver 50 exemplares, é muito (50? Se tiver 30, já é muito). Ou seja: como não tinha dinheiro pra comprar tudo (e, mesmo que tivesse, muitos livros estavam esgotados — e naquela época não existia a Estante Virtual), ou eu fazia cópias de boa parte dos textos solicitados, ou seria obrigado a ir às aulas sem ter lido os textos, prática que sempre abominei, mesmo não gostando da matéria.

Talvez fosse interessante que as editoras brasileiras organizassem seu catálogo de forma a vender, em formato e-book, textos individuais, além do livro inteiro, claro. Isso já acontece com a música (acho que todo mundo sabe que é possível comprar canções individuais, embora saia mais barato comprar o álbum inteiro). O problema é que o e-book ainda é caro no Brasil. Recentemente, uma editora lançou boa parte de seu catálogo nesse formato, mas quase todos os livros têm apenas R$ 1,00 de diferença para o livro impresso. A meu ver, algo está errado nisso.

De qualquer forma, depois que criei o Surdina, vários colegas professores começaram a indicar o site. Alguns me enviaram textos seus, além de textos de outros autores, para que eu linkasse o material. Quando algum texto não estava no Surdina, vários alunos perguntavam quando eu o linkaria. E, muitas vezes, indiquei links de textos e materiais esgotados, muito difíceis de serem encontrados. Confesso que perdi um pouco a paciência que eu tinha para atualizar o site. Já não tenho mais o mesmo tempo e nem o mesmo prazer em atualizá-lo, porque é muito raro alguém entrar em contato pedindo um texto, enviando um texto relevante ou simplesmente agradecendo a indicação do conteúdo.

Mas estou escrevendo isso tudo porque uma editora entrou em contato com o WordPress para retirar um blog que estava ali hospedado. O blog em questão, Letras USP Download, indicava links para download de textos lidos no curso de Letras da USP e de outras universidades. Era um blog muito organizado e que estava prestando um serviço fundamental para a disseminação do conhecimento. Mesmo assim, compreendo que as editoras não olhem com bons olhos esse tipo de serviço. Mas, antes de combaterem um blog, deveriam combater a prática das cópias reprográficas. Como? Certamente, não adianta fazer denúncias à Polícia Federal para que professores e centros de reprografia não aceitem reproduzir conteúdo protegido pela Lei dos Direitos Autorais. Isso suspende o problema apenas temporariamente. A Polícia Federal não vai colocar um agente diariamente em cada centro de reprografia de cada curso superior Brasil afora. Para combater esse tipo de problema, é necessário mudar a estratégia de distribuição e venda de conteúdo. A música já mudou. Resta saber quando o acesso ao conhecimento vai mudar também.

Quem tem interesse no assunto, pode seguir o Letras USP Download através do twitter @livrosdehumanas (e o jornalista @eduardosterzi também comprou a briga no apoio ao Letras USP Download). Duvido que a editora que derrubou o blog no WordPress consiga derrubar o twitter. No final das contas, o conhecimento continuará circulando, como deve ser.

PS: nunca ganhei nada com o Surdina. Só gastei. Os anúncios que estão na página são de empresas de amigos e da Livraria Cultura (mas pouca gente comprou livros linkados pelo Surdina e essas compras ainda não somaram o valor necessário pra retirada). Ninguém nunca quis anunciar oficialmente no Surdina. Mais um motivo de desânimo…

PS2: o Surdina não armazena os arquivos que estão linkados nas bibliotecas virtuais. Os textos e materiais estão apenas linkados ali. O Surdina não se responsabiliza pelo conteúdo dos arquivos. Se algum autor ficar incomodado, pode denunciar o link pro 4shared, que é o provedor onde estão armazenados os arquivos.