05/08/2008

Teatro em BSB II: Não sobre o amor

Certamente, a melhor peça brasileira de 2008: Não sobre o amor é dirigida por Felipe Hirsch, provavelmente o diretor brasileiro mais inventivo dos últimos quinze anos. A peça é uma troca de cartas entre Alya e Victor Shklovsky interpretados, respectivamente, por Arieta Corrêa e Leonardo Medeiros. São tantos elementos que chamam a atenção (num espaço tão pequeno) que é impossível descrever todos os detalhes.

De qualquer forma, a peça não é simplesmente epistolar: é poesia do começo ao fim. Alya pede ao seu correspondente que pare de lhe escrever sobre o amor, o que explica o título. A personagem criada por Victor Shklovsky (1893-1984), um dos principais representantes do formalismo russo é baseada em Elsa Triolet, que era irmã de Lilia Brik, amante do poeta russo Vladimir Maiakovski.

A peça começa com Leonardo posicionando-se numa cama instalada na parede. A partir de então, o espectador compreende com facilidade que a intenção do diretor era obrigá-lo a observar de cima a situação desses personagens. O espectador está no teto, ou no céu. A partir de então somos levados através de uma corrente de imagens e legendas contendo informações sobre a trama que vão se projetando sobre cenário e atores como se estivéssemos num cinema. Poderia ser apenas um recurso moderninho (quem freqüenta este blog sabe que sou um pouco conservador para artes), mas contribui de maneira sensível para o drama de Victor, que se vê impedido de falar sobre amor, como já comentado.

Mais do que isso: o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília é relativamente grande, devia ter espaço para uns 200 espectadores, mas foi diminuído pela metade propositalemente para a apresentação da peça. É como se estivéssemos realmente dentro do quarto ao inverso. O drama de Victor ganha força com essa proximidade, que contrasta estranhamente com o distanciamento que ele tem de Alya, já que está exilado na Alemanha.

Um estrangeiro é aquele cujo amor está em outro lugar.

É fácil ser cruel. Basta não amar.

Ao escrever, não fale sobre o quanto, quanto, quanto, quanto me ama. Porque no segundo quanto eu já estou pensando em outra coisa.

Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão. Flores, lua, olhos, lábios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu não consigo. A ironia devora as palavras. É a maneira mais fácil de superar a dificuldade de se descrever as coisas.

Pelos trechos acima, dá pra notar que esta é mais uma peça imperdível e que não tem previsão de vir a Porto Alegre. É uma pena que ela não esteja escalada para o Em Cena. Talvez o público daqui não seja tão dedicado quanto o necessário, como Felipe Hirsch declarou numa entrevista para a Gazeta do Povo, de Curitiba:

Li uma reportagem na qual você pede paciência ao público. É seu espetáculo mais difícil?
Pedi paciência para Thom Pain – Lady Grey. Mas quase ninguém teve (risos). Acho que a melhor platéia é a dedicada. Infelizmente, existe cada vez um menor número de dedicados. Querem entretenimento. Pronto, rápido. Sem mediação. “Smells Like Teen Spirit” (hit do Nirvana), sabe? Pedir paciência é uma chamada de atenção. Olha, não seja precipitado, você está diante de algo original, mas que depende também de você. O leitor é cada vez mais importante no desenvolvimento conceitual de novas idéias. Mas grande parte do público está cada vez menos preparado. Isso é ilógico, não?

Se não tivéssemos um teatro tão preocupado em ganhar dinheiro com bobagens engraçadinhas, se tivéssemos mais do que quatro ou cinco diretores preocupados em formar um maior público sério, crítico, inteligente, talvez o pedido de paciência de Hirsch não seria necessário em Porto Alegre. O que ameniza a gravidade disso é que, pelo visto, a busca do público por entretenimento pronto, rápido, sem mediação não é um problema apenas aqui da província, como ele comprova acima…

Não sobre o amor

(Outro problema grave do teatro gaúcho é o sotaque. Quando se assiste a uma peça de São Paulo ou do Rio, não dá pra afirmar que os atores são cariocas, paulistas, pernambucanos, sergipanos… Parece que aqui os atores e diretores gaúchos fazem questão de mostrar que é possível adaptar a linguagem de Moliére ao sotaque gaúcho. Os melhores atores gaúchos são aqueles que não têm sotaque.)

Veja um trecho da peça:

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