17/06/2009

Qual jornalismo queremos?

Vamos ler juntos:

Divergências sobre a qualificação profissional

O pólo oposto na disputa em torno da exigência do diploma é bastante eclético. As empresas de comunicação, em sua quase totalidade, adotaram posição contrária à obrigatoriedade. Um dos maiores jornais do país, a Folha de São Paulo, inclusive, aceita alunos que estejam nos últimos semestres da graduação ou recém-formados em qualquer curso de nível superior em seu programa de treinamento em jornalismo diário. Na mesma trincheira, no entanto, se alinham também profissionais de outras áreas que trabalham no campo e mesmo jornalistas diplomados.

Um dos principais argumentos desse grupo bastante diversificado é o fato de não haver a exigência de obrigatoriedade do diploma em outros países, como Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e França. Em contrapartida, nações como Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Síria, Tunísia e Ucrânia compartilham legislação semelhante à brasileira no assunto.

Quanto à questão da qualificação do profissional da área, os opositores do diploma afirmam que, embora realmente indispensável, tal capacitação não é dada exclusivamente pelos cursos de Jornalismo. Por isso, o argumento não sustentaria a obrigatoriedade em pauta. Vencedor de quatro prêmios Esso, o jornalista português Carlos Chaparro afirmou, no artigo “O diploma não pode ser o eixo da discussão”, que levando em conta as complexidades e liberdades do mundo atual e o que ele exige do jornalismo, o ingresso na profissão de jornalista deveria ser acessível a quaisquer cidadãos no pleno uso dos seus direitos, desde que provem ter formação superior concluída. “Precisariam, porém, passar por um período de estágio ou experiência probatória.”

Outra crítica feita à obrigatoriedade do diploma é que ela causou o surgimento de diversas instituições que se aproveitam da exigência para captar alunos e “vender” o diploma, fenômeno que tem efeito perverso sobre a qualidade do ensino. Para a diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ivana Bentes Oliveira, “se a exigência do diploma acabasse amanhã, os cursos de comunicação continuariam iguais. Os cursos que fazem a diferença dentro da formação desse profissional continuam formando profissionais de qualidade. O que muda e o que acaba são os cursos que realmente vendiam apenas o diploma”.

A matéria é mais longa, mas por esse trecho fico aqui pensando: queremos nos assimilar a Alemanha, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e França ou a Arábia Saudita, Colômbia, Congo, Síria, Tunísia e Ucrânia?

O jornalista não vai sumir. O jornalista responsável pelo jornal vai continuar existindo. O que vai acontecer é que especialistas em determinadas áreas vão ter mais espaço no jornal. Afinal, não é melhor um economista falando de economia do que um jornalista que estudou economia durante apenas um semestre, se tanto? O mesmo vale pra artes, política, ciência, etc. É claro que o cara vai precisar se especializar de alguma forma pra escrever pra jornal… Mas parece que estamos avançando.

Esse texto aqui também ajuda a pensar no assunto.

6 comentários em “Qual jornalismo queremos?”

  1. Vinícius Carvalho escreveu:

    Muito interessante o texto, é sempre bom ver mais profissionais de outros campos falando sobre o jornalismo. Deveríamos todos discutir mais essa atividade.

    Antes de tudo, sou contra a desregularização da profissão, talvez porque seja jornalista recém formado que pagou caro pelo diploma em universidade particular. Bem, meus motivos já estão postos, seguem algumas idéias:

    Eu sempre me questiono se alguma coisa é realmente boa quando a rede Globo se coloca a favor dela. Sem querer cair na ladaínha sindicalista, mas as grandes empresas são sempre as mais interessadas quando se trata de conversar sobre flexibilização de leis trabalhistas. A queda do diploma é uma derrota nesse sentido.

    Não sou contra a utilização de outros profissionais no jornalismo, eles sempre estiveram presentes em espaços como colunas, artigos ou como fontes das matérias. Se a desregularização vai servir para especializar e instrumentalizar melhor o jornalismo, ótimo!! O problema é que as redações modernas buscam trabalhar com o mínimo custo possível, não vejo redação gaúcha contratar um doutor em geografia para trabalhar no noticiário internacional.

    Um dos maiores motivos para a queda do diploma foi a liberdade de expressão, bem, o diploma não fere a liberdade de expressão de ninguém, muito pelo contrário, o jornalista na redação está sujeito a todos os caprichos da linha editorial do veículo. Marcelo Frizon, com este blog, tem mais liberdade de expressão que muito jornalista com diploma e anos de experiência em jornais.

    A comparação entre legislações de países desenvolvidos e subdesenvolvios é uma maldade. Também é necessário observar a realidade da imprensa de cada país. Os EUA, tem diversas corporações poderosas brigando, quase em pé de igualdade, pela audiência. A europa tem um sistema estatal de alta qualidade. O Brasil tem uma hegemonia, desconheço os modelos dos outros países. Realidades bem diferentes que não caminham para a mesma direção e não necessariamente precisam de legislações iguais.

    Acho que estou ficando chato já, deixo dois textos interessantes sobre o assunto:

    http://tinyurl.com/momu6u
    Do professor Marcelo Träsel

    http://tinyurl.com/lm96cx
    Da Diretora da Famecos, Magda Rodrigues da Cunha, na ZH.


  2. Vinícius Carvalho escreveu:

    O link para o texto do Trasel é esse aqui: http://trasel.com.br/blog/?p=183

    O outro deu pau!

    (não pensei q o texto ia ficar tão grande).


  3. Marcelo Frizon escreveu:

    Não sei se seu comentário inicial foi irônico ou não, mas eu acho mesmo que o debate sobre a necessidade do diploma deve ser mais pensado por qualquer pessoa, assim como o debate a respeito de qualquer profissão. Toda hora tem gente dando palpite em como um professor deve conduzir uma turma numa sala de aula e, normalmente, são pessoas que nunca entraram numa sala de aula para comandar uma turma, a começar por muitos jornalistas…

    A redação gaúcha nunca vai contratar um doutor em geografia para trabalhar no noticiário internacional porque o noticiário internacional não interessa aos gaúchos. O que interessa aos gaúchos são os próprios gaúchos. Se tivesse um gaúcho entre os mortos do vôo da Air France, a Zero Hora veicularia em letras garrafais “GAÚCHO MORRE EM TRAGÉDIA” e, abaixo, com uma fonte tamanho 10, “50 brasileiros estão entre os mortos”. Isso se não divulgasse simplesmente o número total de mortos…

    O problema da liberdade de expressão é delicado, realmente. Agora, é complicado discutir isso porque muitos veículos de comunicação tem uma linha editorial que impede a prática da liberdade de expressão por seus próprios empregados…

    Meu blog não tem linha editorial. Não ganho nada por escrever aqui (pelo contrário, só gasto, com luz, internet e com o pagamento do domínio e do servidor). Não respondo a ninguém. Por isso posso escrever o que quero. Sei de vários jornalistas que mantém blogs utilizando pseudônimos para não ferir os ideais dos veículos de comunicação em que trabalham. Ainda bem que a internet existe, não é mesmo?! E ainda bem que ela (ainda) é um lugar tão livre.

    Não acho que comparar as legislações entre países diferentes seja um problema. O Brasil quer tanto imitar as potências mundiais, por que não imitar isso também?! Eu já disse que pro Brasil se transformar numa potência só faltam grupos terroristas. Aí, sim, estaremos no mesmo patamar dos países europeus e dos EUA.

    Brincadeiras à parte, acho que o problema dos cursos de jornalismo e de muitos jornalistas em atuação é que não têm especialização. O cara tem um semestre de economia, um semestre de sociologia, um semestre de filosofia e sai achando que domina tudo isso. Aí vai trabalhar num jornal, fica responsável pela área de economia e acha que sabe tanto quanto qualquer economista. Pra crítica cultural o problema talvez seja até mais grave… Tem muito jornalista que nunca foi ao teatro, que nunca leu uma peça de Shakespeare, que não sabe quem é Zé Celso Martinez Correa, e sai da faculdade pra escrever crítica teatral. Ok, normalmente ele passa antes pela Geral, Polícia, Mundo, etc, mas durante esse tempo ele procurou se especializar pra escrever sobre teatro? Já cansei de ouvir jornalista que só leu a orelha do livro falando como se tivesse lido o livro inteiro… E tem gente que acredita, porque a grande maioria não lê nada, nem a orelha do livro.

    Concordo contigo a respeito da Globo. É sempre bom desconfiar… Agora, a Folha de São Paulo há muito tempo (talvez desde sempre) não cobra o diploma, o que era um desrespeito à lei. Eu considero a FSP o melhor jornal do país (o que não quer dizer necessariamente que ele é bom ou perfeito). Eles dão preferência a jornalistas na seleção de candidatos para o seu curso, mas aceitam gente de qualquer área — aliás, as inscrições estão abertas, aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u577347.shtml. Isso porque eles têm uma linha editorial ou porque querem um determinado perfil de profissional? Em parte, sim, mas principalmente porque eles têm consciência de que precisam realizar um curso assim porque é um curso que oferece aquilo que os cursos de jornalismo não estão oferecendo: especialização.

    Já dei aula de crítica literária para vários alunos de jornalismo na UFRGS. Normalmente, são muito bons, por vários motivos, mas também porque têm consciência de que a faculdade que estão cursando não é suficiente para pensar a literatura.

    É claro que um crítico literário não vai querer trabalhar em jornal pra cobrir uma CPI, uma guerra ou um assassinato, e é claro que pra esse tipo de coisa só quem cursou jornalismo sabe como se posicionar lá no meio. Não estou dizendo que jornalista deveria só escrever sobre isso. Mas ou se especializa, ou vai fazer outra coisa, por favor! Pode começar estudando Língua Portuguesa, porque é um absurdo a falta de domínio da língua que impera no jornalismo brasileiro…

    Não sei se concordamos ou discordamos, mas obrigado pelo comentário… (Senti que discordamos, mas não tenho certeza.) Eu concordo com o Träsel que a renovação da lei foi feita com base em argumentos ruins. Mas era uma renovação necessária, do meu ponto de vista. Paciência se os juizes não entenderam nada. Pelo menos acertaram o alvo…


  4. Vinícius Carvalho escreveu:

    O início do texto não foi irônico, peço desculpa se pareceu. Discutir a mídia é extremamente necessário em TODAS as profissões porque a mídia afeta a vida de todos. O problema é que, quando se tenta trazer essa discussão, as pessoas se contentam em falar mal do Faustão e se esquecem que existem coisas mais importantes que o entretenimento das tardes de domingo.

    Sobre os jornalistas que escrevem com pseudônimos, é exatamente onde eu queria chegar com liberdade de expressão, o cara que está na redação é exatamente o sujeito que não tem.

    Sobre grupos terroristas no Brasil, só faltam os nomes e as bandeiras.

    Eu vou precisar de mais quatro anos de estudo para responder todos os questionamentos que tu trouxe. Concordamos em um monte de coisa, tua análise sobre a imprensa gaúcha é ótima. A gente brinca que, se acabasse o mundo, a ZH noticiaria: Fim do RS.

    A falta de especialização é um tema complicado também. Temos que pensar que a maioria dos produtos midiáticos a que temos acesso são produtos de massa. Me parece que especializar demais não é boa estratégia porque agrada a poucos leitores de cada vez. Os jornais, pelo menos, me parecem gostar mais de quantidade. Essa especialização vem como um “agrado” de vez em quando nos cadernos semanais ou especiais (sei lá, quando alguém morre).
    Para matérias que agradariam a um estudioso de literatura, seria necessária uma revista, que é um tipo de publicação mais focada em públicos específicos. Não creio que tenhamos alguma coisa de alta qualidade no mercado editorial brasileiro nesse sentido. Essa terra tende a ser muito cruel com as revistas. Tu deve entender melhor de mercado editorial e revistas de literatura do que eu, até porque eu sou fotógrafo, mas nenhuma dessas publicações parece durar muito tempo no Brasil.
    Na busca por informação especializada, a internet é a nossa salvação.
    Não sei se cheguei ao ponto que queria, mas são quase duas da manhã, obrigado pela resposta, desculpe se o primeiro comentário pareceu desrespeitoso, não foi a intenção.


  5. Marcelo Frizon escreveu:

    Acho que, apesar de divergirmos com relação à necessidade de diploma, como pude conferir no teu blog, concordamos em todo resto, o que é irônico… Lembra a briga do José Veríssimo e do Silvio Romero, críticos literários contemporâneos ao Machado de Assis que tinham o mesmo ponto de vista sobre a obra deste: ela não tratava do Brasil. Pro primeiro, isso era bom, pois dava um ar de superioridade europeu à literatura. Pro segundo, ruim, porque, pra ele, a literatura devia tratar da sua terra. Ambos estavam errados… Rsrsrs… Mas não acho que estejamos errados. Valeu! Abs!


  6. Anna escreveu:

    O diploma não é mais obrigatório, mas a formação continua existindo e será, sim, importante e diferencial. Vejo os críticos literários, comentaristas, sociólogos e historiadores, bem animados… E acho ótimo contar com eles. Já contávamos com eles como comentaristas e consultores. A não exigencia do diploma, só facilita a contratação e barateia os custos das empresas de comunicação. No entanto, quem vai trabalhar com jornalismo investigativo, hardnews, matérias diárias? Quem cobrirá as informações de serviço, as editorias de cidade? Quem saberá organizar a grade de programação de tv, editar os textos dos jornais quando a equipe de publicidade vender um anúncio de última hora para entrar no exato quadrante em que entraria o final da sua matéria? Quem, enfim, fará o serviço das editorias gerais? A formação jornalística continuará existindo, as especializações serão mais procuradas e o melhor profissional ganha a vaga… Os melhores cursos e os melhores profissionais sobrevivem!


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