17/02/2010

Nei Lisboa tocando o terror

O músico e compositor Nei Lisboa iniciou uma polêmica que, de tempos em tempos, retorna ao debate cultural gaúcho. Pra quem não acompanhou a história toda, precisa começar lendo a entrevista que o Nei deu pro Luís Bissigo, da ZH, em 25/01 último.

A declaração mais polêmica, sob o meu ponto de vista, foi também a mais inteligente: “A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso.”

Eu costumo trabalhar com meus alunos a Estética do Frio, texto do Vitor Ramil sobre a tensão que existe entre ser gaúcho e ser brasileiro. A discussão normalmente demora a engrenar, porque a visão que eles têm a respeito do assunto é muito bairrista. Poucos conseguem enxergar o problema com distanciamento. Só que o mais interessante dessa conversa é que a maioria dessas pessoas que defende o tracionalismo não pratica, no fundo, o tradicionalismo. Só tomar chimarrão não significa que a pessoa esteja cultivando um hábito gauchesco, tradicionalista. Ou seja: o tradicionalismo conseguiu fazer com que a consciência do gaúcho se transformasse de tal forma que o personagem por ele inventado (ele, o tradicionalismo) é representado por quase todo gaúcho em qualquer situação de ataque à cultura gauchesca, mesmo que a pessoa não tenha e, muito menos, costume usar trajes gauchescos; mesmo que a pessoa não tenha nenhum disco de artista gauchesco; mesmo que a pessoa não frequente CTGs; enfim, mesmo que a pessoa não tenha intimidade nenhuma com o tradicionalismo.

Pior: agora, esses tradicionalistas de ocasião ficaram tão irritados que estão ameaçando o Nei da maneira mais bagaceira possível. Ontem saiu em ZH mais um texto sobre a polêmica, em que vários artistas e representantes do MTG dão sua opinião sobre o que o Nei declarou. Em seguida, o próprio Nei foi convidado a se explicar e lá apresenta seu texto chamado “Não aos ‘patrões da cultura’” (também dá pra ler os dois textos aqui, com indicação pra um blog ridículo hospedado na ZH). Pra quem não sabe (e, certamente, muitos não sabem, inclusive alguns de vocês que estão me lendo e discordando de mim), nos CTGs mundo afora existem duas classes de trabalhadores: o patrão e os peões. Cada CTG tem um patrão, o resto é peonada. Parece piada, mas é sério. Com isso, logicamente o Nei quis cutucar esses patrões que, não contentes em mandar e desmandar no pequeno espaço que seu CTG representa, precisam também aparecer na mídia pra dizer o que é e o que não é tradicionalismo. (Eu já escrevi sobre isso aqui, e quem quiser pode clicar aí do lado, nas categorias, em Gauchismo, pra ler tudo que já escrevi sobre o assunto.)

Como todo mundo sabe, ou deveria saber, a maioria dos CTGs se transformou num espaço de exploração econômica. Em outras palavras, os CTGs são atrações turísticas que exploram uma tradição inventada (inventada mesmo, com data de fundação, inclusive — 1948 –, pelo Paixão Cortes e pelo Barbosa Lessa). E essa tradição inventada conseguiu muito poder, tanto que muitos tradicionalistas de ocasião começaram uma discussão fortíssima no site do Nei, com direito a ameaças de morte e física. Sem exagero, está tudo lá. Pelo menos, pra um cara como eu, dá pra lavar a alma: todos esses tradicionalistas destilam sua ignorância cultural nos seus comentários… Só é triste que, lógico, poucos assinam com o seu verdadeiro nome. (Fazer ameaças assim tem nome, chama-se covardia, algo que, dizem os tradicionalistas, não combina com o movimento.)

9 comentários em “Nei Lisboa tocando o terror”

  1. Flavia Bento escreveu:

    Prezado e lúcido Professor,

    Permita-me postar em seu espaço, o que postei no site do Nei, por estarrecida estar, com tanta selvageria cultural… Abç, segue o texto:

    Rima rica, prudência feita

    A razão da controvérsia é tema rico de se apurar
    Campo fértil esse debate p/ novas idéias germinar

    A crítica pouco palatável não demorou a se espraiar, ms não deve dar espaço a rixas e mágoas que não irão acrescentar

    E das ofensas desferidas, ao nobre músico, mal interpretado, sim Senhor,
    reservo aos desavisados, esse lembrete com louvor:

    O gaudério ou nativista pode e muito discordar, só não deve por prudência, no palavrório extrapolar, pois deixa de ser macho, gaúcho glorioso sem igual, e passa por ignorância, a agir como um bagual.Deve contudo, preservar-se para não incorrer em dano moral, evitando desta forma as guaiacas esvaziar.

    E se insistir na falta de argumento, pela internet crendo se ocultar, externando a bagualisse, melhor sorte não lhe assiste, responderá igual, o índio chucro sem polimento, na esfera criminal!!!

    Com respeito, carinho e presteza, aos gaúchos e gaúchas de todas as querências.


  2. Luis Motta escreveu:

    Concordo com o Nei e estendo isso ao NOVO ROCK GAUCHO com raras e desconhecidas excessoes é uma cópia da cópia, perdeu a personalidade que estava sendo contruida nos anos 70,80,90.


  3. Eduardo Balzan escreveu:

    Estou com o Nei. Música é arte, folclore (no sentido da cultura regional) abrange esta e outras manifestações artísticas. Não é possível que um movimentozinho chinfrim e sem fundamentação histórica (tradicionalismo com 50 anos de história não é tradicionalismo, faça-me um favor), venha querer dizer para um artista o que este tem que vestir, comer, beber ou utilizar como objeto de sua arte. Em nenhum estado do país é assim. E não me venha com aquela conversa de que “só o RS cultiva as suas origens”. Todos os estados têm a sua cultura regional e a coloca num lugar de conservação, mas sem impedir a dinâmica das manifestações humanas e sem impedir que as influências externas deixem também sua marca indelével. O MTG está estagnado desde a sua fundação. Por que não dançar chula e rock’n'roll? Por que tem que se usar a bombacha (sobras dos arroubos imperialistas dos ingleses depois das campanhas militares imperiais na índia) pra entrar num CTG? A quem estarei ofendendo se usar um brinco na orelha? Ao Patrão do CTG? Faça-me um favor… Patrão e peão? Peão é senhora sua mãe e patrão não os tenho ou preciso. Por que não Caudilho e escravo de saladeiro? Está mais de acordo com a história. História que o MTG aparentemente conhece, mas acha interessante distorcer.


  4. João Batista Lopes da Silva escreveu:

    Boa Tarde

    Li a matéria do Nei Lisboa e também os debates gerados em torno de suas declarações, inclusive a sua…

    Sou nascido em Viamão, criado em Porto Alegre, frequentei locais (culturais) de todo o tipo.

    E vejo que a opinião do Nei, reflete perfeitamente o que Porto Alegre é em matéria de cultura.

    Aqui nada sobrevive, basta ver a quantidade de locais que abrem e fecham ao longo dos anos, o portoalegrense, nao tem cultura específica, não gosta de vaneira e não gosta de samba, não gosta de funk e não gosta de rock. Isso que eu acabei de dizer, ele Nei Lisboa deixou escapar no meio da entrevista, o que não deixa de ser verdade embora tenha uns 50% de mentira, Porto Alegre tem espaço para todos os tipos de manifestações culturais, basta caminhar na Redenção nos domingos a tarde, são várias tribos que ali ficam, no mesmo local, tem de tudo… Ao que me parece, ele tem todo o direito de se manifestar como quizer, só que tem que ter mais argumentos para a sua tese. Sair atirando para todos os lados acaba deixando ele alvo de criticas merecidas, ele não gosta do Teixeirinha, muito bem, é um direito dele, eu também prefiro outros artistas, mas sei que o Teixeirinha sempre será lembrado (ele morreu em 85) como anualmente se vê no Cemitério da Santa Casa. E quando o Nei se for? Quantos vão lembra-lo?

    O MTG surgiu exatamente por existir na época de João Carlos Paixão Cortes (e não Jayme Caetano Braun) e Barbosa Lessa, uma indiferença dos portoalegrenses a cultura em si, existia na mesma época essa crise de identidade de gostar de tudo e ao mesmo tempo não gostar de nada…

    O MTG não inventou uma cultura, para os menos esclarecidos, Paixão Cortes, Barbosa Lessa e outros nomes da época (todos estudantes do Colégio Julio de Castilhos), foram aos quatro cantos do estado, pesquisaram, recolheram as mais diversas formas de se manifestar do povo riograndense, a influência alemã, italiana, negra, indigena e demais. Foi criada então, um livro que mostrava e demonstrava como se dançava os muitos rítmos aqui do estado, mas sempre preservando a diversidade dos povos, tem vaneira que é cubana, tem milonga e chamamé da argentina, valsa da áustria, polka ou poloneise da Polônia, entre outros, aliás um movimento taxado de bairrista por muitos esclarecidos jovens e velhos, cultura vários países, que deram origem ao que somos hoje, apenas e tão somente apenas um ritmo é aqui do Rio Grande do Sul, o Bugiu, criado por um gaiteiro da Serra Gaúcha, que ao ver o bicho caminhado e roncando, pegou seu instrumento e começou a imitar seu ronco em um ritmo que se fizesse parecido com seus movimentos…

    Existe muita coisa por baixo dessa polêmica besta de eu gosto e eu não gosto de música gaúcha, tem muita gente que acha que para dançar em um CTG, precisa de bota e bombacha, errado, se você quizer ir em um baile, pode ir de calça jeans e sapato, ou vocês vão a um show de chinelo e bermuda? Só se for no Planeta Atlântida… Se quizer dançar na invernada ai sim, tem que estar pilchado pois uma invernada é como um grupo de danças qualquer e para isso se caracterisa por uma determinada roupa…

    O que precisamos é deixar de ser portoalegrenses de apartamento, que acham que só em Porto Alegre em específico no Bonfim e Lima e Silva existe vida inteligente.

    Eu deixo uma pergunta, se então para tocar em um CTG fosse liberado, usar qualquer tipo de roupa, o Nei Lisboa iria gostar? Iria fazer música para tocar em um CTG? É simples ele não gosta (e é livre para assim pensar), não vai gostar (continua sendo livre para assim agir), e acha que quem gosta não tem o devido esclarecimento cultural…


  5. ::unhas::roídas | Marcelo Frizon » Blog Archive » Resposta aberta: mais Nei Lisboa escreveu:

    [...] escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos [...]


  6. Steve Johnson de Almeida escreveu:

    Um causo sobre tradicionalismo para abrilhantar o debate.
    http://recantodasletras.uol.com.br/contos/2103352


  7. marina teixeira escreveu:

    1- ignorancia quem, pq diverge do nei, o desqualifica musicalmente
    2-quem tem um mínimo de informação cultural sabe que o nei é muito bom
    3- o nei tem razão


  8. Rodrigo escreveu:

    O Nei pode ser “bom”, pode ser um grande músico. Mas o negócio é o seguinte: cada um cuida do seu bico. Se ele não gosta, é porque ele não conhece, não viveu e não tem interesse nenhum pelo tradicionalismo ou tem inveja. Quem acha que o tradicionalismo tem que mudar, que faça um movimento. O Tradicionalismo não deixa de ser uma manifestação artística que nos permite não só conhecer a História do nosso povo como também auxiliar na educação dos bons costumes. Respeito quem não gosta, mas afirmo: antes de criticar e julgar, é bom conhecer bem!

    Não conheço o trabalho do Nei, nunca me interessei, por isso jamais criticaria ele pela musica que ele canta. Por isso pergunto: O que o Nei prega? Qual o objetivo de suas canções? Em que cultura ele se enquadra? Porque ele resolveu falar o que falou em vez de cuidar de sua arte?

    Talvez digam que não sou esclarecido porque não conheço muito o trabalho de Nei Lisboa e nem deveria escrever nada aqui. Mas se ele se acha esclarecido ao ponto de questionar como bem entende a manifestação cultural da qual com certeza absoluta que ele não conhece como deveria, o problema é dele e de quem concorda com isso.


  9. Marcelo Frizon escreveu:

    Caro Rodrigo, peço desculpas pela demora na aprovação do comentário. Há muito tempo eu não entrava aqui e tinha esquecido de sua mensagem. Sinceramente, não quero mais falar sobre esse assunto. Já expus minhas ideias a respeito da polêmica em mais de um post e em mais de uma mensagem. Só uma coisa: não acho que o Nei desconheça a música tradicionalista. Acreditar que ele falou mal do tradicionalismo só porque não o conhece é rebaixar o debate. Pode ter certeza de que ele não falaria nada a respeito do assunto se não o conhecesse minimamente. E o Nei não disse que o tradicionalismo precisava mudar.

    As respostas pras suas perguntas estão discutidas no resto dos textos aqui no blog. Então, obrigado pela leitura e pela escrita.


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