17/02/2010

A cidade que merecemos

Há algum tempo, rolou outra polêmica interessante aqui no Rio Grande do Sul. Na época, escrevi sobre o assunto, enviei pra ZH, mas não se interessaram em publicar. Por isso, agora resolvi postar o texto aqui. Na sequência, traço um rápido paralelo entre o post anterior, sobre o Nei Lisboa, e este aqui.

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A cidade que merecemos

Nunca fui aluno do professor Voltaire Schilling, embora desejasse ter sido. Temos amigos em comum, mas ele não deve saber da minha existência. Sei que ele é um homem com uma cultura refinada e dono de uma ironia única na capital gaúcha. Por isso, a recente polêmica iniciada por ele no jornal Zero Hora em 25 de outubro último, com o artigo A capital das monstruosidades, que atiçou os ânimos de artistas e intelectuais, deve ser pensada com cuidado. Em seu texto, Voltaire questiona o valor de algumas obras pretensamente artísticas e propõe a discussão a respeito da sociedade aceitar tão facilmente que elas passem a fazer parte da paisagem porto-alegrense.

No caderno Cultura de 31 de outubro, dois professores questionaram as ideias de Voltaire. Clóvis Da Rolt acredita que o artigo de Voltaire pode abrir espaço para uma discussão mais ampla a respeito de quem decide quais obras devem ser expostas em locais públicos e de como deve ser feita essa decisão. Apesar de questionar Voltaire com respeito, Da Rolt pensa “que ele poderia ter proposto uma reflexão seguindo outro caminho e não conduzindo o leitor a aderir, sumariamente, aos seus conceitos estéticos pouco ventilados”, concluindo que o debate foi proposto de maneira ingênua. Gaudêncio Fidelis classificou o artigo de Voltaire de demagógico e “manifesto iconoclasta”. Ora, a arte moderna é (ou foi), desde sempre, iconoclasta (talvez coubesse uma reflexão mais longa a respeito de onde começa e onde termina a arte moderna, se é que ela já terminou; no entanto, deixo para outra ocasião).

Quando li esses dois artigos tive a nítida sensação de que algo estava errado. Especialmente porque, a meu ver, o artigo do professor Voltaire não tinha realmente o objetivo de propor a  remoção ou a destruição das obras por ele citadas.

Digo isso especificamente por causa de um parágrafo de seu texto, o antepenúltimo, em que o professor classifica Porto Alegre de “cidade aprazível, moderna, povoada por gente simpática”, com belas mulheres e lar de grandes artistas. Aprazível é um adjetivo que depende muito da visão individual. Moderna, Porto Alegre definitivamente não é, nunca quis ser. Alguns habitantes acreditam que, porque agora temos uma Livraria Cultura e um aeroporto com túneis que nos conduzem diretamente ao interior do avião, deixamos de morar numa província. Porto Alegre não tem vocação pra modernidade. São Paulo é moderna, e por isso obras como a do artista paulista Henrique Oliveira, citado por Voltaire pela sua Casa Monstro, não parecem combinar com a paisagem porto-alegrense. No entanto, não a estranharíamos tanto se nos deparássemos com ela em São Paulo.

Gente simpática é outra classificação que dá o que pensar. Quando vou a uma loja, são raras as vezes em que me sinto bem atendido. Quando peço ajuda a um taxista para localizar uma rua, normalmente recebo a resposta de maneira rápida, beirando a grosseria. Quando entro numa livraria para olhar o seu acervo, sem ter um objetivo de consumo claro na cabeça, me olham como se eu fosse roubar algo. Isso é simpatia? Experimentem fazer isso tudo no Rio de Janeiro (ok, é uma cidade turística, preparada pra isso, mas Porto Alegre também não deseja ser turística?).

Com relação às mulheres, acredito que Fidelis exagerou ao chamar Voltaire de machista, mas acho que a discussão perde o foco se continuarmos por aí. Com relação aos artistas que viveram em Porto Alegre citados pelo professor Voltaire (Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves), são todos exemplos de artistas modernos com obras que também são incompreendidas pela maioria.

No fundo, acho que Voltaire conseguiu o que queria: provocar a discussão. É uma pena que Voltaire teve de vir a público explicar suas ideias, que já estavam claras desde o início. No Cultura do dia 05 de dezembro, os jornalistas Eduardo Veras e Luiz Antonio Araujo entrevistaram o professor acerca de sua posição (a entrevista é agressiva, o que pode-se perceber pelas perguntas; a íntegra pode ser lida aqui). Ok, era difícil concluir que arte ele aprecia, mas afirmar que não tem senso estético e que suas ideias são demagógicas talvez seja o maior erro de Da Rolt e Fidelis. Afinal, Voltaire tem razão ao concluir que a maior parte da população não aceita a arte contemporânea, porque não a compreende. É fácil encontrar pessoas que olham para a Casa Monstro, por exemplo, e se perguntam se isso é realmente arte (concluindo, normalmente, que não é). Essas são as pessoas que acatam com tanta facilidade que essas obras sejam acolhidas naturalmente pela prefeitura. São as mesmas pessoas que não questionam por que não existe uma parada de ônibus em frente ao Museu da Fundação Iberê Camargo, ou por que ali não existe um semáforo e uma faixa de segurança. Se estamos nessa situação, é porque esta é a cidade que merecemos.

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A polêmica envolvendo o Nei é só mais uma prova de que o Rio Grande do Sul não é povoado por gente simpática nem moderna. Se fosse assim, as pessoas conseguiriam discutir o assunto com mais sensatez…

PS: quem nunca escutou o Nei, por favor, procure canções dele no Youtube ou em qualquer outro site. Claro, se puderem comprar os cds dele, não se arrependerão.

2 comentários em “A cidade que merecemos”

  1. Clóvis Da Rolt escreveu:

    Olá, Marcelo
    Sou o Clóvis, citado neste artigo. A polêmica rendeu mesmo o que falar! Te convido a visitar meu blog, onde costumo postar meus artigos publicados em jornal.
    http://www.escafandro-respire.blogspot.com

    Abraço

    Clóvis Da Rolt


  2. ::unhas::roídas | Marcelo Frizon » Blog Archive » Resposta aberta: mais Nei Lisboa escreveu:

    [...] estante virtual imageNETion insanus.org não observatório da imprensa wilco « A cidade que merecemos [...]


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