22/02/2010

Resposta aberta: mais Nei Lisboa

Caro João,

resolvi escrever um post porque minha resposta pra tuas colocações estava ficando muito longa. Então vamos lá.

Obrigado pela correção quanto ao Paixão Cortes. Eu confesso que não sou muito ligado na cultura tradicionalista, por isso o equívoco, mas me interesso por essas discussões a respeito da identidade gaúcha. De qualquer forma, já corrigi o erro no post.

Concordo que cada um pode pensar o que quiser e manifestar isso como e onde achar melhor. Realmente, Porto Alegre e o resto do Rio Grande do Sul têm espaços variados pra todo tipo de manifestação cultural, o que é muito bom.

Agora, você escreveu de maneira um pouco dispersa, me parece, então vou ser um pocuo disperso também e pontuar o que me chamou mais atenção:

1) Quando o Nei Lisboa disse que não gosta do Teixeirinha? Onde? Não foi na tal entrevista da ZH. Ou foi? Ele disse: “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas. Eu comecei a me lançar na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi também o boom dos festivais, do tradicionalismo. E foi também, no começo dos 1980, que o rock brasileiro começou a mandar na cena. Enfim, que identidade musical a gente tem aqui em Porto Alegre? Há uma dificuldade nessa matéria.” Ele não disse que não gosta do Teixeirinha. Ele o ouvia quando criança. Só porque ele considera a música tradicionalista ruim estética, ideológica e musicalmente, não significa que ele não aprecia o Teixeirinha ou qualquer outro compositor da corrente. Reproduzi mais algumas frases aí porque trato do assunto abaixo.

2) Um dos problemas do Paixão Cortes e do Barbosa Lessa era a americanização que estava tomando conta do estado e do país. Na época em que eles idealizaram o MTG, a coca-cola estava entrando em larga escala no mercado brasileiro. Em São Paulo e no Rio, o modernismo já era reconhecido como o grande movimento artístico e cultural brasileiro. O próprio Paixão Cortes já contou essa história. Então, a briga é muito mais com a McDonaldização do mundo (expressão que o Luís Augusto Fischer criou e usa correntemente), que, de certa forma, ganhou uma contribuição do modernismo pra que se firmasse pelo país.

3) Sendo assim, está aí mais uma prova de que o MTG foi inventado. Ok, até aí quase nenhum problema, porque a maioria das tradições ao redor do mundo foram inventadas. Mas quando um grupo de tradicionalistas não aceita que alguém lembre que o movimento se transformou em atração turística com objetivos meramente financeiros e especulativos, chegando ao ponto de fazer ameaças de morte (ok, talvez estivesse brincando o cara que escreveu que faria com Nei o mesmo que aconteceu com o irmão dele, mas eu não acho que possamos brincar com a tortura da ditadura militar e seus desaparecidos políticos; isso é piada de mau gosto), a coisa parece que está fugindo do controle. E vamos combinar: a maioria das pessoas que defende as tradições gauchescas não as pratica de verdade. Ou estou errado? Na hora de gritar “Ah, eu sou gaúcho!”, é fácil reunir uma multidão, mas no dia a dia quantos cultivam as tradições? Meu palpite: menos de 10% da população.

4) E por que um número tão baixo? A resposta, a meu ver, explica também por que eu acho que o Nei Lisboa será mais lembrado que o Teixeirinha pelas gerações contemporâneas e vindouras: o mundo urbano ganhou o jogo, é a lógica urbana que rege o mundo; qualquer manifestação regional fica relegada a segundo plano, como coisa menor, mal feita. Não estou dizendo que concordo que deva ser assim nem que acho isso bom. Não é, realmente. (Seria ótimo se o povo gaúcho lesse mais Simões Lopes Neto.) E o Nei é um cantor urbano. O que ele faz é música urbana, mesmo que flerte com o pop, a mpb, o rock e até mesmo com a música tradicionalista (quem não lembra a belíssima “Exaltação”?).

5) Tentando concluir, o que eu acho errado nisso tudo é que querem nos fazer engolir uma tradição inventada, que não nos exprime. E querem fazer isso de maneira tão violenta quanto o modernismo e a americanização fizeram com a lógica urbana cosmopolista sobre a periferia do capitalismo e o mundo rural (Porto Alegre, por exemplo, é uma província até hoje, mas disso já falei; o Brasil também sempre esteve na periferia do capitalismo, só agora é que as coisas andam mudando). Aí vem a pergunta cabal: Precisa ser assim? Não dá pra achar um meio termo?

9 comentários em “Resposta aberta: mais Nei Lisboa”

  1. João Batista Lopes da Silva escreveu:

    Buenas

    Minha intenção não era escrever tanto, porém, argumentos não faltam (para os dois lados).

    O comentário do Nei sobre o Teixeirinha, é claro como água, tudo o que ele (Teixeirinha) não, serviu de nada, é pior do que gostar, é praticament chamar a obra de alguém de lixo. Eu não sou tradicionalista, não frequento CTG, mas veja bem, gosto muito de muitos artistas aqui do estado e acho sim, que tem muitas coisas úteis que se pode tirar delas. Claro, se deixarmos de jogar bolita no carpete e pensar que o leite vem da caixinha, temos sim muita coisa para aprender com o homem do campo.

    No mais, a imagem de que o mundo urbano venceu está mudando, afinal o que mais cresce hoje em dia é o Turismo Rural, o Ecoturismo e afins.

    Quanto a números, pode-se medir o que vende o Nei Lisboa e a dupla César Oliveira e Rogério Mello, se é 10%, é 10%.

    Eu respeito a tua opinião mas você mesmo sabe que Porto Alegre não é parametro para nada, medir cultura levando Porto Alegre em conta é só baixar a média (de qualquer tipo de cultura).

    Um Abraço


  2. Marcelo Frizon escreveu:

    Mas João, quem faz ecoturismo e turismo rural? Gente que mora na cidade! E quem ganha dinheiro com isso? Gente que mora na cidade! Ou tu acha que tem alguém de Alegrete explorando isso e ficando rico? Em outras palavras: o mundo rural se transformou em atração turística, em algo exótico, pitoresco e antiquado. E, no momento em que ecoturismo e turismo rural tornam-se atrações turísticas pagas, no momento em que eu preciso pagar pra conhecer esses lugares que são apresentados por guias que nasceram em Porto Alegre e fizeram faculdade de Turismo em Canela, lugares do meu estado, lugares em que minha família nasceu, lugares que minha família ajudou a fazer crescer (por exemplo, Veranópolis), algo está muito errado! E esse pessoal do tradicionalismo não está preocupado com isso, porque está enchendo o bolso! Mas eles não gostam que alguém diga que isso é exploração econômica, porque fere os brios da tradição.

    Agora me diz: que tradição pode reclamar um patrão de CTG porto-alegrense que nasceu em Porto Alegre? O que que um cara que nasceu no Partenon (um dos bairros mais urbanos da capital) sabe de laçar cavalo, fazer churrasco com fogo de chão e dançar a chula?! E olha, são vários patrões que nasceram no Partenon…

    Pra fechar: o que o Nei disse sobre o Teixeirinha não significa que ele não escutasse e até gostasse do Teixeirinha na infância (eu já gostei de um monte de porcaria que hoje não escuto mais). O que ele disse é que pra ele, Nei, enquanto compositor, esse tipo de música não é suficiente, porque musicalmente é uma música pobre, tanto do ponto de vista ideológico quanto do ponto de vista estético-musical. O tipo de canção popular mais elaborado que o Brasil criou é a bossa nova. Mas até o axé e o rock brasileiro são mais elaborados que a música tradicionalista do Rio Grande do Sul. Hoje o Arthur de Faria fez um comentário interessante, no Cafezinho das 12h30min, comparando a música regional de Pernambuco com a do Rio Grande do Sul. Na realidade, não há muita comparação, porque Pernambuco consegue ter uma música regional com uma riqueza estética e ideológica, enquanto quase tudo que se fez nesse campo aqui no RS é muito fraco. Não sei qual a tua intimidade com música, mas qualquer um que sabe tocar violão deve compreender o que estou dizendo.

    (Bom, eu sou fã de Wilco, que é uma banda de folk-rock de Chicago. As canções deles são estupidamente elaboradas. Vale a pena pesquisar na rede um pouco da história deles, porque tamanha elaboração quase lhes custou a carreira. Mas o que quero dizer é que, pra mim, pouquíssima coisa é bem elaborada perto do Wilco… Tá, esse é um comentário pouco crítico, muito pessoal, mas talvez explique por que eu gosto pouco da música regional gaúcha.)

    (E eu gosto de música regional. Adoro música caipira — caipira de verdade, não me venha com sertanejo –, adoro os ritmos pernambucanos, adoro bossa nova — afinal, é um ritmo regional, né?! rsrsrs… — e adoro o folk americano, que é música regional.)

    Mas eu concordo numa coisa contigo (pelo menos em uma) nesse teu comentário: temos muito pra aprender com o homem do campo. Por isso me incomoda que o homem do campo e que o campo em si só sejam lembrados com essa visão capitalista e que sejam tratados com tanto exotismo…


  3. João Batista Lopes da Silva escreveu:

    Marcelo,

    Sua visão é um tanto radical, quer dizer que se alguém nasceu no Centro, no Partenon, no Moinhos, etc, está condenada a somente querer conhecer coisas urbanas? Meu cunhado nasceu em Brasília, morou no Rio e na Bahia, a vida toda em condomínio fechado nestes locais e depois ali na Bento Gonçalves (quando conheceu minha irmã em um Fandango) e hoje mora aqui no Lami (Zona Rural) e lá é ginete e guasqueiro (trabalha com couro).

    Como ele, muita gente trabalha a semana toda “na cidade” e não vê a hora de sair de cena e ir para o meio do mato, para o campo, plantar, andar a cavalo (procure saber quantos pensionatos de cavalo existem em Porto Alegre, onde as pessoas que moram na cidade deixam seus cavalos). Uma coisa não invalida a outra.

    Minha esposa estava fazendo uma entrevista para emprego no inicio do ano passado, em determinado momento, o avaliador perguntou o que ela gostava de fazer nas horas vagas.
    Ela respondeu que adorava informática e que também que adorava plantar, mecher na terra. Para espanto dela, o entrevistador disse que este comportamento era anormal, como uma pessoa que gosta de informatica gosta também de plantar… E olha que ela é urbana.

    Quanto ao Turismo Rural, não é minha intenção fazer propaganda, mas não custa indicar, a propriedade do meu pai, fica no Lami e lá ele recebe visitas (muitas por sinal), lá você pode conhecer como se cultiva alimentos orgânicos, caminha por entre as plantas, recebe explicação, dicas e orientação para cultivar sua horta ou jardim sem usar veneno e tal. E sabe quanto você paga por isso? Nada, é de graça, você só paga se comprar algum produto do local (você é livre para isso). E ele não é o único são vários dentro de Porto Alegre (procure mais sobre Caminhos Rurais Porto Alegre, Tio Juca). Claro, se a visita for feita por uma agência é cobrada, mas se for agendada direto, não custa nada.

    Quanto a qualidade da música, ora convenhamos, gosto é gosto se você ou o Arthur de Faria ou Nei Lisboa acha de qualidade baixa, não posso fazer nada… Talvez a música gaúcha seja caracterizada pela simplicidade nos arranjos, e eu concordo. Se é arranjo que você quer, que tal procurar a música Anunciação, do Grupo Minuano (Já ouviu falar?).
    E quando o arranjo não importa, e sim a mensagem, que tal O Colono (do Teixeirinha, se o Nei Lisboa não aprendeu nada com isso paciência) ou então A Volta do Sorro Manso (Pedro Ortaça).
    Porcaria musical tem em todo o lugar aqui, na Bahia, nos EUA, etc… E coisas boas também.

    Desculpa a quantidade de linhas.

    Um Abraço


  4. Marcelo Frizon escreveu:

    1) O que quero dizer é que quando uma pessoa nascida no Partenon torna-se patrão de CTG, ele não está fazendo isso porque cresceu com essa experiência, com a sensibilidade do homem do campo. E pode ter certeza que os patrões nascidos em Porto Alegre não gostam que ninguém saiba que eles nasceram na cidade, porque isso denuncia a exploração financeira em cima da tradição.
    2) Eu moro na Vila Nova, no meio dos caminhos rurais de Porto Alegre. Ok?! Ok.
    3) Gente como o entrevistador da sua irmã não devia trabalhar com RH.
    4) Fiquei confuso: tu entendeu ou não que quando eu escrevi que o que Nei quis dizer com “a música da minha terra (…) me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente” significa que que a música tradicionalista do RS tem simplicidade nos arranjos? Porque tu concorda com isso, mas depois parece discordar. Na realidade, as letras também são fracas (do ponto de vista literário, em geral, são péssimas). É claro que existem exceções e é claro que existem canções simples que eu aprecio, inclusive canções tradicionalistas do RS, mas isso não quer dizer que a estrutura musical delas seja de alta qualidade e, muito menos, que deve ser o objeto de desejo de qualquer músico. O único músico e compositor gaúcho com alto grau de elaboração na sua arte é o Yamandú Costa. O resto pode ter tido alguma luz uma vez ou outra, mas não pode ser pensado como exemplo de alta qualidade musical, do ponto de vista estético.

    Ok?! Ok.


  5. João Batista Lopes da Silva escreveu:

    1) Óbviamente não cresceu com a experiência e vivência do homem do Campo, mas pode ter procurado entender a ponto de ter absorvido muita coisa, OK? Ninguém vira patrão de CTG por acaso. E acho que neste caso existe sim quem explore como você argumenta, mas também quem não está no cargo de patrão para explorar, Ok? Em toda a sociedade temos isso (mocinhos e bandidos), não é?

    2) Legal, e conhece? Por estar mais próximo ao meio, já foi a um Fandango? Não em CTG, mas em um salão paroquial qualquer? Já viu o quanto de gente vai?

    3) Não era a minha irmã e sim minha esposa.

    4) Realmente, eu concordo e discordo, é tão simples quando a música caipira (para comparar com alguma coisa) que você disse gostar e eu também gosto. Mas não concordo que seja esse lixo literário (em sua maioria). Não posso discutir gosto musical, o Yamandu Costa é muito bom, e evidentemente que ele é o que mais consegue se aproximar do povo da cidade. Vou mais longe para te dar argumentos, talvez o Borghetti também tenha um lugar nessa sua lista né?

    Mas fora esses dois que tem uma maior aceitação, devido a sua versatilidade (tão admirada), existem outros muito bons compositores no estado, talvez você não conheça e nem queira conhecer, cada um com seus gostos. A “falta de conteúdo literário” e a “estética feia” não são problema (tem tanta porcaria por ai que tem ampla divulgação da mídia), mas sim a diferença de estilo do urbano para o meio interiorano e isso não é só no meio musical é em praticamente tudo, essa é no meu ver, a maior barreira, o interior é obrigado a aceitar o urbano seja pela TV, pelo Cinema, pelo rádio, pelo Jornal, etc. Porque o urbano não pode aceitar um pouco o interior? Ou só os produtos colôniais é que tem espaço nas casas da cidade?

    Para não dizer que só defendi a música gaúcha, você já ouviu uma música chamada Guerra de Facões? É do Zé Ramalho em parceiria com o Falcão (aquele que canta música “brega”). Te recomendo.

    Respondendo a sua pergunta feita ainda na primeira resposta, existe sim um meio termo mas os DOIS lados precisam avançar na mesma direção para isso e não sair simplesmente dizendo que isso ou aquilo é Intragável.

    No mais meu amigo, não quero mais tomar o teu tempo e gostaria de te gradecer pela paciencia e pelo bom debate, conversar sempre é bom e certamente ambos não estamos totalmente errados. Peço desculpas se pela quantidade de linhas a cada resposta.

    Um Grande Abraço


  6. Marcelo Frizon escreveu:

    Olha, João, eu não costumo falar da minha vida particular aqui no blog. Então, os lugares que eu frequento ou deixo de frequentar são problema meu.
    Também não vou mais entrar no mérito da questão do que se aproxima e do que se distancia do povo da cidade. Eu achei que havia deixado claro, mas repito: também acho ruim esse distanciamento que o mundo urbano impõe à cultura do mundo rural (porque o mundo urbano gosta, claro, do mundo rural, mas gosta pelo apelo exótico, pelo que há de diferente nesse mundo; a culinária que você citou é mais um exemplo disso).
    Pra fechar: também acho que os dois lados deviam avançar nessa conversa. Pena que pouca gente faz isso ou procure fazer. O Neto Fagundes, comandando a Estado das Coisas (também conhecidos como Rock de Galpão), é um belo exemplo. O Vitor Ramil e o Bebeto Alves tocando milonga são outros (e esses dois surgiram fazendo música urbana).
    Agora, acho difícil que o movimento tradicionalista flexibilize suas posições, porque há muita regra a ser seguida. Mas sobre isso e mais um pouco o Marcelo Soares escreveu muito bem no seu blog: http://mtv.uol.com.br/evocecomisso/blog/o-triste-caso-da-cidade-que-se-apequenou-e-so-notou-quando-viu-sola-do-chinelo-sobre-sua-cabeca
    Só queria deixar uma última reflexão pra acompanhar o que ele escreve lá: é fato que o Rio Grande do Sul é um dos estados mais cultos e politizados do país (senão o mais culto e politizado). O gaúcho lê em média 5,5 livros por ano. A média nacional é 2. Sobre política, ele traz uma reflexão interessante que vale a pena conferir e pensar sobre. Aí cabe a pergunta: se somos os mais cultos e politizados, mesmo tendo a governadora que temos, mesmo tendo a secretária estadual de cultura que temos, o que sobra pro resto do país?
    Também agradeço o debate e a leitura.


  7. Alessandra Ostjen escreveu:

    Marcelo,
    Vou restringir qualquer comentário a uma palavra apenas:
    ADOREI!


  8. Marcelo Frizon escreveu:

    Que bom! Obrigado!


  9. Tata escreveu:

    Tô sentindo falta de post novo neste blog…


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