08/12/2010

Um escândalo chamado Tiririca? Não, um escândalo chamado Brasil

O programa Fantástico do último domingo apresentou uma reportagem sobre o desempenho num teste de leitura e escrita do deputado federal mais votado do Brasil de todos os tempos, o comediante Francisco Everardo, conhecido como Tiririca.

Segundo a reportagem, Tiririca foi submetido a um ditado de um trecho de um livro jurídico. O comediante errou oito das dez principais palavras do texto, entre elas “promulgação”, “código”, “eleitoral”, “fevereiro”, “trazendo”, “grandes”, “novidades”, “criação”, “justiça” e “eleitoral”. Além disso, ele não conseguiu escrever os números de “mil novecentos e trinta e dois”. O juiz precisou ditar número por número para que Tiririca conseguisse escrevê-los. A escrita da frase demorou oito minutos.

Na leitura, ele demorou três minutos para ler o título de uma reportagem e as duas linhas apresentadas. Além disso, cometeu vários erros de plural, eliminando vários “s” dos finais de algumas palavras, como “lojas”, “produtos”, “vencidos”, “supermercados” e “multas”.

O resultado final: Tiririca sabe ler e escrever. Foi o juiz quem disse. Tiririca poderá tomar posse. Quer dizer, isso se o promotor Maurício Lopes não obter resultado favorável ao recurso que apresentou segunda-feira no TRE de São Paulo contra a absolvição de Tiririca.

Não acho escandaloso que Tiririca tenha sido eleito com essa quantidade impressionante de votos. Nunca o considerei um bom comediante, seus trabalhos na TV nunca detiveram minha atenção por mais de cinco segundos. Não acho que suas limitações intelectuais sejam um problema tão grande para o exercício de um cargo como o de deputado federal (até porque os deputados, no fundo, lêem e escrevem muito pouco — quem faz o serviço pesado mesmo são os assessores parlamentares). Por isso, não tenho nada contra o direito de uma pessoa como ele se candidatar a um cargo público e, muito menos, contra o direito de todos os brasileiros de votar numa pessoa como ele.

Esse é um debate sem fundamento porque não se ataca o verdadeiro problema, que é um problema nacional, o da qualidade do ensino. Segundo dados do IBGE divulgados pela primeira vez em 2003 e que foram sendo atualizados desde então (embora os índices não tenham se alterado significativamente), cerca de 10% da população brasileira é analfabeta total. Os alfabetizados de nível 1 respondem por 30%, enquanto os alfabetizados de nível 2 representam 35% da população. Os primeiros conseguem ler uma manchete na capa de um jornal ou de uma revista. São pessoas que têm dificuldade para ler um parágrafo, são pessoas que identificam pelo número o ônibus que precisam pegar, porque têm dificuldade para ler o nome da linha. Pior: são pessoas que acabam se perdendo ao tentar localizar uma rua. Se tiverem um endereço anotado num papel e, ao chegarem à rua e lerem seu nome numa placa, constatarem que as palavras estão escritas de maneira muito diferente do que está no papel, vão achar que estão no endereço errado. Já os alfabetizados de nível 2 conseguem ler um ou dois parágrafos de um texto e extrair dele as principais informações. Os alfabetizados de nível 3 representam os 25% restantes da população brasileira e são as pessoas que demonstram plena capacidade para ler um texto longo.

Como as capacidades de leitura e compreensão diferem muito de pessoa para pessoa, começou a circular a expressão “analfabetismo funcional”. Os analfabetos funcionais são os alfabetizados de nível 1 e 2, ou seja, são pessoas que tiveram acesso à educação formal, foram alfabetizadas, mas não deram continuidade aos estudos ou não persistiram utilizando esses conhecimentos e apresentam dificuldades para ler e escrever. Tiririca é, claramente, um analfabeto funcional. E pode ter certeza de que eles estão muito perto de você, caro leitor. Uma das minhas convicções é esta: existem analfabetos funcionais com diploma de curso superior. Já trabalhei com pessoas assim.

E isso existe porque é do interesse das elites e do governo que assim seja. No post anterior, citei o Darcy Ribeiro, que escreveu em seu fabuloso texto “Sobre o óbvio” que está enganado quem acredita que o projeto para educação no Brasil não deu certo. Deu certo, sim, porque a intenção era justamente deixar o povo chucro.

No final do século XIX foram realizados dois censos que revelaram a triste realidade brasileira: pouco mais de 15% da população era alfabetizada. Na Argentina, na mesma época, metade da população sabia ler e escrever. Ok, alguém aí pode argumentar que isso é natural, afinal a Argentina teve mais de um gramático como presidente. No entanto, educação deveria ser uma prioridade de qualquer governante em qualquer país. Infelizmente, vivemos no Brasil, uma nação que não está realmente preocupada com o assunto, porque se estivesse não teríamos índices de leitura, escrita e raciocínio lógico tão horrorosos, não teríamos uma prova tão mal formulada como o ENEM (e não estou falando dos problemas que envolveram a aplicação da prova, estou falando da prova em si), não teríamos um ministro da educação como o que temos, responsável por criar essa prova esdrúxula totalmente desvinculada da realidade do que é ensinado nas escolas. Isso tudo é que é realmente escandaloso, não a eleição do Tiririca. Ou seja, não precisamos de pessoas com comprovada capacidade intelectual para comandar o país. Lula é a prova disso, afinal nosso presidente fez um dos melhores governos da história, por mais difícil que seja admitir isso para alguns. Precisamos de pessoas que queiram fazer a mudança. Se o Tiririca contribuir para isso, sua eleição terá valido a pena. E, vamos combinar, já estava na hora dos analfabetos funcionais, 65% da população brasileira, terem um representante no congresso nacional.

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