21/03/2008

losers não gostam de losers

Antigamente não era legal ser loser. Loser significava exatamente a sua tradução: perdedor. Há cerca de 15 anos, loser virou sinônimo de gente descolada, inteligente, com gosto refinado. Não que os losers originais tenham deixado de existir, mas a impressão que tenho é de que uma nova geração surgiu, cheia de carisma e capacidade intelectual. Os dois melhores exemplos vêm da música: Beck e a banda weezer (assim mesmo, com todas as letras minúsculas, porque fica mais loser). Ambos são artistas que surgiram fazendo uma espécie de apelo e homenagem aos losers. Ser loser é uma questão de atitude e estilo, e se você já viu ou ouviu esses artistas, sabe do que estou falando. Mas outros bons exemplos surgiram: The Magic Numbers, Belle & Sebastian, Arcade Fire… Até aqui em Porto Alegre tivemos uma banda maravilhosa chamada winston (mais letras minúsculas!), representante disso que parece estar virando um movimento ou um estilo de vida (pena que a banda acabou), como os mods nos anos 60 (banda exemplar: The Who) e os emos dos anos 2000 (embora eu prefira não arriscar nenhum exemplo porque não conheço nada de emo — e nem quero).

Mas a coisa começa a mudar de figura quanto tratamos de cinema. Os losers não gostam de ser retratados. Gostam de admirar artistas da área da música, especialmente enquanto não se tornam grandes astros. Agora, no que se refere a filmes, diretores e atores, se além deles próprios mais alguém acaba os conhecendo, eles deixam de gostar. Ok, estou exagerando. O problema dos losers é que eles não querem que os seus produtos sejam pop. O problema, pra eles, é que, em geral, o que é loser é bom. Vide as bandas que citei, todas muito criativas, inteligentes, inovadoras. E o que é bom é pra poucos. Os losers são, no fundo, extremamente elitistas.

Estou escrevendo isso tudo porque andei lendo alguns comentários negativos em blogs e scraps pelo orkut avacalhando totalmente o filme Juno, roteirizado pela ex-stripper, nova queridinha de Hollywood e ganhadora do Oscar de melhor roteiro original em 2008, Diablo Cody. Todas essas pessoas que assinavam esses escritos são losers, a maioria assumidos. Acham que o filme é um estereótipo com referências pop do início ao fim que ficarão datadas e, dessa forma, o filme não dirá nada a ninguém no futuro. Pode ser que isso aconteça, mas isso não significa que o filme não diga nada pras pessoas hoje e que não pode ser valorizado por isso, já que diz muito, mesmo. Mas eu não creio que isso possa ocorrer. Se fosse assim, ninguém mais leria José de Alencar, porque os índios foram praticamente dizimados e as aventuras idealizadas apresentadas em romances como O Guarani e Iracema não têm chance alguma de voltar a acontecer no Brasil.

A maioria dos comentários que li também atacavam o divertidíssimo filme Pequena Miss Sunshine. Ok, quem concorda comigo acha que é só mau humor, que na realidade os novos losers são uns chatos. Não são, pelo menos não todos, porque não depende do estilo da pessoa para ser chato ou não (um comentário que li pelo orkut dizia que “Juno é cinema pra quem não gosta de cinema” — o autor dessa pérola crítica, além de assumidamente loser, parece realmente ser uma pessoa chata). Mas se é chatice os losers acharem que Hollywood não pode apresentar bons filmes e que precisa lidar sempre com os mesmos roteiros (já que Juno e Miss Sunshine são filmes totalmente off-Hollywood), então aí sim eles são chatos, porque qualquer filme independente e inteligente que se transforma em sucesso deixa de ser atraente pros losers, especialmente se eles estão aí retratados.

Os losers que possivelmente estão lendo isso tudo devem estar pensando “esse cara não entendeu nada”, algo típico entre os losers, porque só eles entendem tudo. Isso é outra característica dos losers: eles são muito arrogantes contra quem não é loser. Entre eles, são bons amigos, se acham todos divertidos e inteligentes.

Para provocá-los mais um pouco, Ellen Page (a protagonista de Juno, odiada pelos losers) apresentando Wilco:

9 comentários em “losers não gostam de losers”

  1. Fernando escreveu:

    A.K.A. Indies :D


  2. xerxenesky escreveu:

    Olá!

    Sou o autor da pérola crítica mencionada acima. Fernando me enviou para cá, mostrando que minhas asneiras via orkut ganharam mais destaque do que o imaginado.
    Uma coisa: daonde tirou que sou “assumidamente loser”? As outras pessoas podem me achar loser, claro, mas “assumidamente”? Se for para me colocar num rótulo besta, eu entraria como um proto-dândi, por me importar demais com bons vinhos, comer bem e colocar a estética (especialmente no cinema) acima de tudo.
    Quanto a ser chato – acertou em cheio. Sou chatíssimo. Como se percebe por esse comentário.

    Não detestei Juno por me sentir retratado nele. Gosto de muitos outros filmes que me retratam de forma bem mais fiel do que Juno. Achei ele um filme artificial, quase um bloco publicitário marketeado para indies. Acho que reune diversos clichês do que é “ser alternativo” hoje em dia. E acho a personagem principal muito falsa e chata por só falar através de respostas sarcásticas com referências pop. Mas te enganou quanto a odiar a Ellen Page. Adoro ela, em especial no excelente MeninaMá.com, que é muito mais filme que Juno, na minha opinião.

    Mas claro, é muito egocentrismo eu achar que sou um dos principais alvos do post – até porque gosto muito do Little Miss Sunshine.

    E admito aqui, como admitiria em outros lugares, que me equivoquei ao dizer que o filme vai ficar datado. Acho que muitas piadas vão cair no vazio – assim como quando assistimos certos filmes do John Hughes hoje em dia. Mas datado foi exagero da minha parte, admito isso.

    Se quiser continuar a discussão, meu e-mail está aí.
    Um abraço,
    Antônio


  3. xerxenesky escreveu:

    E outro adendo:

    Realmente acho que fui mal compreendido se consto como “loser” e “ser loser” é gostar de coisas enquanto elas não viram famosas. Spielberg é um dos meus diretores favoritos, adorei Transformers, amo Justin Timberlake.

    O que não me impede de ser profundamente elitista. Eu sou muito elitista. Por isso acho que não entendeu minha crítica ao Juno. Não é por “me retratar” ou por “fazer sucesso”. Que diabos, se fosse assim não gostaria do ótimo Sideways (sobre losers E que fez sucesso). Minha implicância com Juno é de outra ordem – para mim ele é um filme esteticamente vazio, com um roteiro bastante incoerente que está sendo visto como Grande Cinema pelos “antenados”. Até o Roger Ebert (ok, não que ele seja muito respeitável) colocou Juno como filme #1 do ano. Não parece que isso é cultuar mediocridade? Como preferir Juno a Sangue Negro? Sim, gosto é gosto, mas se nós (e agora te incluo, mesmo sem te conhecer) fôssemos tão tolerantes quanto ao gosto alheio, nem brigaríamos sobre essas bobagens.

    Outro abraço,
    Antônio


  4. frizon escreveu:

    Oi, Antonio!

    Em primeiro lugar, obrigado pela leitura e pelos comentários. Realmente não nos conhecemos, e realmente minha crítica não era dirigida a uma única pessoa, como achei que havia ficado claro no post, porque li várias críticas atacando Juno e relacionando este com o Miss Sunshine.

    Se você é quem estou pensando que é, você é muito parecido com o vocalista do Weezer. Os óculos de vocês são iguais… hehehe… É inevitável a relação, a meu ver. Mas não escrevi isso pra te atacar ou ofender nem nada parecido, embora essa impressão possa transparecer. Até porque senão eu não escutaria Weezer…

    No fundo, todas as pessoas com gosto refinado são chatas. Eu também sou muito chato. E não vejo problema nisso. Só acho que teu comentário sobre Juno superou os limites. Dizer que é cinema pra quem não gosta de cinema é forte demais. Cinema pra quem não gosta de cinema são aquelas babaquices tipo Click, Recém casados, etc. Filmes a que não assisti, devo confessar, porque sou chato, hehehe…

    Quanto à Ellen Page, vale o que escrevi acima. Não disse que você não gosta dela, mas tem muita gente atacando a menina. Também tem muita gente exaltando-a, o que acho exagerado, apesar de considerá-la uma boa atriz. O comentário sobre ela foi motivado porque ela apresentou o Saturday Night Live com a pariticipação musical do Wilco, que é uma banda para público refinado, o que é uma pena. Normalmente, quem gosta de Wilco não aprecia o universo pop feito para ser consumido rapidamente. Acho uma pena porque gostaria que eles fizessem mais sucesso, embora eles não façam questão disso, mas pelo menos assim eles viajariam mais, fariam mais shows fora dos EUA e os seus discos e dvds seriam todos lançados no Brasil e em outros países, muito melhor do que gastar dinheiro importando.

    Quanto a ser elitista, isso é algo que me incomoda profundamente, mas para explicar isso é necessário refletir de outra forma.

    Quando entrei no curso de Letras, com 17 anos, tinha o claro objetivo de ser professor de Literatura do Ensino Médio, porque eu gostava muito de Literatura. Acho que tive ótimos professores de Língua e Literatura no colégio, professores que estimulavam a leitura e que sabiam mostrar a qualidade do texto literário. Bem, estudei num colégio particular, em que isso deve ser a tônica, embora seja extremamente difícil conseguir fazer um bando de adolescentes gostar de ler, independente da classe social que o colégio atinge. Eu acreditava que podia ajudar nisso, que podia trabalhar com adolescentes e mostrar a eles como a Literatura pode melhorar a vida deles. Continuo acreditando que isso é possível, embora meus objetivos profissionais não sejam mais restritos ao EM.

    Não consigo aceitar que boa Literatura, bom Cinema, boa Arte, enfim, deva ser algo restrito a uma pequena parcela da população. Se todos os professores começarem a ter essa perspectiva, e muitos têm, o Brasil continuará a ser um país burro, sem cultura, sem memória e sem sensibilidade. Enquanto não se investir na educação, e desde que voltamos a ter democracia isso não ocorreu, continuaremos lidando com violência, problemas de saúde e falta de emprego. É a educação que pode mudar isso, que pode tornar o país desenvolvido, organizado, inteligente, a meu ver. É claro que esses problemas também devem ser combatidos, mas se a educação não receber investimentos, esses problemas precisarão continuar sendo combatidos da mesma forma, ou seja, nada vai mudar, sempre teremos violência, problemas de saúde e falta de emprego. Não que a educação possa acabar com tudo isso, mas pode diminuir radicalmente. Só depende dos nossos governantes quererem…

    Concordo que Sangue Negro é um grande filme e que Juno não é o melhor filme do ano, mas é um belo filme. Gosto de listas (Nick Hornby mostrou como elas podem ser divertidas e fazer sentido), mas Sangue Negro é completamente diferente de Juno, que também é diferente de Sideways e Miss Sunshine. Se formos fazer comparações desse tipo, acho que a discussão perde força, independente das posições que assumirmos.

    Mas eu não disse que losers não gostam daquilo que é pop. Acho, pelo contrário, que são pessoas que normalmente absorvem tudo sem maiores preconceitos, mas que preferem que alguns produtos não se tornem mainstream. Será que o Weezer continuaria a fazer sucesso entre os losers se se tornasse um mega sucesso mundial? A meu ver, é claro que não. É lógico também que isso é algo completamente surreal, porque os membros da banda não têm essa pretensão, me parece até que pelo contrário, mas é legal ficar fazendo esse tipo de suposição.

    E isso tem a ver com elitismo. Todos deveriam ser apresentados a Kafka, todos deveriam poder ter acesso a Kafka, eu acho. E nem tudo que é pop é ruim, realmente. Vide Érico Veríssimo, Jorge Amado, pra continuar pensando em literatura.

    Acho que minha resposta ficou um pouco confusa, fragmentada. Mas, enfim, acho que meu ponto de vista ficou claro, né?! Fique à vontade para comentar por e-mail ou por aqui, se quiser.

    Abraço!


  5. Fernando escreveu:

    Popularização da cultura. YaY.

    Acho que eras isso. :)

    Total to trazendo público para este blog.


  6. Carlos André escreveu:

    Ponto número um:
    Se esse post abrisse o flanco ao diálogo, eu diria que, apesar de totalmente “off-Hollywood”, Juno e Pequena Miss Sunshine são produto de uma linha de montagem “cult” que lança mão de tantas fórmulas e clichês quanto os blockbuster ou as comédias nos moldes “Click” citados. Senão vejamos: personagens a quem se tenta dar uma individualidade por meio de alguma bizarrice, relações familiares disfuncionais mas ainda assim pautadas por um sentimento de afeto legítimo que, ao fim, redime pela força da união familiar ou da aceitação tanto quanto o “encontro romântico redime a heroína suspirante numa comédia romântica.

    Ponto número dois:
    Não dá para dizer isso porque o tom retórico do post não permite contestação. Qualquer discordância, a partir da forma como o texto foi estruturado, é passível de ser atribuída a um loser que não gostou do filme por ser loser e se ver ali retratado. Como eu não gostei de nenhum dos dois filmes, Pequena Miss Sunshine e Juno, e não me considero loser, mas sim nerd (acho que houve, a propósito, um equívoco concentual entre loser e nerd – os nerds já foram os losers há 20 anos, hoje estão por cima da carne seca impondo seus gostos. E aí pode ser que alguns gostos “losers” do passado sejam redimidos por nerds em postos mais confortáveis hoje), não tenho como me ver retratado em nenhum dos deles (não tenho, até melhor juízo, pedófilos, suicidas ou gurus de auto-ajuda na família. E a filha que tive na adolescência não foi para adoção).


  7. frizon escreveu:

    Eu prefiro assistir a um filme “produto de uma linha de montagem ‘cult’ que lança mão de tantas fórmulas e clichês quanto os blockbuster ou as comédias nos moldes ‘Click’ citados” do que as comédias nos moldes Click. Normalmente, são mais inteligentes do que estas.

    Quanto a problemas conceituais, o Fernando e o Antonio (num e-mail enviado particularmente) acham que estou tratando de de indies, tu de nerds. Eu prefiro continuar usando losers, que me parece mais global… hehehe… De qualquer forma, eu não queria atacar ninguém e por isso nem citei os nomes dos autores dos textos que li ou os sites onde esses textos podem ser encontrados. Só quis dar minha opinião sobre filmes que gostei e que percebi estarem sendo massacrados não pelas suas características cinematográficas, mas porque essas pessoas, que têm no fundo uma vida parecida com a dos filmes em questão, não gostaram de se ver ali retratadas, embora nunca venham a admitir isso com essa clareza, a meu ver.


  8. Fernando escreveu:

    Ah, eu gostei do filme, esqueci de informar isto.


  9. Jana escreveu:

    Olha,sinceramente odeio essa mania que as pessoas têm de rotular tudo,porque os rótulos é um dos motivos que faz com que aumente o preconceito,seja consciente ou não.Estaria mentindo se lhe dissesse que não rotulo,pois sou humana,e querendo ou não,é muito difícil não deixar que a sociedade não te corrompa.É claro que não estou lhe escrevendo para ficar falando sobre o que eu penso ou o que eu deixo de pensar.hahahaha
    Só queria lhe dizer que,independente do rótulo que eu tenha,eu gostei do seu ‘post’,concordo com ele e amei demais do filme.
    Há apenas um porém,não em seu ‘post’ mas na discussão que teve por causa dele(ao menos eu acho que foi nesta discussão que eu li sobre isso).
    Na real é mais uma curiosidade que eu queria saber mesmo.Por que as pessoas que se consideram cinéfilas,normalmente não gostam de comédias românticas,ou filmes ‘babacões’ como ‘o click’ e ‘recém-casados’ ?Sem falar nos filmes ‘trash’.Meu Deus eles são tão divertidos!Podem muitas vezes não ter histórias tão boas,ou às vezes nem ter história, ou ser altamente previsíveis,mas enfim.Qual o problema deles?Para você ter uma noção,uma vez eu estava lendo numa comunidade sobre debates de filmes e um que me chamou atenção foi a crítica que fizeram a ‘high school musical’,dizendo que este gênero de filme nem deveria existir!OMFG são adolescentes meu pai,será que agora as crianças e adolescentes não podem ter um gênero direcionado a eles sem serem criticados?Tá,tá,eu sei que não foi isso que você falou,ainda mais porque para variar mudei de assunto aleatoriamente,mas enfim,espero que você tenha entendido minha dúvida,e espero que possa respondê-la.
    Obrigada.

    Ah sim,queria só constatar,eu gosto da maioria dos tipos de filmes,sejam eles visto como inteligentes,nerds,besteróis,água com açúcar,terror,ação,suspense,comédia…
    Não estou aqui em nome das comédias românticas nem nada,só queria entender qual o problema com elas.Acho que falei demais,e por favor,espero que você não me dê o péssimo argumento que sempre ouço de que só mulheres que gostam disso,tenho vários amigos que também gostam e eles não são gays nem nada,não que eu saiba pelo menos ;D


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