06/04/2008

megera domada?

Ontem à noite fui assistir à montagem mais recente da Cia. Rústica, A Megera Domada, de William Shakespeare, dirigida e adaptada por Patrícia Fagundes a partir da tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Assim como a excelente montagem de Sonho de uma noite de verão, A Megera Domada nos apresenta com maestria uma linguagem teatral moderna, que dá mais brilho ao espetáculo. Para quem assistiu ao Hamlet, dirigido por Luciano Alabarse, não será difícil identificar alguns pontos semelhantes entre as duas montagens, como a execução da trilha sonora pelos próprios atores, o palco limpo, sem coxias, com os atores preparando-se em frente ao público enquanto aguardam a sua deixa.

Mas não é apenas isso que chama a atenção do público. Assim como em Sonho…, a peça começa com os atores interagindo com a platéia. Antes éramos recepcionados como se estivéssemos chegando a um cabaré. Agora, enquanto o público se ajeita nas (desconfortáveis) cadeiras do Teatro de Câmara, acompanhamos números de dança, piadas, música, tudo executado como se estivéssemos em frente a um show de calouros. Pode parecer bobagem, mas dá um toque de descontração importante para os atores conhecerem e ganharem o público.

Se o cabaré de Sonho… era colorido, exuberante, remetendo ao mundo mágico imaginado por Shakespeare, n’A Megera… há um trabalho aparentemente mais simples com as cores em cena, apenas preto, branco e vermelho. Aparentemente, porque Patrícia Fagundes consegue explorar todas as possibilidades dessas três cores com um belo equilíbrio. Os figurinos dos atores contrastam de maneira perfeita com as luzes e adereços empregados no palco, com gestos e passos de dança milimetricamente ensaiados.

Mas se há essa excelência na pantomima, não se pode dizer o mesmo do texto. Assim como Catarina, o texto de Shakespeare também precisa ser domado. Alguns atores, em alguns momentos, atropelaram suas falas, gaguejaram, o que não chegou a prejudicar a apresentação, mas é uma boa amostra de como o texto de Shakespeare precisa ser ensaiado à exaustão, precisa ser executado por atores que dominem totalmente a sua expressão vocal — sem desmerecer a atuação de ninguém, merecem destaque as atuações de Álvaro Vilaverde e de Felipe de Paula. Álvaro, com sua voz poderosa que vai dos graves em suas falas sorridentemente (?!) irônicas até os agudos mais agradáveis em seus doces cantos; Felipe, provavelmente o mais jovem ator do grupo, com uma capacidade impressionante para o humor e a ironia que ainda melhorará muito, certamente. Mas não quero ser impiedoso, porque o grupo dirigido por Patrícia Fagundes é um dos poucos bons grupos do teatro gaúcho. Foi com muita felicidade que acompanhei a apresentação de ontem, pois, além do grupo, esta é uma das poucas boas peças montadas nos últimos anos no teatro gaúcho, como já discuti no post sobre Hamlet.

4 comentários em “megera domada?”

  1. Melissa escreveu:

    Realmente, o espetáculo é perfeito. Palavra arriscada, mas não consigo expressar de outra forma.

    Mas com a tua análise crítica, fiquei até com medo de propagandear a minha peça… hehehe, mas lá vai: Ópera do Malandro, em cartaz desde sábado, dia 5, no teatro Bruno Kiefer, na Casa de Cultura Mario Quintana. Todas as sextas (20h), sábados e domingos (19h) de Abril. Espalhei uns folhetos lá pelo prédio de aulas da Letras e por todo o Vale, caso vejas algum.

    Ah, gostei muito do teu blog, andei lendo vários posts anteriores.

    Apareça e convide pessoas! Ainda que seja para criticar :) embora faça teatro, ainda não tenho experiência suficiente para julgar tão a fundo uma peça – justamente por isso que não consegui ver nada de “não-maravilhoso” na Megera Domada.


  2. frizon escreveu:

    Melissa, obrigado pelos comentários e pela leitura.

    Pra deixar claro novamente: eu gostei muito da Megera Domada. Só percebi que em alguns momentos alguns atores gaguejaram, travaram, tiveram dificuldade para dar a sua fala. Pode ser que isso tenha ocorrido apenas no dia que eu fui, pode ser que a entrada da Sandra Possani interpretando Catarina no lugar da Roberta Savian tenha desestabilizado o elenco (justamente no fim de semana que eu fui — queria muito ter visto a peça com a Roberta, porque a vi poucas vezes atuando e a acho uma excelente atriz… Sexy, inteligente, irônica, e, como escreveu o Roger Lerina, graciosa, que talvez seja a melhor definição pra ela; mas eu gosto da Sandra, também é uma excelente atriz, experiente, mas acho que a Catarina deveria ser interpretada por uma atriz mais jovem, como a Roberta, embora não seja grave isso… Aliás, pergunta que não quer calar: por que a Roberta saiu no meio da temporada?).

    Não foi nada que prejudicasse a compreensão e a beleza do espetáculo, mas algo que pode incomodar um crítico mais exigente do que eu, que exige perfeição. Eu não estava exigindo isso.

    E meus palpites críticos não são de um profissional do teatro ou da crítica teatral. Fiz oficinas de dramaturgia, atuei, mas tudo muito amador. Pelo menos, isso me deu ferramentas para perceber detalhes que nem todo mundo percebe, mas que tu, como atriz, deve perceber também. Enfim, escrevi o comentário sobre a peça de maneira informal, sem querer atacar ninguém e muito menos a peça da Patrícia, que deveria ser assistida por todas as pessoas que se consideram inteligentes…

    E quanto à Ópera do Malandro, hoje mesmo eu vi um cartaz lá no Vale. Já comentei com minha esposa e deveremos aparecer, sim… Aguarde, hehehehe…


  3. Camila escreveu:

    Marcelo…
    quais são os horários do teatro? Passo pelo Teatro da Câmara todos os dias, já que trabalho ali pertinho, AMO Shakespeare, e “Megera Domada” é incrível!!!
    Tu já foste ator? Que engraçado, pois sempre achei que tu tens o maior jeito mesmo de ator, cada dia descubro outro talento do senhor, né?
    Beijão pra vc e pra Vivi.

    p.s: Quincas Borba nas leituras obrigatórias!! Fantástico x)


  4. frizon escreveu:

    Camila, a peça está em cartaz até este fim de semana às 21h. R$ 20,00 com 60% de desconto para estudante. É bom chegar cedo…

    Eu fiz teatro amador, apenas. Nada demais… Mas acho que ajuda a dar aula, realmente…

    E quanto ao Quincas Borba, ele já estava nas leituras obrigatórias. O próximo vestibular é o último. Depois deve entrar outro romance do Machado, acredito… Abs!


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