01/07/2008

Plágio e compra de trabalhos…

Um dos assuntos mais comentados do momento é o caso da compra de trabalhos de conclusão de curso na Ulbra Torres. Ontem, a Katia Suman comentava na TVCOM que o problema é mais um sintoma da falta de ética que assola o país… Já eu acho que não é necessariamente isso.

A falta de ética pode acabar levando a culpa, porque realmente poucas pessoas têm e praticam ética no Brasil, mas esse tipo de crime devia ser encarado como uma falha do caráter, da personalidade do indivíduo. É um problema de formação escolar, de instrução acadêmica, mas principalmente de educação familiar.

Espera-se que as famílias discutam sexo, drogas, formação, vida profissional, mas ninguém pensa na ética. Ética também se aprende em casa! Uma pessoa que copia um trabalho de outra ou que paga alguém para realizar um trabalho não teve a oportunidade de discutir o assunto com seus pais, provavelmente. Não acredito que as pessoas que fazem esse tipo de coisa sejam todas elas canalhas.

No meio do ano passado, como muitos de meus leitores devem saber, comecei a dar aulas no Instituto de Letras da UFRGS como professor substituto de Literatura Brasileira. No início do semestre, expliquei como seria a avaliação de cada cadeira, de cada turma. Uma das tarefas era a escritura de um ensaio de 4 a 5 páginas, com espaço 1,5 entre linhas, que analisasse uma obra literária, à escolha do aluno, de acordo com o conteúdo da disciplina, e que utilizasse pelo menos um texto crítico para embasar o argumento que cada um decidisse desenvolver. Ou seja, era uma atividade com bastante liberdade, apesar de ter um direcionamento claro. E o prazo de entrega era de mais de dois meses…

Bem, dos cerca de 120, 130 alunos, por volta de 10 me entregaram trabalhos copiados da internet, a maioria deles das turmas dos bixos. Eu já fui professor de colégio e, muito provavelmente, voltarei a ser no futuro; eu sei que alunos são preguiçosos, sentem-se às vezes incapazes de realizar as tarefas solicitadas; eu sei que isso ocorre especialmente em colégio, e eu sei que seria muito utópico acreditar que esse tipo de problema não ocorreria na universidade. Mas poxa, 10 trabalhos?! E o pior: acredito que o número de trabalhos copiados era muito maior, porque eu posso não ter detectado algum nas minhas pesquisas no Google ou porque alguns alunos foram mais malandros do que os outros e fizeram cópias de trechos de dissertações de mestrado e teses de doutorado que não estão online. E eu, logicamente, não li todas as teses e dissertações que estão espalhadas pelas bibliotecas da UFRGS, muito menos todos os livros que lá estão.

Mas tem gente que chegou a copiar o material do professor Sergius Gonzaga! Poxa, eu dava aula nos colégios com o material do Sergius, eu conhecia muito bem o seu Curso de Literatura Brasileira, eu utilizei trechos do site dele (que está saindo do ar, aparentemente) para montar materiais de cursinhos populares, eu já tinha trabalhado com ele próprio no Unificado… É muita ingenuidade e burrice achar que eu não perceberia, né?! E o pior é que quem copiou de lá não eram bixos! Foram duas pessoas que já passaram dos 30, pelo menos!

Esse tipo de problema ocorreu novamente neste semestre, dessa vez em número bem menor. Acho que eles já sabem que eu tenho paciência para caçar trabalhos copiados da internet. Ou ficaram assustados porque eu disse que reprovaria automaticamente quem fizesse isso, e é o que vou fazer, apesar de ser o mínimo, porque para casos assim existe penalidade: até três anos de cadeia, o que pode ser pouco, dependendo da gravidade do caso. Já imaginaram uma tese de doutorado plagiada cujo autor foi sustentado através de bolsa de estudos? Bolsas de estudos que são oferecidas e distribuídas por órgãos do governo. Ou seja, isso pode até ser visto como um assalto!

Mas é claro que tem muita gente que faz isso na ingenuidade, não sabe como usar citações, se atrapalha na escolha dos argumentos… Enfim, como tudo na vida, esse tipo de situação também tem mais de uma versão… E dá até pra se divertir com isso: confiram o museu do plágio!

2 comentários em “Plágio e compra de trabalhos…”

  1. Gustavo escreveu:

    Realmente o problema de plágio está intimamente ligado à entrada dos bichos na universidade, talvez pela inexperiência. Mas, uma ressalva (se é que podemos chamar de ressalva), aconteceu comigo. Foi proposto um ensaio numa cadeira de primeiro semestre sobre u massunto da disciplina, era, de fato, pegar um tema trabalhado no semestre e pesquisar sobre o assunto mais a fundo, até aí tudo bem, pois foi o que fiz. No dia da entrega do trabalho tive a nota reduzida praticamente pela metade. Fiquei desnorteado porque não tiraria mais A com essa nota. A justificativa da professora foi de meu ensaio nã oestar nas normas técnicas, até aí ela só complicou mais a minha vida, pois estava falando grego comigo. Bom, ainda procuro a me habituar a normas quando escrevo um ensaio, porque não penso só em mim, mas sim no leitor e o quanto importante isso é para ele, mas no primeiro semestre era grego para mim. Fugi um pouco do tema, mas entro numa questão importante, talvez por desconhecimento. Aprendi a lidar com as normas da ABNT com minha namorada que teve na PUC, já no primeiro semestre, uma cadeira específica sobre normas. Foi o que me salvou, mas ainda procuro sempre melhorar neste sentido. Minha questão: temos na ufrgs uma cadeira parecida, e que prefencialmente fosse no início do curso? Teria feito muita importância no início do semestre.


  2. Marcelo Frizon escreveu:

    Sim, Gustavo, temos uma cadeira desse tipo, que chama-se Metodologia Científica (HUM04472) e que está sendo oferecida neste semestre (se não me engano, ela sempre é oferecida), mas é uma cadeira eletiva. A questão é a seguinte: dominar a metodologia, regras da ABNT ou seguir as normas propostas pelo professor ou por uma revista acadêmica (caso você esteja enviando um texto para publicação) é muito importante e isso deve ser respeitado. Se o autor do texto não tem esse domínio, precisa correr atrás, não pode esperar que o professor explique tudo, afinal estamos na universidade. Por melhor que seja o professor, quem faz o curso é o aluno, quem aproveita o curso é o aluno, depende dele a qualidade da sua própria formação, não do professor. Por isso o estudante universitário deve ter espírito investigativo. Não sei como foi a orientação desse teu ensaio, e eu, particularmente, prefiro dar ênfase ao conteúdo, mas a forma não pode ser totalmente desleixada, claro. Nomes de livros, por exemplo, devem estar em itálico, mas é comum os alunos escreverem sem itálico, ou com aspas, ou em negrito, ou em negrito e itálico, e às vezes de todas essas formas num mesmo ensaio. Isso é desorganização. Enfim…


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