Direto do Twitter

06/05/2009

Quem quer sair da ilha?

Até o final da quarta temporada de Lost, a série parecia muito realista. Acho que foi isso que atraiu a atenção de tanta gente mundo afora. Os mistérios foram sendo criados, alguns foram revelados, mas nenhum parecia um absurdo total (exceto talvez pelo monstro, conhecido como Lostzilla).

Atualmente na 5ª temporada, Lost parece ter entrado em conflito com o realismo. E, para quem acreditava que tudo tinha uma explicação clara, essa diminuição do realismo afeta o interesse pela série. Eu sou fã de Lost, mas começo perder o interesse que tinha, especialmente, até o final da terceira temporada. Isso graças a esse excesso de novidades sem lógica. Afinal, ressurreição, viagens no tempo, deslocamento geográfico para sair da ilha e para movê-la são elementos que não fazem muito sentido.

Ok, tenho que reconhecer, até porque sou professor de Literatura e lido com narrativas ficcionais todo dia, que sempre que tomamos contato com uma narrativa (um filme, um conto, um romance, uma telenovela, um poema épico, uma peça de teatro, etc), precisamos aceitar que o que está sendo contado tem a sua verossimilhança. Em outras palavras, precisamos aceitar que o mundo ficcional que nos está sendo apresentado é um mundo possível, ou que ali são possíveis fatos que não aconteceriam no mundo real, no mundo em que vivemos. De outra forma, ninguém leria a Odisséia ou Harry Potter (para ir de um extremo a outro).

O problema do realismo com relação a Lost é que estamos diante de uma série (ou seriado, como queiram) de longa duração, com um total de seis temporadas previstas, cada uma com cerca de 24 episódios, cada um com uma hora de duração — exceto pela quarta temporada, que teve apenas quatorze episódios em função da greve dos roteiristas. (Alguém aí pode argumentar que uma telenovela da Globo totaliza um número muito maior de capítulos do que Lost atingirá no final da série. Mas telenovelas são gravadas diariamente para serem exibidas diariamente e não costumam ter um enredo tão complexo e inteligente como uma série produzida nos Estados Unidos, seja ela uma sitcom ou uma série dramática, como Lost.) Ao acompanhar as três primeiras temporadas, que foram quase totalmente verossímeis — portanto, ao longo de três anos –, é natural que a diminuição do realismo na quarta temporada, que se radicalizou na quinta, afete o interesse do espectador. Acho que se tivesse ficado claro, desde o primeiro episódio, que Lost não era uma série realista, eu não estaria tão incomodado…

11/02/2009

Ditadura na Ópera: mais amadorismo…

Pensei em começar este post reproduzindo graficamente os sons das minhas risadas que vão acabar acordando as pessoas devido ao adiantado da hora. Eu não ia escrever nada agora, mas um jovem professor da área de Letras e estudante de mestrado em Artes Cênicas entrou em contato comigo pra me indicar uma pérola da burrice e da contradição humanas.

Vamos aos fatos: há algum tempo escrevi uma crítica sobre o espetáculo Ópera do Malandro, dirigida pelo Ernani Poeta, que comanda o grupo Coro dos Contrários. Como vocês podem conferir lá, na minha opinião, o Chico Buarque não teria aprovado a montagem de seu texto pelas mãos desse grupo caso tivesse tido a oportunidade de assistir à peça. Tá, não é uma oportunidade, porque ela é uma das piores peças a que já assisti, tanto no Rio Grande do Sul quanto fora. Mas enfim, vocês entenderam o recado.

O fato é que o Rodrigo Monteiro escreveu sobre a peça recentemente, acredito que por causa das apresentações no Porto Verão Alegre e inclusive indicou o link do seu blog aqui nos comentários. Eu registro desde já que não concordo com tudo que ele escreveu. Acho que a direção não deveria ter feito tantas opções quanto fez, deveria ter se atrelado mais ao texto original. Dessa forma, os riscos eram menores. E um grupo novo, com atores inexperientes, não pode e não deveria se arriscar tanto, ainda mais em se tratando de um grupo que tem cerca de 15, 20 atores no palco. O Rodrigo acha que, já que o Poeta optou por adaptar o texto, essa adaptação deveria ter sido mais radical. Ok, cada macaco no seu galho, pra não fugir do clichê original (no sentido de origem, claro)…

O que me chamou a atenção pro texto do Rodrigo foi uma crítica feita por um certo Anônimo ao que ele (Rodrigo) escreveu e que, lá pelas tantas, faz referência a minha singela pessoa. Já fiz comentários a respeito do anonimato na internet numa outra oportunidade. Mesmo não gostando, isso existe, é permitido e é bom que seja assim, porque sempre tem alguém com medo de assumir publicamente sua posição, sua opinião, seu pensamento. Eu nunca xingaria ninguém sem assumir minha identidade, mas tudo bem. De repente o cidadão fica com medo de ser processado, sei lá…

O fato é que fui ofendido. O Anônimo me chama de ignorante… Agora sim: hehehehehehehe… Bom, vamos enfim ler (e não ver) por que estou rindo. Para tanto, reproduzamos alguns trechos do comentário do Anônimo:

“A obra da década de 70 é ambientada nos anos 40, justamente pela semelhança histórica. Acabamos de completar 40 anos do AI-5, não seria um bom momento para mostrar uma peça que fala de uma ditadura para não falar de outra? A materialidade histórica que se reflete na linguagem do texto demonstra as relações de poder que continuam as mesmas desde sempre.”

A minha sensação é de que ele não sabe o que é materialismo histórico. Mas não quero dispersá-lo, caro leitor: por favor, concentre-se na primeira parte do trecho acima. Ok?! Agora leia este:

“Esse é o mal da internet: qualquer um, envaidecido com seus conhecimentos limitados, tem a pretensão de achar que tem condições de escrever uma crítica. Um bom crítico, com as bases e os conhecimentos para criticar teatro, sabe identificar aspectos negativos e positivos num espetáculo.”

A internet é o primeiro veículo de comunicação que a humanidade inventou que possibilita que qualquer um, em qualquer lugar do mundo, possa transmitir suas idéias de maneira livre e honesta sem depender de um grande conglomerado midiático. O Anônimo não devia ficar ofendido com o fato de que o Rodrigo escreveu uma crítica ruim sobre a peça (também porque a peça do Coro dos Contrários realmente é ruim). O Rodrigo está prestando um excelente serviço à comunidade teatral gaúcha: ele assistiu a muitos espetáculos recentes e escreveu longos comentários sobre eles. Não cabe aqui julgar os comentários. O simples fato do blog existir já deveria ser motivo de sobra para atores e diretores comemorarem. Afinal, acredito que ele, como eu, paga para assistir a um espetáculo. Pô, um pagante, que saiu de casa (correndo risco de ser assaltado, assassinado, de se envolver num acidente, etc, afinal nossas ruas e nossos teatros não são muito seguros e a maioria dos teatros não fica em locais seguros), que entrou numa fila para comprar seu ingresso, para sentar lá (às vezes em poltronas desconfortáveis), que assistiu a todo espetáculo, que voltou pra casa e, pior ainda, chegou em casa e escreveu sobre o que assitiu deveria ser motivo de orgulho independente da crítica ser positiva ou negativa. Pior seria ignorar completamente o espetáculo…

Mas o problema do Anônimo não é esse. O problema dele é com a liberdade que a internet proporcionou a milhares de pessoas falar o que pensam sobre qualquer coisa, mesmo não dominando totalmente o assunto. Então, vejam bem: ele está defendendo o espetáculo Ópera do Malandro, que ataca a ditadura, mas não quer aceitar que uma pessoa escreva e publique na internet que não gostou da peça. Isso não é sinal de ditadura?!

E aí ele me ataca:

“Postar um comentário na página daquele completo ignorante que fez uma ‘critica’ anterior naquele outro blog é realmente queimar o filme para alguém que pretenda ser sério.”

Quisera eu ser um completo ignorante… Certamente, seria muito mais feliz, não sentiria pena das pessoas que morrem de fome, assassinadas, da burrice humana, não sentiria raiva dos corruptos, dos bandidos, não assistiria a shows, filmes ou espetáculos cênicos, não freqüentaria exposições, não compraria e muito menos leria livros. Aí fico sem entender algumas coisas: por que ele colocou a palavra “crítica” entre aspas no seu comentário no post do Rodrigo? Por que ele acha que sou ignorante? Se ele quis dizer que fui ignorante no sentido de ter sido cruel ao tecer meus comentários sobre a Ópera do Malandro, talvez ele esteja certo, mas não é isso que parece. Acho que ele quis dizer que eu sou ignorante mesmo, no sentido mais literal da palavra. E cruel talvez eu tenha sido, mas injusto não. Afinal, comentei o que vi no dia em quem assisti ao espetáculo, argumentando e explicando meu ponto de vista. Minha crueldade foi toda embasada em fatos retirados da peça. Se isso não é crítica, o que é?!

O Anônimo certamente não sabe que eu fiz teatro durante anos, que trabalhei com grupos teatrais, que tenho muitos amigos atores, que freqüento os espetáculos sempre (e não só no POA Em Cena; o Porto Verão Alegre não vale a pena porque são sempre as mesmas peças ruins ou batidas, mas já escrevi sobre isso também). Também não deve saber que eu ministrei uma cadeira na UFRGS em 2008/1 chamada Literatura Dramática Brasileira. Só espero que o anônimo saiba o que é drama realmente… Porque ele não precisa saber essas coisas a respeito de mim, embora ele não pudesse me ofender dessa forma. Agora, se ele não sabe o que é drama, aí saberemos quem é o verdadeiro ignorante (aqui, no sentido de burro).

Vida longa ao blog do Rodrigo!

E roubando as palavras do professor Claudio Moreno: “ao falecer, coloquem como epitáfio em minha lápide: ‘lutou contra a ignorância, mas foi vencido. Eram muitos’”.

16/01/2009

Ano novo, língua nova

Muita gente anda preocupada com a reforma ortográfica. Sinceramente, eu não estou nem aí. Quer dizer, sei que isso vai mudar muita coisa, mas não acho que seja motivo pra tanto alarde. Em princípio, sou contra a reforma, por motivos variados, mas acho que vamos precisar de alguns anos pra ter certeza de que ela é boa ou ruim.

Uma das coisas mais inteligentes que li até agora foi o que escreveu a Carol Bensimon em seu blog Kevin Arnold para dois. Nós, estudiosos da língua ou membros de uma elite que domina o padrão culto, não podemos reclamar da reforma só porque vamos ter de controlar o que está sendo alterado. Diz a Carol: “o sujeito simplesmente diz que se negará a deixar de lado a velha ortografia para adotar a nova. O que enxergo aí é bem claro: quem domina o código linguístico não quer ver o seu poder enfraquecido frente a mudanças que ele ainda não domina. Além disso, a maioria não quer se esforçar nem um pouco para manter a posição que conquistou.” Bingo! É por isso que essa elite tem razão ao reclamar que a língua não pode ser alterada através de leis. Pode parecer papo de lingüista, mas não é, e, acredito, nem preciso explicar por quê. (Sei que agora devemos escrever “linguista”, porque o trema deixa de existir na nova ortografia, mas ainda não a adotei, porque podemos utilizar a velha ortografia por mais um tempo. Ou seja, ainda não é crime não usar a nova — afinal, a língua é regida por uma lei.)

Pra finalizar: na última segunda-feira, participei, junto com o jornalista Julio Ribeiro,  do programa Coffee Break, da rádio Band News RS, comandado pelo Guilherme Baumhardt. Uma das coisas que comentei era que a reforma vai gerar uma transformação no mercado editorial, e que vai se acabar gastando grandes quantias que poderiam ser utilizadas de outra forma. A meu ver, mesmo com o governo investindo mais do que nunca em educação, antes de reformar é preciso construir. E a construção continua capenga…

23/12/2008

Se eu tivesse uma arma, eu dava um tiro na televisão

Não costumo ser uma pessoa agressiva nem irritada. Já fui mais violento na defesa de minhas idéias, na minha forma de me expressar. Mas sinto que amadureci e melhorei. Agora, se eu tivesse uma arma ontem à noite, eu teria dado um tiro na televisão, provavelmente. Por dois motivos especiais: as propagandas de final de ano, com mensagens de carinho e alegria, estão mais insuportáveis do que nunca. Dá até vontade de vomitar. A mais insuportável é uma em que uma senhora abre a porta de casa e diz qualquer coisa do tipo “que bom que você veio, a gente passou o ano inteiro te esperando”, e aí entra o Papai Noel.

Mas absurda mesmo está a novela A Favorita, da Rede Globo. Eu parei de assistir a novelas. Houve uma época em que eu era noveleiro de carteirinha. Mas cansei. Agora, confesso que tenho dado uma zapeada nessa novela, porque todo mundo está falando dela. Ontem, no mesmo capítulo, um homossexual deixou de ser homossexual, e um político corrupto ficou arrependido de seus atos. Só mesmo em novela… Como diriam os mestres Larry David e Jerry Seinfeld, not that there’s anything wrong with that, mas poupem-me…

20/12/2008

Sergius Gonzaga matando a pau

Você não compreende por que existem leitores, críticos ou professores de literatura? Então você precisa ler o que escreveu o meu querido Sergius Gonzaga, professor da UFRGS e secretário municipal de cultura. Tá tudo resolvido…

17/12/2008

Entrevista desafiadora

Um dos gêneros mais interessantes e menos estudados dentro da academia é a entrevista. Aliás, tenho a impressão de que ela nem é considerada um gênero literário. Nunca vi ninguém referir-se à entrevista dessa forma. Mas devia ser diferente. Não estou falando de entrevistas tolas, com alguma celebridade indicando o livro que está lendo ou o que gosta de fazer aos domingos. Não estou falando de entrevistas em que nos deparamos com a reflexão de algum intelectual sobre algum assunto muito específico, sei lá, algo como o ataque às torres gêmeas. Penso naquelas entrevistas em que o indivíduo é questionado sobre questões relativas a seu trabalho, à sua experiência. Naquelas em que, mesmo diante de perguntas simples, ele consegue dissertar como se estivesse desenvolvendo uma tese ou um ensaio, defendendo uma idéia, apresentando reflexões que desafiam o leitor, desafios muito maiores do que os que ele próprio, o entrevistado, pode estar enfrentando ao tentar responder as perguntas de maneira clara, lógica, objetiva, inteligente.

Não faltam exemplos desse tipo de entrevista reunidos em livros: a Companhia das Letras publicou no final dos anos 80 dois volumes com entrevistas da revista Paris Review. Com o título de Os Escritores, gente como T. S. Eliot, William Faulkner e Jorge Luis Borges respondia a perguntas que já obrigariam elas próprias a fazer o leitor pensar. Agora, a mesma editora lançou um livro de entrevistas realizadas pelo norte-americano Philip Roth. Entre nós reúne depoimentos de Milan Kundera e Primo Levi, entre vários outros (confesso não ter lido ainda, mas deve seguir a mesma linha). As entrevistas de Antonio Candido para Luiz Carlos Jackson reunidas em A Tradição Esquecida são uma aula sobre vida, literatura e sociologia.

Mas escrevo esse post para pensar um pouco sobre a entrevista do Daniel Galera para o Fórum Virtual de Literatura e Teatro, site vinculado ao Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC), da UFRJ. Já falei da minha admiração pelo Galera por aqui, já li ou vi outras entrevistas dele, mas creio que esta tem algo que precisaria ser pensado por todo jovem professor de Literatura. Penso nos jovens porque são quem normalmente têm os julgamentos mais definidos na cabeça a respeito do que é a Literatura, mesmo tendo consciência de que ela não pode ser julgada. Reproduzo um trecho:

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Daneila Birman: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

Daniel Galera: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. “Porque a literatura busca isso”, “A literatura é aquilo”, “A literatura deve…”, “A literatura precisa de…” Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma.

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As declarações do Galera deveriam ser lidas nas cadeiras de Teoria da Literatura nos cursos de Letras. Elas ajudariam a eliminar boa parte dos equívocos em torno da figura do autor e da obra literária. Ora, nenhum autor escreve movido por um sentimento de grupo. Pelo menos não deveria ser assim. (Claro, alguém pode lembrar do Modernismo Brasileiro. Aí faço a pergunta: qual é a grande obra dos modernistas? Macunaíma? Não me façam rir porque o assunto é sério. Se considerarmos o Modernismo puro, ou seja, o da década de 20, não há uma grande obra, não há nem uma obra digna de figurar ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas, São Bernardo ou Claro Enigma.)

O verdadeiro autor de Literatura sabe que ela “contém verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma”. E por isso, críticos e professores não podem acreditar que são os porta-vozes da Literatura. Nossa tarefa é pensar sobre ela, tentar explicá-la, mas nunca acreditar que a nossa noção sobre o que é a Literatura é a única correta. Quem pensa dessa forma vai acabar quebrando a cara, mais cedo ou mais tarde. E estão fadados ao fracasso e ao esquecimento os autores que encaram a Literatura como uma “entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho”.

Quando a Literatura deixar de ser tratada como uma entidade (porque ela é tratada assim pela maioria das pessoas, sejam leigos ou especialistas) e quando a Literatura deixar de ser encarada com o caráter escolar que ainda possui no país, talvez tenhamos uma sociedade mais inteligente com menos desigualdade e menos barbárie. Mas isso já mereceria outro post, que fica pra outra hora.

30/11/2008

Muitas capitus…

Elisa LucasHá duas semanas, fui assistir ao espetáculo Confesso que capitu, da minha amiga Elisa Lucas. Trata-se de um monólogo, dirigido pelo Roberto Birindelli, escrito pela própria Elisa, que interpreta a personagem mais misteriosa da Literatura Brasileira: Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Devo confessar que uma adaptação desse tipo normalmente me deixa apreensivo. É difícil transpor para o palco uma adaptação inteligente de um livro tão importante e fascinante. Mas Elisa consegue superar essa dificuldade muito bem. Na realidade, ela não interpreta Capitu do início ao fim: a peça traça um paralelo entre a personagem e uma moça que descobre a personagem. Com engenho, Elisa encarna as várias facetas dessa mulher sedutora, infeliz, que detona o conflito psicológico do pobre Bento Santiago.

Quem não assistiu ao espetáculo, tem a oportunidade de conferi-lo nesta semana. A peça de Elisa está dentro da programação do VII Fórum de Literatura Brasileira e II Fórum de Literatura Portuguesa e Luso-Africanas, que ocorre de terça a quinta, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues (Érico Veríssimo esquina com Ipiranga) e na Escola Técnica da UFRGS (Ramiro Barcellos esquina com Ipiranga). As apresentações da peça serão na Sala Álvaro Moreyra (no Centro Municipal de Cultura), às 21h de terça e quinta, dias 02 e 04 de dezembro. Para os participantes do Fórum, haverá desconto especial (mas confesso que agora não sei os valores exatos…).

E na semana que vem, estréia na Globo a minissérie Capitu, também baseada em Dom Casmurro. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a narrativa terá uma linguagem não-realista, que está se tornando a marca do diretor (vide Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino), e faz parte do projeto Quadrante, que ainda adaptará Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e Dançar Tango em Porto Alegre, de Sergio Faraco.

Michel Melamed como BentinhoNormalmente, Carvalho é muito feliz nessas suas aventuras que misturam literatura, cinema e artes visuais. Vamos aguardar o dia 09/12 pra ter certeza de que a coisa é tão boa quanto parece. Pelo menos, acho que numa coisa ele já certou: Michel Melamed vivendo o Bentinho adulto. (Já a Maria Fernanda Candido interpretando a Capitu adulta me parece um tiro no pé. Ela já viveu uma Capitu naquele filme Dom, uma das maiores porcarias do cinema nacional. Apesar disso, acho que o Carvalho é um diretor muito mais inteligente do que o Moacyr Góes e deve ter aproveitado o que ela tem de bom. Veremos.)